Os parceiros do Rio Bonito

Antônio Candido

 

Já dizia o historiador e antropólogo potiguar Câmara Cascudo: “o melhor do Brasil é o brasileiro”. Memes, comentários contrários e reportagens televisivas à parte, a frase deste apaixonado pelo folclore e pela história do Brasil faz todo sentido ontem e hoje. Afinal de contas, o maior patrimônio de um país é o seu povo e cada nação deve ter orgulho de seus filhos.

Começamos a resenha desta semana com um pouco de brasilianismo, para não deixar que os pessimismos de nossos dias, as inúmeras corrupções políticas e as incertezas do futuro frente a um vírus e suas consequências, nos arranquem a alegria de ser quem somos e a vontade de continuar acreditando em nosso futuro.

Cabe-nos, nesta resenha, apresentar mais uma das muitas obras clássicas que a historiografia deste país produziu. É sempre bom lembrar que o Brasil ao longo dos séculos, gerou grandes pensadores e ilustres nomes para o cenário nacional e mundial. Nós brasileiros, contudo, precisamos valorizar mais o que é nosso e crermos no material humano que temos.

A obra apresentada nesta semana, “Os parceiros do Rio Bonito”, é a consolidada tese de doutorado em Ciências Sociais, defendida em 1954 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo por Antônio Candido, que foi publicada em 1964 na coleção Documentos Brasileiros da Editora José Olympio. Trata-se de um dos maiores clássicos das Ciências Sociais no Brasil, estudado por inúmeros graduandos em História e fonte de inspiração para dissertações de mestrado e teses de doutorado. Em 2010 foi publicada uma nova edição contendo material inédito.

O carioca de nascimento, Antônio Candido de Mello e Souza, tornou-se paulistano de coração. Na verdade, viveu grande parte de sua infância entre o interior de Minas Gerais e de São Paulo, fixando-se na capital paulista ainda jovem. Foi um estudioso do “homem brasileiro” e crítico literário, por isso mesmo, seus estudos servem como marco do pensamento crítico nacional. Contemplado ao longo da vida com vários prêmios nacionais e internacionais (Jabuti, Machado de Assis, Juca Pato, Camões, entre outros) estreitou laços de amizade com uma geração de grandes escritores como, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Oswald de Andrade. No campo da política foi um militante dos partidos de esquerda, atuando junto ao Partido Socialista Brasileiro e envolvido no processo de fundação do Partido dos Trabalhadores. Era um socialista declarado. Morreu em 2017 aos 98 anos afiliado ao PT. Sua última intervenção naquele partido foi a defesa da candidatura de Dilma Rousseff em 2010.

Já deu para perceber que o autor dispensa grandes apresentações e que fazer uma resenha de sua obra torna-se um certo desafio, afinal de contas, ao desenvolver um texto, que embora tenha como base uma pesquisa acadêmica associada às Ciências Sociais, ele traduz elementos do pensamento, da tradição e da formação sociológica do povo brasileiro no início do século XX. Na verdade, nas décadas de 1940 e 1950, tomava corpo no país uma investigação baseada na influência que a modernização gerava sobre seus cidadãos.

Para produzir sua tese, Candido irá fazer uma pesquisa de campo, chegando a morar por algum tempo junto aos “caipiras paulistas”, mais especificamente junto aos parceiros[1] da região de Rio Bonito, hoje Bofete, próximo a Botucatu no interior paulista. São estes homens e mulheres, citados na obra com seus nomes, hábitos e costumes, que irão gerar um material de caráter antropológico, sociológico e histórico, rico em detalhes, de fácil leitura e até mesmo capaz de gerar empatia/simpatia nos leitores.

No primeiro capítulo nos deparamos com a posição do autor em relação a fonte de sua pesquisa: o “caipira paulista em transição ao urbano”. Ele vai deixar bem claro que seu estudo é feito sobre peculiar ator brasileiro do interior paulista, diferente do caboclo ou do camponês, restrito, portanto, a uma área de influência local: o interior paulista. A pesquisa nasce justamente de uma investigação sobre a poesia popular presente no cururu[2], que vai adquirindo com o passar do tempo versões distintas, refletindo nelas as mudanças pelas quais o brasileiro está passando a nível mais geral, sentidas particularmente na vida do caipira paulista.

A obra segue e os hábitos daqueles homens e mulheres “isolados” e “autônomos” são aos poucos apresentados. Dieta nutricional, vestuário, abrigo, técnicas de produção de alimentos são caraterizados e mostrados numa sociedade em movimento, que rapidamente vai passando por mudanças significativas. O estudo particular feito sobre os alimentos, a produção dos mesmos ou a obtenção deles na natureza é essencial por pormenorizar uma vida baseada na subsistência e no tempo/recursos gastos para a alimentação. O empobrecimento da dieta alimentar naquele ambiente será, para Candido, nítido reflexo do empobrecimento social da vida rural.

Nesse meio tempo, em face ao industrial e urbano que se avizinha, cabe aquele cidadão rejeitar a vida antiga, migrar para cidade ou permanecer ali e se adaptar a viver com o mínimo necessário para sua sobrevivência. Ao logo da obra, Candido cita exemplos que observa de suas duas estadias na região, a primeira em 1948 e a segunda em 1954, cujas mudanças em hábitos e costumes são nitidamente observadas. Ao se adequar entre sua vida “antiga” e o “novo” que rapidamente se introduz, o caipira tradicional necessariamente adota traços sociais urbanos em seu dia a dia.

Desta forma, o parceiro vai pouco a pouco sendo arrastado para a modernidade. Vivendo nas condições mínimas de sobrevivência entre o “antigo” e o “novo” ele vai se ajustando, vivendo uma dualidade. As condições para produção de alimentos, de artesanato, de vestuário e moradia, variam agora entre o que é produção própria e o que conseguem comprar “da cidade”. O apego entre aquilo que é tradicional e o que é moderno é dúbio, deixando o caipira em condições de profunda crise.

Já não dá para substituir o que ele produz pelo industrializado porque seu dinheiro é pouco; as relações sociais não são mais as mesmas e os laços comunitários vão aos poucos se quebrando; os costumes de produção compartilhada e mesmo de partilha dos alimentos produzidos são personalizados. Nasce uma cultura nova, muito mais individualizada e individualizante, levando consequentemente ao fim daquela vida baseada nos costumes, nos meios de produção e na religiosidade do caipirismo.

Ao final da obra, emerge das páginas o político Antônio Candido, preocupado com aqueles homens e mulheres que necessariamente estão entrando na modernidade. Para o autor eles precisam ser bem incorporados a urbanização. Já que estão “condenados” a se urbanizar, que seja trilhando um caminho que “bem os urbanize”, que não lhes sobrem nas cidades apenas os lugares da mão de obra barata ou do meretrício.  No campo, que seja dado a estes remanescentes da cultura tradicional um pedaço de terra digno, onde possam viver, plantar, colher e bem comer. Que haja enfim, uma tão sonhada reforma agrária.

Finalizando, resta assinalar que se o êxodo rural pode desorganizar violentamente as famílias de caipiras pobres (entre os quais recrutam-se a maior parte das prostitutas das cidades), a urbanização do caipira que permanece na terra encontra na família um elemento de adaptação que permite aos indivíduos transitarem de um a outro sistema de padrões e manter a coesão necessária ao trabalho produtivo e à manutenção dum código moral. (Candido, 1997, p. 254)

            As ideias de Antônio Candido continuam atualíssimas. Aliás, ele tem sido estudado a exaustão por pensadores modernos e seu pensamento fez escola no modo USP de pensar o homem moderno. Tanto tempo depois, seu sonho de uma reforma agrária, de um “campo” mais justo para o simples “parceiro” e de relações mais iguais nos meios de produção rural e urbano, continuam a ecoar em uma sociedade cada vez mais individualizada, capitalista e urbana.



[1] A parceria é uma relação na qual o camponês não é proprietário da terra, embora possua a casa em que mora dentro da fazenda. Ele trabalha um pedaço de chão, junto com a família e entrega uma parte do produto ao fazendeiro, ficando com o resto. A parte do fazendeiro ia de 20% a 50%, a depender dos benefícios postos por este antes de começar a labuta. A relação de parceria dava ao trabalhador a dignidade social de um sitiante, embora juridicamente não o fosse, por não ser proprietário do terreno cultivado.

[2] Dança cantada do caipira paulista baseada em desafio entre dois repentistas.


Notas sobre o autor

Antônio Candido (1918-2017) foi um sociólogo, crítico literário, ensaísta e professor brasileiro, figura central dos estudos literários no Brasil. Autor de “Formação da Literatura Brasileira”, livro fundamental para quem quer entender a literatura nacional. Nasceu no Rio de Janeiro, no dia 24 de julho de 1918. Filho do médico Aristides Candido de Mello e Souza e de Clarisse Tolentino de Mello e Souza, recebeu as primeiras lições em casa, com sua mãe. Ainda criança, mudou-se com a família para a cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais.

Em 1935, já residindo em São Paulo, concluiu o curso secundário no Ginásio Estadual de São João da Boa Vista, no interior do Estado. Entre 1937 e 1938 estudou no curso complementar do Colégio Universitário da Universidade de São Paulo (USP). Nessa época, militava no Grupo Radical de Ação Popular, contra o Estado Novo, no governo de Getúlio Vargas.

Em 1939, com 21 anos de idade ingressou no curso de Direito da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e também no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Abandonou a Faculdade de Direito no 5º período e concluiu o curso de Ciências Sociais em 1942. (Fonte: https://www.ebiografia.com/antonio_candido/ acessada em 16/09/2020).

 

Referências

Cândido, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 8ª ed. São Paulo: Editora 34, 1997.

 Matéria na folha de São Paulo sobre o “último parceiro do Rio Bonito”:https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2504200106.htm acessada em 16 de setembro de 2020.

Caminha, Pedro. O caipira diante da urbanização: a mudança nas vidas de “Os Parceiros do Rio Bonito”. Resenha publicada na Revista IDeAS, v. 1, n. 1, p. 95-101, jul-dez. 2007. 

Rocha, Hugo Mateus Gonçalves.  Ensaio, ciência e história em “Os Parceiros do Rio Bonito”: uma leitura historiográfica da obra de Antônio Cândido. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. 2017.

 


Caipira pitando fumo - Almeida Júnior, 1893

Pescando - Almeida Júnior, 1894

Cozinha caipira - Almeida Júnior, 1895

Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 28 de setembro de 2020


 

Dicionário da Escravidão e Liberdade: 50 textos críticos

Lilia M. Schwarcz e Flávio Gomes (orgs)

 


Há mais de um mês, começamos a experiência de partilhar com você o conteúdo das atuais leituras que temos feito nos últimos meses. Os leitores mais atentos devem ter percebido que as resenhas, em sua maioria, giram em torno destes temas: escravidão, racismo, negritude, abolicionismo, liberdade. Pedimos desculpas se nos tornamos repetitivos, na verdade, achamos por bem voltar aos temas, haja vista que os livros aqui apresentados são sempre diferentes e de autores variados. Pedimos licença, portanto, para apresentar-vos o porquê de tantas leituras com temática parecida.  

Nos últimos anos, estamos centrando nossa pesquisa na elaboração de uma dissertação de mestrado em História, que tem como foco uma irmandade negra, instalada oficialmente no Largo São Francisco, no centro da capital paulista, no final do século XVIII.  Tal confraria de leigos em meados do novecentos teve seu momento áureo, com suas lutas, acertos e conquistas, o que marcou profundamente a história daquele lugar. Os esforços pela manutenção do espaço, as disputas internas, bem como as obras feitas naquela Igreja por uma irmandade de negros católicos, serão contadas quando a dissertação de mestrado estiver pronta. Por enquanto, todas as resenhas apresentadas aqui, fazem parte do acúmulo de repertório sobre aquelas pessoas, suas vidas e memórias.

Todos nós, portanto, estamos participando juntos do resgate de uma história um tanto quanto “esquecida” ou deixada de lado propositalmente. Herdamos um país que não faz questão de recontar as memórias de seu passado “negro”; que tem pouco interesse pela história “de gente de cor” e que consequentemente sabe pouco sobre o seu passado. Ao ler estas resenhas, você está junto conosco rememorando “o Brasil de ontem” com os pés na realidade do “Brasil de hoje”. Esperamos que ao final das pesquisas, a irmandade negra de São Benedito do Largo São Francisco reconte para nós, ela mesma, a sua história.

Sem mais delongas, apresentamos na resenha desta semana uma outra grande obra. Estamos falando do “Dicionário da Escravidão e Liberdade: 50 textos críticos”, organizado pelos historiadores Lilia Moritz Schwarcz e Flávio Gomes, lançado em 2018 por ocasião dos 130 anos da abolição da escravatura no Brasil. Trata-se de uma coletânea de textos críticos dos mais bem-conceituados historiadores da atualidade sobre a temática da escravidão e liberdade.

Cada verbete é escrito por um pesquisador, brasileiro ou estrangeiro, especialista na questão dos escravizados no Brasil. Pela qualidade da produção textual serve como excelente fonte de pesquisa bibliográfica, haja vista ser um dos mais completos trabalhos recentes sobre a escravidão neste país. A editora é a “Companhia das Letras”, que por sinal, tem publicado nos últimos anos muitas obras sobre o tema em questão.

Para os estudiosos ou interessados em tema tão relevante de nossa história, o “dicionário temático” é quase leitura obrigatória. Não iremos discutir ou apresentar aqui cada um dos temas apresentados no livro, porque esta resenha ficaria por demais extensa. Faz-se importante, contudo, apresentar alguns dados relevantes sobre o panorama que se faz sobre memórias e fatos que estão até hoje enraizadas em nosso país. Para começo de conversa é bom ter em mente, que as primeiras levas de africanos escravizados chegaram por aqui já nos anos de 1550 e as últimas desembarcaram três séculos depois, apenas na década de 1860. Ao longo desse período, foram trazidos forçadamente para este continente um total estimado de 4,8 milhões de pessoas. Nosso Brasil recebeu sozinho, entre 38 a 43% de todos os africanos que saíram de seu continente.

Ao longo da leitura você irá perceber também, que por estas terras o escravismo foi algo fortemente instaurado de norte a sul. Desde os quilombos instalados na Amazônia e nas fronteiras com as Guianas até as charqueadas do Rio Grande do Sul: em todos os espaços do território nacional, existiam homens e mulheres escravizados. Aliás, interessante perceber como o livro aborda a questão indígena e a escravização dos povos nativos, algo nunca bem resolvido para a coroa e para os colonos, bem como uma convivência inesperada em diferentes espaços entre africanos e indígenas.

A complexa rede do sistema escravista é amplamente apresentada, de forma acessível e linguagem adaptada ao grande público. Assim, ficamos sabendo, por exemplo de quais regiões africanas partiram os escravizados que se dirigiram ao Brasil, bem como, qual a bagagem histórica, cultural e religiosa que eles traziam consigo. Assuntos como casamentos entre escravizados, leis, castigos, mulheres e crianças, amas de leite, tráfico, canções, economia, emancipações, escravidão indígena, Frente Negra, Imprensa Negra, Irmandades, educação, morte e ritos fúnebres, rebeliões, quilombos e revoltas nos ajudam a entender o sistema que moldou as bases deste país e que ainda é sentido no dia-a-dia racista brancocêntrico.

Não é de se estranhar que por aqui o sistema escravocrata tenha criado raízes tão profundas que era quase impossível viver sem ele. Em diferentes regiões demográficas, bem como em diferentes ciclos econômicos, como os da cana de açúcar, da mineração, do algodão, da agropecuária e do café, estavam lá os escravizados para “girar a roda do moinho” da economia. Até meados da década de 1860, com todas as leis e pressões externas, o Brasil ainda não se pensava um país sem escravidão. Essa intricada rede de relações que se criavam, na maior colônia escravista das Américas, é amplamente apresentada no livro.

Enfim, vale ainda uma palavra sobre a pesquisa iconográfica que compõe a edição. Imagens já clássicas como as de Debret e Rugendas, outras menos conhecidas pinturas de época, bem como, imagens de escravizados e seus patrões; indígenas em suas aldeias; negros e negras em estúdios fotográficos, entre outros, compõe um caderno interno em algumas páginas da obra. Como afirma Lilia Moritz, as imagens pretendem estabelecer um diálogo com os verbetes, permitindo uma leitura crítica da iconografia que cercou a escravidão. Afirma Lilia: “é preciso confiar nesta iconografia e, ao mesmo tempo, dela desconfiar”, porque “representações visuais tem a capacidade de copiar a realidade, mas também de produzi-la”. Sendo assim, as imagens apresentadas são mais uma forma de repensarmos o tema proposto ao longo das linhas.

Em tempos de “Black Lives Matter”, de empoderamento negro e de uma leitura mais atenta da realidade desigual que nos cerca, a importância do dicionário não se restringe ao passado. Muito pelo contrário, mais de 130 anos depois da abolição, o racismo continua estrutural no Brasil, moldando relações e se perpetuando em diferentes formas de violência institucional, estruturando uma base de relações que tem na cor da pele um fator determinante. A leitura, portanto, é atual e necessária.

 

Organização: Lilia Moritz Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes

Prefácio: Alberto da Costa e Silva.

Autores dos verbetes: Lilia Moritz Schwarcz, Flávio dos Santos Gomes, Roquinaldo Ferreira, Luiz Felipe de Alencastro, Robert W. Slenes, Beatriz Gallotti Mamigonian, Luis Nicolau Parés, Edward A. Alpers, Eduardo França Paiva, Lorena Féres da Silva Telles, Petrônio Domingues, Ricardo Salles, Martha Abreu, Antônio Liberac Cardoso Simões Pires, Carlos Eugênio Líbano Soares, Keila Grinberg, Jonas Moreira Vargas, Paulo Roberto Staudt Moreira, Marcus J. M. de Carvalho, Hebe Mattos, Marília B. A. Ariza, Luís Cláudio Pereira Symanski, Herbert S. Klein, Tânia Salgado Pimenta, Rafael de Bivar Marquese, Maria Clara S. Carneiro Sampaio, Stuart B. Schwartz, Isabel Cristina Ferreira dos Reis, Carlos Eduardo Moreira de Araújo, María Verónica Secreto, Lucilene Reginaldo, Joseli Maria Nunes Mendonça, Maria Cristina Cortez Wissenbach, Sidney Chalhoub, Robson Luís Machado Martins, Douglas Cole Libby, Cláudia Rodrigues, Wlamyra Albuquerque, Maria Helena Pereira Toledo Machado, Jaime Rodrigues, Walter Fraga, Angela Alonso, Luciana Brito, João José Reis, Marcelo Mac Cord, Robério S. Souza.

Notas sobre os organizadores:

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton. É autora de, entre outros livros, O espetáculo das raças (Companhia das Letras, 1993, e Farrar Strauss & Giroux, 1999), As barbas do imperador (1998, prêmio Jabuti/Livro do Ano, e Farrar Strauss & Giroux, 2004), O sol do Brasil (2008, prêmio Jabuti/Biografia 2009), Brasil: Uma biografia (com Heloisa Murgel Starling; Companhia das Letras, 2015, indicado ao prêmio Jabuti/Ciências Humanas) e Lima Barreto: Triste visionário (Companhia das Letras, 2017).

Flávio dos Santos Gomes é professor da UFRJ, atuando também nos programas de pós-graduação em história comparada (UFRJ) e história (UFBA). Foi agraciado duas vezes com o Premio Literário Casa de las Américas, do Instituto Casa de las Américas (Cuba), sendo menção honrosa em 2006 (pelo livro A hidra e os pântanos) e o vencedor em 2011 (pelo livro O alufá Rufino, em coautoria com João José Reis e Marcus Joaquim de Carvalho). Tem publicado dezenas de livros, coletâneas e artigos em periódicos nacionais e estrangeiros, atuando na área de Brasil colonial e pós-colonial, escravidão, Amazônia, fronteiras e campesinato negro.

 

Link do livro para download:

https://contrapoder.net/wp-content/uploads/2020/04/SCHWARCZ-_-GOMES-2018.-Dicion%C3%A1rio-da-escravid%C3%A3o-e-liberdade.pdf

 

Entrevista com a organizadora, Lilia Moritz Schwarcz:

https://www.geledes.org.br/dicionario-da-escravidao-e-liberdade-joga-luz-sobre-complexa-relacao-entre-os-africanos-e-o-brasil/

 

Matéria no “Folha de São Paulo” sobre a obra apresentada:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/05/historiadores-lancam-dicionario-com-ensaios-sobre-a-escravidao-no-brasil.shtml

 

Algumas imagens que ilustram a obra:

 

Um jantar brasileiro - Jean Baptiste Debret, 1827

Venda em Recife. Johann Moritz Rugendas, 1830.

Retrato de homem feito em Manaus. Walter Hunnewell, 1865.


Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 21 de setembro de 2020.

 

Antônio Galvão de França

(Frei Antônio de Sant´Anna Galvão)



O objetivo deste texto é o de apresentar ao máximo os aspectos históricos do franciscano Frei Antônio de Sant´Anna Galvão, destacando sua presença por 60 anos na cidade de São Paulo.

Os dados que iremos fornecer se baseiam basicamente na obra intitulada: Frei Antônio de Sant´Anna Galvão. Trata-se de uma coletânea comentada do material apresentado em Roma para a Congregação da causa dos santos, responsável por dar andamento ao processo de canonização. Datada de 1993, teve como organizador, os postuladores da causa de canonização na época: Frei Cristoforo Bove e Irmã Célia Cadorin.

1.    Nascimento e formação inicial:

O menino nasceu na cidade de Guaratinguetá (terra das garças brancas em tupi), no vale do Paraíba, no ano de 1739. Na época, a então Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá era uma importante vila do Vale. Foi inclusive nesta mesma região, que alguns anos antes, em 1717, três pescadores encontraram nas águas do Rio Paraíba, na área chamada de “Porto Itaguaçu”, uma pequena imagem da Virgem da Conceição em terracota enegrecida, que passou a ser chamada de Nossa Senhora Aparecida.

Era filho de pai português e mãe brasileira. O pai, aliás, era o capitão-mor, ou seja, o representante militar da coroa naquela vila. Por isso mesmo, o menino ainda muito jovem é mandado a Belém da Cocheira, cidade baiana que abrigava um dos únicos internatos para estudos em terras coloniais na época. Lá ele permanece por seis anos para completar seus estudos junto ao Colégio dos jesuítas.

Com a morte da mãe e as crescentes pressões sobre os jesuítas em Portugal e no Brasil, o jovem estudante regressa a Guaratinguetá. Na verdade, o pai dele sabia que não daria para continuar os estudos com os padres da Companhia de Jesus devido aos problemas políticos. Tendo manifestado o desejo de continuar os estudos para a vida religiosa, ingressa desta vez no Convento de Santa Clara, dos franciscanos em Taubaté.

Os estudos seguem em Cachoeiro do Macacu na capitania do Rio de Janeiro, onde recebe o hábito de religioso franciscano em 1760. Dois anos depois é ordenado sacerdote no Convento de Santo Antônio na capital. O jovem contava na ocasião com pouco mais de 20 anos.

2.    Chegada em São Paulo

Chegou em São Paulo em 1762 para completar seus estudos de filosofia e teologia, naquele que era o maior convento da cidade: o Convento de São Francisco. Encontra-se matriculado no curso de filosofia no Convento a 24 de julho de 1762. Este espaço funcionou como casa de estudos até 1818. Na época vivia seu período áureo como casa de formação para os estudantes franciscanos e chegou a abrigar mais de 200 religiosos.

Contudo, o contexto social sob a liderança do Marques de Pombal em terras lusitanas foi para a Igreja do padroado o início do declínio numérico dos religiosos na colônia. Inclusive, poucos anos antes da chegada de Frei Galvão na cidade, em 1759, os jesuítas serão expulsos do Brasil e os franciscanos e outros religiosos começarão a sofrer pressões do governo. Sua vida na cidade estará marcada por este contexto social contrário aos religiosos e recheado das ideias iluministas vindas da Europa.

É neste mesmo Convento, que em 9 de novembro de 1766, 4 anos após sua chegada, que ele fará sua consagração como filho e escravo perpétuo da Virgem Imaculada. Consagrar-se a Maria como escravo não foi uma ideia de frei Galvão, haja vista que esta devoção havia nascido séculos antes na Espanha em um Convento Concepcionista e foi divulgada fortemente nos séculos seguintes pelos franciscanos espanhóis.

O mais novo "servo" (o termo usado na cédula é escravo) de Maria na capital paulistana, com certeza tinha conhecimento desta antiga devoção e é baseado nela que o jovem sacerdote irá recorrer, quando é procurado por um fiel com dores renais. Em um pequeno pedaço de papel escreverá uma invocação à Virgem, mandará o fiel tomar com fé e devoção e o mesmo será curado.  Este pedacinho de papel ficou conhecido como “pílulas de Frei Galvão”.

3.    Nomeações e cargos

 

·         Porteiro do Convento em três mandatos – 23 de julho de 1768 / 27 de janeiro de 1770 / 30 de janeiro de 1773.

A portaria era considerada e estimada como o ponto chave onde os religiosos entravam em contato com a população da cidade de um modo geral; confiava-se normalmente a sacerdotes prudentes e de sólida conduta religiosa.

·         Membro da Academia dos Felizes – 25 de agosto de 1770.

Chamada de Sessão Literária Solene, foi convocada pelo Morgado de Mateus, o governador da capitania, Luís Antônio de Souza Botelho Mourão. Foi a primeira Academia de Letras em terras paulistanas. Dela tomou parte Frei Galvão, que apresentou 16 peças, todas elas em latim, bem como boa parte da intelectualidade e clérigos.

·         Confessor das recolhidas do Recolhimento de Santa Teresa.

Não há precisão sobre a data, mas muito provavelmente entre os anos de 1769/1770, cargo que exerceu até a fundação do Recolhimento da Luz. Aliás, foi do Recolhimento de Santa Teresa que saiu a madre fundadora do Recolhimento da Luz: Madre Helena Maria do Espírito Santo.

·         Comissário da Venerável Ordem Terceira de São Paulo – 9 de agosto de 1776.

Cargo que ocupou por vários anos: de 1776 a 1799, época em que orientava o Recolhimento da Luz e se empenhava em levar avante a construção do novo local de moradia das recolhidas e sua igreja.

 

4.    A construção do Recolhimento da Luz

O primeiro Recolhimento da cidade de São Paulo é o de Santa Teresa, que foi fundado em 1685, de orientação carmelitana e ficava próximo ao Convento daqueles religiosos, na antiga rua do Carmo no centro de São Paulo. Revitalizado pelo primeiro bispo de São Paulo a partir de 1745, foi por muitos anos o único espaço para acolher consagradas ou filhas, esposas e escravas de senhores na São Paulo colonial. Percebe-se que São Paulo não terá desde sua fundação grandes conventos e mosteiros femininos, fato este atribuído a escassez de mulheres brancas na vila.

Neste espaço, na condição de confessor das recolhidas, Frei Galvão irá conhecer irmã Helena Maria do Espírito Santo que lhe confessa ter visto em sonho a Nosso Senhor Jesus Cristo lhe pedindo para fundar um outro recolhimento na cidade. Depois de muito hesitar, consultar outros religiosos e pedir tempo para a irmã, o confessor aceita o desafio.

Era preciso, contudo, fazer-se o pedido da fundação ao rei e a seu secretário de Estado, o Marques de Pombal. O que se sabe é que a autorização oficial para a construção jamais chegaria na capitania de São Paulo. Contudo, sob a alegação de que o espaço não seria uma casa de religiosas, mas sim um lugar de retiro e recolhimento, o pedido é feito ao governador geral que lhes dá a autorização. No Natal de 1773, Madre Helena Maria receberá a informação oficial.

A primeira comunidade do Recolhimento é instalada em 2 de fevereiro de 1774 com a profissão religiosa da fundadora Madre Helena Maria realizada no Convento de São Francisco e o nome escolhido para o novo lugar: Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência. Que se destacaria a partir de então por sua devoção a Imaculada Conceição.

O que não era de se esperar era que um ano depois, em 1775, morreria a madre Helena Maria e o recolhimento ficaria sob o cuidado total de Frei Galvão. Neste ano também, com a saída do piedoso Morgado de Mateus e a chegada de outro capitão geral para a cidade, o recolhimento seria fechado por pouco mais de um mês. A pressão da população e a exigência de reabertura chegaram ao Rio de Janeiro que mandou reabrir o espaço.

Em 1788 é inaugurada uma nova ala para as recolhidas e em 15 de agosto de 1802 é inaugurada a Igreja.  Frei Adalberto Ortmman vai mesmo dizer que o Recolhimento da Luz é obra exclusiva da vontade de Frei Galvão, construído a duras penas em uma época de extrema pobreza na Capitania de São Paulo. Para as obras o religioso esmolou durante anos na Capitania. Ao morrer, em 1822, frei Galvão não viria as obras da torre da igreja concluídas.

O Recolhimento só será chamado de Mosteiro em 1929, quando as irmãs da Imaculada Conceição, Concepcionistas, passarão a viver definitivamente como as irmãs do Mosteiro da Luz. O recolhimento foi visitado por Dom Pedro II em 1846 e pela Princesa Isabel em 1885.

5.    Tentativas de transferência e nomeações; 

·                     Desterro ou degredo obrigatório em 1780.

Imposto pelo Capitão-geral Martim Lopes Lobo Saldanha a Frei Galvão, por envolvimento na defesa do soldado Caetaninho que apesar das intervenções, foi condenado a pena capital, após se envolver em uma briga com o filho do dito capitão. À saída do religioso da cidade, a Câmara Municipal de São Paulo se opôs, bem como uma parte da população que fez protestos em frente a casa de Saldanha. A sentença seria revogada e Frei Galvão voltaria para o Convento São Francisco.

·         Nomeado Presidente e Mestre dos noviços no Convento de São Boaventura de Macacu na Capitania do Rio de Janeiro – 6 de outubro de 1781.

A carta de nomeação foi retida pelo bispo diocesano, Dom Frei Manuel da Ressureição, impedindo que Frei Galvão partisse para o Rio de Janeiro para cumprir sua missão.

·         Guardião do Convento de São Francisco da Cidade de São Paulo.

Foi eleito para o cargo no dia 24 de março de 1798, o que causou espanto para as recolhidas da Luz. A questão era que como guardião suas funções impediriam uma assistência mais direta ao Recolhimento, bem como a continuidade das obras do edifício. Intervém em favor de Frei Galvão o bispo diocesano e a Câmara Municipal. O mandato terminaria pouco mais de um ano depois, em 28 de setembro de 1799. Pouco mais de um ano, seria novamente eleito guardião do Convento em 1801.

·         Definidor em setembro de 1802 para o Capítulo Provincial.

·         Visitador do Convento São Luiz em Itu aos 29 de outubro de 1804.

·         Presidente do Capítulo Provincial em 1808, função a qual renunciou por motivos de saúde.

 

6.    A morte e sepultura

Só quando as forças diminuídas lhe impossibilitariam a caminhada diária entre o Convento de São Francisco e o Recolhimento: “Chegou ao ponto de não fazer diariamente o caminho do Convento de São Francisco até o da Luz, no Campo do Guaré, embora a descida da figueira de São Bento estivesse melhorada, com a fatura de uma rua; chamou-se primeiramente de Miguel Carlos, depois, da Constituição e, finalmente até hoje, Florêncio de Abreu”, obteve ele a licença do superior e do bispo de permanecer nas dependências de sua obra, onde ficou até a morte.

Passou a habitar num quartinho contiguo ao Recolhimento, lugar muito ruim, de chão de terra, situado no local onde hoje está o locutório das irmãs, nos fundos da Igreja.

Morreu naquele pequeno quarto, às 10 horas da manhã do dia 23 de dezembro de 1822, assistido pelo guardião do Convento São Francisco, por outros religiosos e clérigos. Haviam se passado alguns meses da Independência do Brasil e este paulista que havia acompanhado toda essa história de perto, morria no alto de seus mais de 80 anos de idade.

Querendo o guardião, segundo o costume levar o corpo para ser sepultado no Convento de São Francisco, as irmãs e os moradores da Luz requereram ao Bispo Dom Mateus a graça de ser enterrado aí mesmo, na Igreja do Recolhimento, que ele mesmo construíra e onde gastara quase todas as suas forças e vivera os últimos dias de sua vida.

O bispo e o guardião consentem e na tarde daquele mesmo dia ele é sepultado na capela mor do Recolhimento da Luz, onde seus restos repousam em “tumulo perpétuo” até hoje no altar do grande Mosteiro. Em 2022 se completarão 200 anos de sua morte.

Recolhimento de Santa Teresa. Pintura de Alípio Dutra no acervo do Museu Paulista

Maquete do antigo Convento de São Francisco e suas igrejas

Fotografia do Recolhimento da Luz em final do século XIX

Torre da Igreja do Recolhimento de Santa Teresa em imagem do início do século XX


Resenha feita por Alvaci Mendes da Luz em 14 de setembro de 2020.
 

 

 

 

 

Império à deriva

A corte portuguesa no Rio de Janeiro

Patrick Wilcken 

Um pouco de história do Brasil não faz mal a ninguém, não é verdade? Aliás, gostaria de perguntar aos leitores desta página, o que de fato nós realmente conhecemos da nossa história? Esta tem sido uma pergunta recorrente e acho que respondê-la deveria ser tarefa de uma vida. Digo isso, porque um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la e a cometer os mesmos erros do passado.

Prometemos que a resenha de hoje vai ser leve, assim como o livro e as histórias que vamos contar. Trata-se de fato de um título comercial, escrito por um jornalista, mas que nem por isso perde seu caráter historiográfico. Vale ressaltar que o autor se baseou em vasta documentação brasileira, portuguesa e britânica, bem como, teve acesso a muitas fontes primárias para elaborar sua obra. A leitura flui com leveza e tranquilidade, afinal de contas a linguagem é acessível e as fontes históricas foram incluídas ao longo do texto sem perder a continuidade da narrativa.

Recomendamos-lhe a leitura do livro “Império à deriva” do australiano radicado na Inglaterra e corresponde do jornal britânico “The Daily Telegraph” por longo período na cidade do Rio de Janeiro: Patrick Wilcken. Foi na editoração do website de livros daquele jornal britânico que Patrick se encantou pela história do Brasil enquanto vivia na cidade maravilhosa. 

Trata-se aqui de uma leitura complementar, daquelas que fazemos para poder depois dizer com orgulho que conhecemos um pouquinho mais da história do nosso país. Como seria bom se pudéssemos escapar do senso comum das histórias pré-formuladas e muitas vezes mal contadas. Como seria interessante se soubéssemos porque a família real fugiu às pressas para o Brasil? Ou porque a Rainha Maria I era chamada de Louca? Ou ainda porque dona Leopoldina viajou mais de oito mil quilômetros para se casar na cidade do Rio? Detalhes, que podem passar despercebidos, é verdade, que podem ser até encarados como “cultura inútil”, concordo, mas que fazem uma diferença significativa para quem conhece o Brasil de fato.

Elucubrações filosóficas à parte, vamos ao que interessa. O livro conta a saga da família real portuguesa ao cruzar o Atlântico para vir morar, a princípio em caráter provisório, naquela que era a mais próspera de suas cidades coloniais: o Rio de Janeiro. O autor deixa claro que a realeza portuguesa não veio para cá motivada por vontade própria, afinal de contas, a Europa era agitada por movimentos antimonarquistas desde que a Revolução Francesa havia estourado. Napoleão, pouco a pouco, conquistava territórios, derrubava monarquias e expandia seu Império. Os reis, um a um pediam refúgio aos ingleses ou aos reinos do sul da Itália, mas só a corte portuguesa teve a brilhante ideia de fugir para uma de suas colônias.

A transferência de uma monarca europeu e toda a sua corte para o Novo Mundo era algo totalmente novo e inusitado. Em todas as colônias, portuguesas ou não, o Rei e a Rainha eram figuras míticas, “semirreligiosas”, inalcançáveis, distantes. Tão distantes da realidade local que era quase impossível imaginar uma corte instalada nos trópicos. O fato era tão único, que antes ou depois de Dom João VI, nenhum outro monarca europeu havia pisado ou haveria de pisar em terras coloniais. Chegar ao Brasil, portanto, foi como que inaugurar algo até então impensável: “a colônia viraria metrópole e a metrópole viraria colônia”.

Fato é que depois de longa viagem, apesar do medo de Dom João de navegar, das reticências de Dona Carlota e da longa e conturbada viagem, aportava no cais do Rio de Janeiro a esquadra que trazia a família real portuguesa e todo séquito imperial (nobres, religiosos, escravos, funcionários públicos) ao Brasil. Eram quase 10 mil pessoas, mais de 30 navios e um vasto acervo móvel, bibliográfico e até carruagens reais. Em Lisboa houve tempo de carregar a maioria das coisas, mesmo que algumas delas, ficassem para trás, abandonadas no cais do Tejo, na correria para escapar das tropas napoleônicas que se aproximavam da capital lusitana.

Alguns detalhes curiosos e pitorescos são relembrados na obra. Como o fato da infestação de piolhos na embarcação em que estava dona Carlota, obrigando todas as mulheres do navio a rasparem suas cabeleiras e desembarcarem na capital carioca usando perucas ou turbantes (a nova moda europeia); Como também a apresentação de um príncipe regente (Dom João VI) altamente inseguro e indeciso; Uma princesa Carlota Joaquina maquiavélica, odiada pelos súditos e emaranhada em intrigas. Enfim, os relatos de viajantes sobre a presença maciça de negros na cidade, do calor insuportável ou do cheiro desagradável dos alagadiços ao redor de toda capital também são lembrados.

Colocando todos estes detalhes à parte, pitorescos e carregados muitas vezes de preconceitos e adjetivações, o que salta aos olhos do leitor é que a instalação da corte na cidade trouxe ao longo dos anos seguintes uma série de mudanças e novidades. A chegada da corte obrigou a cidade a se modernizar, afinal de contas ela se tornava sede Imperial. Palácios foram construídos, nos anos seguintes, como o da Quinta da Boa Vista, o Palácio de São Cristóvão, entre outros, bem como, melhorias significativas foram feitas no Paço Real (a Versalhes brasileira).

Importantes intervenções também aconteceram no porto, no centro da cidade e algumas casas de particulares foram confiscadas pela coroa, tornando-se repartições públicas. O jardim botânico foi criado e foi, por longo tempo, a menina dos olhos de Dom João. Ao decorrer dos treze anos de permanência da família real na capital carioca, intervenções estruturais importantes aconteceram, mas a maior delas, segundo a autor, foi a de caráter político administrativo: a consolidação única de um território tão grande quanto o do Brasil.

Durante a passagem da Família Real pelo Brasil "algo notável se passara no Rio de Janeiro, sem paralelo na história do colonialismo europeu", afirma. Relativamente ao Brasil, o autor defende que a presença da corte foi essencial para manter um tão grande território unido, para além da criação de várias instituições de utilidade pública.

Vale ressaltar também o contexto sócio-político desta presença logo no início do século XIX, o século das grandes mudanças. Como já dito, os reinos europeus eram sacudidos pela era napoleônica; as colônias das Américas eram varridas por uma “onda” patriótica/libertadora e o mundo eurocêntrico se dividia entre duas superpotências: Inglaterra e França.

O interessante ao longo do livro é perceber este pano de fundo geopolítico liderado pela Inglaterra e pela França em contexto global. As lutas, conquistas e reconquistas dos territórios europeus e coloniais, refletem consequentemente em todo o movimento global. O autor escreve “usando óculos” ingleses, sem deixar de precisar, é claro, o foco central: uma família real portuguesa em terras tropicais. Por isso mesmo, nomes do cenário político inglês da época, pouco conhecidos até hoje, irão aparecer constantemente. Ora liderando a partir de Lisboa como é o caso de Wesllesley, ora no cenário internacional abolicionista como é o caso de Willian Wilberforce. A corte portuguesa havia escapado das tropas napoleônicas, mas não escapara da superpotência inglesa.

A obra termina com o retorno de Dom João e sua esposa para terras portuguesas. A bem da verdade, o monarca já estava gostando de ficar por aqui e já não era sua intenção voltar tão cedo para a sua terra natal. Contudo, os ânimos exaltados por aqui e por lá obrigaram o retorno do monarca. Dom João VI voltaria para uma Portugal dividida e Dom Pedro I ficaria regendo uma colônia envolta em revoltas e movimentos separatistas. De fato, pouco mais de um ano depois daquele 25 de abril de 1821, o filho de Dom João declararia a independência da mais próspera de suas colônias. Não houve  grande derramamento de sangue. Isso não significa que não houveram movimentos separatistas e resistências localizadas. Diferente de outras partes das Américas, por aqui a guerra civil não teve espaço, mas também a autonomia local foi à moda lusitana. Nos próximos anos Portugal continuaria “governando” novamente da Europa um país “independente” nas Américas.

Dom João foi um dos poucos monarcas europeus a reinar continuamente durante a era napoleônica – “o único a me tapear em todos os tempos”, nas palavras do próprio Napoleão, escritas durante seus anos de exilio em Santa Helena. Em retrospectiva, a aventura brasileira foi um sucesso – da noite para o dia, os órgãos de um Estado em funcionamento foram implantados na colônia, tornando relativamente fácil a progressão para a independência. Isso se tornou um processo gradativo, desde a abertura dos portos, em 1808, até a conquista de status de reino unido a Portugal, em 1815, a partida da família real, em 1821, e o “grito do Ipiranga” de Dom Pedro, em 1822. O Brasil foi predominantemente poupado da violência que acompanhou a independência de seus vizinhos, e se manteve unido como a única nação gigantesca que sobrevive até hoje. (Wilcken, 2005. p. 282)

 

Notas sobre o autor:

Patrick Wilcken nasceu em Sidney, na Austrália. Estudou antropologia e fez mestrado no “Institut of Latin American Studies” em Londres. Trabalhou no departamento africano inglês e na Anistia Internacional. Mais recentemente tem escrito sobre o Brasil para os jornais The Guardian, The Index on Censorhip e em outras publicações britânicas.

 

Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 07 de setembro de 2020.

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