POETA,
ESCRITOR E ADVOGADO:
Entre
Espártacos e John Brown
Alvaci Mendes da Luz*
A professora da UNIFESP, doutora pela
Sorbonne de Paris, Ligia Fonseca de Ferreira desenvolveu sua tese de doutorado
sobre a vida e obras de um dos mais ilustres nomes da história do Brasil
escravista do século XIX. O abolicionista negro, Luiz Gonzaga Pinto da Gama é
homenageado na obra intitulada Com a
palavra, Luiz Gama, publicada pela Imprensa Oficial em 2011 como uma forma
de dar voz a este personagem emblemático da historiografia paulistana. Gama,
não foi apenas um advogado negro libertador de escravos, foi acima de tudo, um
cidadão brasileiro capaz de enfrentar o sistema vigente e usar as leis a favor
dos que a ele recorriam. Sabe-se, por exemplo, que sozinho libertou mais de 500
africanos escravizados de cidades da Província de São Paulo.
O livro em questão é uma coletânea de
mais de 40 textos integrais escritos por Luiz Gama, muitos deles até então
jamais haviam sido publicados. A autora fez uma “garimpagem de material” em
bibliotecas e outros acervos e encontrou textos que ainda não eram conhecidos
pelo público em geral. Na Biblioteca Nacional, por exemplo, ela irá se deparar com
cartas e documentos inéditos em pleno século XXI de autoria do afamado advogado
dos escravos. Dividido em 6 partes, que poderíamos chamar de capítulos,
ricamente ilustrado, o exemplar nos ajuda a entrar na alma de Gama.
Interessante notar o espaço dado pela
autora ao escritor, jornalista, poeta, republicano, abolicionista e advogado
negro. Ao longo das quase trezentas páginas quem fala é Luiz Gama por ele
mesmo. Cabe a Ligia a tarefa de contextualizar os textos, os poemas, as cartas,
as máximas e as fontes que falam sobre ele. Ao introduzir cada capítulo, após
descrever o tempo, o espaço e o contexto em que tal material foi escrito, a
autora termina sempre com a frase: Com a
palavra: Luiz Gama. Sútil delicadeza de uma professora negra, dando voz e
vez a um dos maiores autores autodidata da história desse país.
Deste modo, na primeira parte nos são
apresentados os poemas escritos pelo trovador Luiz Gama, a quem a autora
atribui como o primeiro poeta afro-brasileiro (FERREIRA, 2011, p. 37). Em seus
versos ficam nítidos temas polêmicos como o anticlericalismo, a corrupção
política, a hipocrisia dos mulatos, o preconceito racial, entre outros. O
gênero literário também é variado e a erudição é caracteristicamente simbólica.
O poeta faz questão de muitas vezes deixar explícito o fato de ser negro,
reafirmando nas linhas o orgulho de sua negritude. Alguns poemas, como o
renomado Bodarrada, um dos mais
conhecidos e estudados de autoria de Gama, acabam as vezes por abafar outras
obras relevantes do autor. Na coletânea, ainda que pequena, escolhida por
Ligia, procura-se valorizar outras obras de sua autoria, como: Lá vai verso; Quem sou eu?; Sortimento de
gorras para gente de grande tom; Coleirinho; Minha mãe; e outros.
Cabe-nos aqui também uma
citação sobre a primeira coletânea de textos escritos pelo poeta negro, que foi
o seu único livro, publicado em 1859, reeditado dois anos depois no Rio de
Janeiro, com o título: Primeiras Trovas
Burlescas de Getulino. Longe de ser uma simples coletânea de poemas e
versos, a obra escrita em pleno regime escravista, dentro de uma sociedade
altamente elitista e preconceituosa, as letras escritas por um autodidata,
analfabeto até os 12 anos, parece ter sido um divisor de águas digno de figurar
entre os melhores representantes de nossa insipiente literatura. Uma sutil
ironia quase profética de um escritor que elogia desde o título, a sua origem
africana. Getulia é um território do norte da África, correspondente a atual
Argélia, ocupada por um povo nômade, os getulos no tempo dos Romanos. Nada
melhor do que usar, então, o pseudônimo Getulino para identificar-se.
Uma das partes mais densas da obra é a
que traz uma série de dezoito artigos completos de Gama publicados na imprensa
abolicionista e republicana de São Paulo. É neste trecho que se percebe a
condensação do poeta, político e jornalista, algo muito comum na imprensa do
século XIX. Alguns artigos citados foram publicados nos periódicos fundados por
Gama, como O Diabo Coxo de 1864,
fundado em parceria com o italiano caricaturista Ângelo Agostini; o Cabrião fundado em 1866; ou o já
consolidado periódico Correio Paulistano fundado
em 1854 e que a esta altura seguia a linha política republicana. O leitor
perceberá também a riqueza da erudição, a complexidade do contexto e as
“alfinetadas” políticas e antirreligiosas de um autor Fundador do Clube Radical
Paulistano e “irmão” da Loja Maçônica América.
Poderíamos citar uma série de
observações pontais sobre suas cartas e a relevância de seus apontamentos para o
conhecimento do escritor/jornalista Luiz Gama.
Gostaríamos apenas de mencionar o artigo Apontamentos biográficos no qual duras críticas são direcionadas ao
falecido bispo de São Paulo Dom Antônio Joaquim de Melo, escravocrata convicto,
elogiado pela imprensa oficial, mas duramente reprovado por Gama por sua
postura frente aos escravos que possuía. E, Carta
a Ferreira de Menezes, publicada no periódico A Província de São Paulo em
18 de dezembro de 1880, no qual o ex-escravo faz uma narrativa emocionada sobre
quatro escravizados que haviam assassinado o filho de um fazendeiro,
posteriormente presos e mortos brutalmente pela população ensandecida. Aos
assassinados serão atribuídos os adjetivos de heróis, mártires e a honra de Espártacos.
Vale lembrar que Ferreira de Menezes era mulato, amigo pessoal de Gama, maçom,
advogado e foi o fundador do jornal carioca Gazeta da Tarde.
Já nas suas cartas e máximas, depara-se
com um poeta pai, amigo e admirado por muitos. As cartas, algumas delas de foro
íntimo, refletem a vida, as dores e a doença de Gama. Contudo, não deixam de
expressar a força e a convicção sempre crescente de um homem extremamente certo
de suas causas. Na Carta ao filho,
Benedito Graco Pinto da Gama, de 23 de setembro de 1870, revela-se os
traços de um pai preocupado com o futuro do filho e do seu país; já na Carta a Lúcio de Mendonça de 25 de julho de
1880, talvez respondendo ao pedido do amigo por uma autobiografia, Gama se
apresenta, conta sua história e não deixa esquecer suas preocupações políticas
em relação ao Brasil. Das máximas, publicadas quase todas no periódico Polichinelo, vale ressaltar a opinião
firme em relação a temas recorrentes de seu repertório, bem como temas
polêmicos como sua opinião sobre as mulheres.
Enfim, os capítulos intitulados A morte de Luiz Gama através da Imprensa e
Luiz Gama visto por... além de serem
fortes documentos históricos sobre o homem Luiz Gonzaga, refletem a repercussão
de sua morte na imprensa nacional, bem como revelam a personalidade famosa que
havia se tornado aquele baiano nascido livre, tornado escravo e morto cidadão.
Dentre os muitos relatos na imprensa, vale destacar o texto publicado por Raul
Pompéia: Última página da vida de um
grande homem, publicado no jornal Gazeta de Notícias no dia 10 de setembro
de 1882. O poeta amigo procura fazer um relato pormenorizado de seu contato com
a notícia da morte, a repercussão na cidade, sua visita ao amigo morto, bem
como o longo e concorrido cortejo fúnebre, as despedidas, as lágrimas da viúva
e os dias que se sucederam ao enterro.
Pompéia assim exclama: “sobre minha mesa achei um jornal do dia. Trazia
a notícia do passamento de Luiz Gama: faleceu ontem o cidadão Luiz Gonzaga
Pinto da Gama, conhecido advogado desta cidade”. (FERREIRA, 2011, p. 236).
Aos estudiosos de movimentos mais
recentes sobre negritude, o livro é um bom passo para conhecer a vida e obras
de um dos maiores líderes do movimento abolicionista nacional. Gama é uma voz
negra ainda pouco conhecida e pouco estudada em nossas academias. Na luta
antirracista de nomes como Lélia Gonzáles, Abdias Nascimento, Djanira Ribeiro e
Silvio Almeida, com certeza Luiz Gama figura como pioneiro. A coragem e a
audácia de enfrentar as vicissitudes da vida e da sociedade fazem dele um de
nossos maiores nomes, digno de figurar entre Espártacus e John Brown, em par de
igualdade com abolicionistas brancos geralmente citados nos nossos livros de
história: Rui Barboza, Castro Alves, Joaquim Nabuco, entre outros.
Em 2015, a OAB concedeu ao defensor dos
direitos da população negra o reconhecimento como “maior advogado da história
do país”. Em 2017, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, batizou uma
de suas salas com o nome do homem que não pode estudar em uma delas pela cor de
sua pele. Em 2018, um projeto de Lei apresentado pelo deputado federal Orlando
Silva, foi sancionado pela Presidência da República tornando o advogado dos
escravizados o Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil. Nada melhor que o
tempo para colocar os verdadeiros heróis nos pedestais da história.
Referências:
Com a palavra Luiz Gama: poemas, artigos,
cartas, máximas / Organização, apresentação, notas Ligia
Fonseca Ferreira. – São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2011.
Numomura, Eduardo. Escravo e abolicionista. Pesquisa
FAPESP 219. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2014/05/072-075_LuizGama_219.pdf ; Acesso em: 27 set. 2020.
Ferreira, Ligia
Fonseca. Luiz Gama por Luiz Gama: carta
a Lúcio de Mendonça. LITERAFRO. Disponível
em:http://www.letras.ufmg.br/literafro/arquivos/autores/LuizGamaArtigoLigia.pdfAcesso em: 27 set. 2020.
*Mestrando
em História Social pela Universidade Católica de São Paulo com pesquisa sobre
Irmandades negras na capital paulista. Aluno bolsista pela Agência de Fomento
de Ensino Superior (CAPES). Licenciado em filosofia e bacharel em teologia.
E-mail: alvaci@gmail.com
