Os parceiros do Rio Bonito
Antônio Candido
Já dizia o historiador e
antropólogo potiguar Câmara Cascudo: “o melhor do Brasil é o brasileiro”.
Memes, comentários contrários e reportagens televisivas à parte, a frase deste
apaixonado pelo folclore e pela história do Brasil faz todo sentido ontem e
hoje. Afinal de contas, o maior patrimônio de um país é o seu povo e cada nação
deve ter orgulho de seus filhos.
Começamos a resenha desta
semana com um pouco de brasilianismo, para não deixar que os pessimismos de nossos
dias, as inúmeras corrupções políticas e as incertezas do futuro frente a um
vírus e suas consequências, nos arranquem a alegria de ser quem somos e a vontade
de continuar acreditando em nosso futuro.
Cabe-nos, nesta resenha,
apresentar mais uma das muitas obras clássicas que a historiografia deste país
produziu. É sempre bom lembrar que o Brasil ao longo dos séculos, gerou grandes
pensadores e ilustres nomes para o cenário nacional e mundial. Nós brasileiros,
contudo, precisamos valorizar mais o que é nosso e crermos no material humano
que temos.
A obra apresentada
nesta semana, “Os parceiros do Rio Bonito”, é a consolidada tese de
doutorado em Ciências Sociais, defendida em 1954 na Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da Universidade de São Paulo por Antônio Candido, que foi
publicada em 1964 na coleção Documentos Brasileiros da Editora
José Olympio. Trata-se de um dos maiores clássicos das Ciências
Sociais no Brasil, estudado por inúmeros graduandos em História e fonte de
inspiração para dissertações de mestrado e teses de doutorado. Em 2010 foi
publicada uma nova edição contendo material inédito.
O carioca de nascimento, Antônio Candido de
Mello e Souza, tornou-se paulistano de coração. Na verdade, viveu grande parte
de sua infância entre o interior de Minas Gerais e de São Paulo, fixando-se na
capital paulista ainda jovem. Foi um estudioso do “homem brasileiro” e crítico
literário, por isso mesmo, seus estudos servem como marco do pensamento crítico
nacional. Contemplado ao longo da vida com vários prêmios nacionais e
internacionais (Jabuti, Machado de Assis, Juca Pato, Camões, entre outros)
estreitou laços de amizade com uma geração de grandes escritores como,
Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Oswald de Andrade. No campo da política foi
um militante dos partidos de esquerda, atuando junto ao Partido Socialista
Brasileiro e envolvido no processo de fundação do Partido dos Trabalhadores.
Era um socialista declarado. Morreu em 2017 aos 98 anos afiliado ao PT. Sua última
intervenção naquele partido foi a defesa da candidatura de Dilma Rousseff em
2010.
Já deu para perceber que o autor dispensa
grandes apresentações e que fazer uma resenha de sua obra torna-se um certo
desafio, afinal de contas, ao desenvolver um texto, que embora tenha como base
uma pesquisa acadêmica associada às Ciências Sociais, ele traduz elementos do
pensamento, da tradição e da formação sociológica do povo brasileiro no início
do século XX. Na verdade, nas décadas de 1940 e 1950, tomava corpo no país uma
investigação baseada na influência que a modernização gerava sobre seus
cidadãos.
Para produzir sua tese, Candido irá fazer uma
pesquisa de campo, chegando a morar por algum tempo junto aos “caipiras
paulistas”, mais especificamente junto aos
parceiros[1]
da região de Rio Bonito, hoje
Bofete, próximo a Botucatu no interior paulista. São estes homens e mulheres,
citados na obra com seus nomes, hábitos e costumes, que irão gerar um material de
caráter antropológico, sociológico e histórico, rico em detalhes, de fácil
leitura e até mesmo capaz de gerar empatia/simpatia nos leitores.
No primeiro capítulo nos deparamos com a
posição do autor em relação a fonte de sua pesquisa: o “caipira paulista em
transição ao urbano”. Ele vai deixar bem claro que seu estudo é feito sobre
peculiar ator brasileiro do interior paulista, diferente do caboclo ou do
camponês, restrito, portanto, a uma área de influência local: o interior paulista.
A pesquisa nasce justamente de uma investigação sobre a poesia popular presente
no cururu[2], que vai adquirindo com o passar do tempo versões distintas,
refletindo nelas as mudanças pelas quais o brasileiro está passando a nível
mais geral, sentidas particularmente na vida do caipira paulista.
A obra segue e os hábitos daqueles homens e
mulheres “isolados” e “autônomos” são aos poucos apresentados. Dieta
nutricional, vestuário, abrigo, técnicas de produção de alimentos são
caraterizados e mostrados numa sociedade em movimento, que rapidamente vai
passando por mudanças significativas. O estudo particular feito sobre os
alimentos, a produção dos mesmos ou a obtenção deles na natureza é essencial
por pormenorizar uma vida baseada na subsistência e no tempo/recursos gastos
para a alimentação. O empobrecimento da dieta alimentar naquele ambiente será,
para Candido, nítido reflexo do empobrecimento social da vida rural.
Nesse meio tempo, em face ao industrial e
urbano que se avizinha, cabe aquele cidadão rejeitar a vida antiga, migrar para
cidade ou permanecer ali e se adaptar a viver com o mínimo necessário para sua
sobrevivência. Ao logo da obra, Candido cita exemplos que observa de suas duas
estadias na região, a primeira em 1948 e a segunda em 1954, cujas mudanças em
hábitos e costumes são nitidamente observadas. Ao se adequar entre sua vida
“antiga” e o “novo” que rapidamente se introduz, o caipira tradicional
necessariamente adota traços sociais urbanos em seu dia a dia.
Desta forma, o parceiro vai pouco a pouco
sendo arrastado para a modernidade. Vivendo nas condições mínimas de
sobrevivência entre o “antigo” e o “novo” ele vai se ajustando, vivendo uma dualidade.
As condições para produção de alimentos, de artesanato, de vestuário e moradia,
variam agora entre o que é produção própria e o que conseguem comprar “da
cidade”. O apego entre aquilo que é tradicional e o que é moderno é dúbio,
deixando o caipira em condições de profunda crise.
Já não dá para substituir o que ele produz
pelo industrializado porque seu dinheiro é pouco; as relações sociais não são
mais as mesmas e os laços comunitários vão aos poucos se quebrando; os costumes
de produção compartilhada e mesmo de partilha dos alimentos produzidos são
personalizados. Nasce uma cultura nova, muito mais individualizada e
individualizante, levando consequentemente ao fim daquela vida baseada nos
costumes, nos meios de produção e na religiosidade do caipirismo.
Ao final da obra, emerge das páginas o
político Antônio Candido, preocupado com aqueles homens e mulheres que
necessariamente estão entrando na modernidade. Para o autor eles precisam ser
bem incorporados a urbanização. Já que estão “condenados” a se urbanizar, que
seja trilhando um caminho que “bem os urbanize”, que não lhes sobrem nas
cidades apenas os lugares da mão de obra barata ou do meretrício. No campo, que seja dado a estes remanescentes
da cultura tradicional um pedaço de terra digno, onde possam viver, plantar,
colher e bem comer. Que haja enfim, uma tão sonhada reforma agrária.
Finalizando, resta assinalar que se o êxodo
rural pode desorganizar violentamente as famílias de caipiras pobres (entre os
quais recrutam-se a maior parte das prostitutas das cidades), a urbanização do
caipira que permanece na terra encontra na família um elemento de adaptação que
permite aos indivíduos transitarem de um a outro sistema de padrões e manter a
coesão necessária ao trabalho produtivo e à manutenção dum código moral. (Candido,
1997, p. 254)
As
ideias de Antônio Candido continuam atualíssimas. Aliás, ele tem sido estudado
a exaustão por pensadores modernos e seu pensamento fez escola no modo USP de
pensar o homem moderno. Tanto tempo depois, seu sonho de uma reforma agrária,
de um “campo” mais justo para o simples “parceiro” e de relações mais iguais
nos meios de produção rural e urbano, continuam a ecoar em uma sociedade cada
vez mais individualizada, capitalista e urbana.
[1] A parceria é uma relação na qual o camponês não é proprietário da terra, embora possua a casa em que mora dentro da fazenda. Ele trabalha um pedaço de chão, junto com a família e entrega uma parte do produto ao fazendeiro, ficando com o resto. A parte do fazendeiro ia de 20% a 50%, a depender dos benefícios postos por este antes de começar a labuta. A relação de parceria dava ao trabalhador a dignidade social de um sitiante, embora juridicamente não o fosse, por não ser proprietário do terreno cultivado.
[2] Dança cantada do caipira paulista baseada em desafio entre dois repentistas.
Notas sobre o autor
Antônio Candido (1918-2017) foi
um sociólogo, crítico literário, ensaísta e professor brasileiro, figura
central dos estudos literários no Brasil. Autor de “Formação da Literatura
Brasileira”, livro fundamental para quem quer entender a literatura nacional. Nasceu
no Rio de Janeiro, no dia 24 de julho de 1918. Filho do médico Aristides
Candido de Mello e Souza e de Clarisse Tolentino de Mello e Souza, recebeu as
primeiras lições em casa, com sua mãe. Ainda criança, mudou-se com a família
para a cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais.
Em 1935, já residindo em São
Paulo, concluiu o curso secundário no Ginásio Estadual de São João da Boa
Vista, no interior do Estado. Entre 1937 e 1938 estudou no curso complementar
do Colégio Universitário da Universidade de São Paulo (USP). Nessa época,
militava no Grupo Radical de Ação Popular, contra o Estado Novo, no governo de
Getúlio Vargas.
Em
1939, com 21 anos de idade ingressou no curso de Direito da Faculdade de
Direito do Largo São Francisco e também no curso de Ciências Sociais da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Abandonou a Faculdade de
Direito no 5º período e concluiu o curso de Ciências Sociais em 1942. (Fonte: https://www.ebiografia.com/antonio_candido/ acessada em 16/09/2020).
Referências
Cândido, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a
transformação dos seus meios de vida. 8ª ed. São Paulo: Editora 34, 1997.
Matéria na folha de São Paulo sobre o “último
parceiro do Rio Bonito”:https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2504200106.htm
acessada em 16 de setembro de 2020.
Caminha, Pedro. O caipira diante da urbanização: a mudança nas vidas de “Os Parceiros do Rio Bonito”. Resenha publicada na Revista IDeAS, v. 1, n. 1, p. 95-101, jul-dez. 2007.
Rocha, Hugo Mateus Gonçalves. Ensaio, ciência e história em “Os
Parceiros do Rio Bonito”: uma leitura historiográfica da obra de Antônio
Cândido. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História
da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas
Gerais. 2017.
Resenha
escrita por Alvaci Mendes da Luz em 28 de setembro de 2020




Nenhum comentário:
Postar um comentário