POETA, ESCRITOR E ADVOGADO:

Entre Espártacos e John Brown

 

Alvaci Mendes da Luz*


A diversidade das cores, nos homens, foi uma necessidade criada pela natureza, para distingui-los, quando todos se achavam confundidos pela infâmia. (Luiz Gama)

A professora da UNIFESP, doutora pela Sorbonne de Paris, Ligia Fonseca de Ferreira desenvolveu sua tese de doutorado sobre a vida e obras de um dos mais ilustres nomes da história do Brasil escravista do século XIX. O abolicionista negro, Luiz Gonzaga Pinto da Gama é homenageado na obra intitulada Com a palavra, Luiz Gama, publicada pela Imprensa Oficial em 2011 como uma forma de dar voz a este personagem emblemático da historiografia paulistana. Gama, não foi apenas um advogado negro libertador de escravos, foi acima de tudo, um cidadão brasileiro capaz de enfrentar o sistema vigente e usar as leis a favor dos que a ele recorriam. Sabe-se, por exemplo, que sozinho libertou mais de 500 africanos escravizados de cidades da Província de São Paulo.

O livro em questão é uma coletânea de mais de 40 textos integrais escritos por Luiz Gama, muitos deles até então jamais haviam sido publicados. A autora fez uma “garimpagem de material” em bibliotecas e outros acervos e encontrou textos que ainda não eram conhecidos pelo público em geral. Na Biblioteca Nacional, por exemplo, ela irá se deparar com cartas e documentos inéditos em pleno século XXI de autoria do afamado advogado dos escravos. Dividido em 6 partes, que poderíamos chamar de capítulos, ricamente ilustrado, o exemplar nos ajuda a entrar na alma de Gama.

Interessante notar o espaço dado pela autora ao escritor, jornalista, poeta, republicano, abolicionista e advogado negro. Ao longo das quase trezentas páginas quem fala é Luiz Gama por ele mesmo. Cabe a Ligia a tarefa de contextualizar os textos, os poemas, as cartas, as máximas e as fontes que falam sobre ele. Ao introduzir cada capítulo, após descrever o tempo, o espaço e o contexto em que tal material foi escrito, a autora termina sempre com a frase: Com a palavra: Luiz Gama. Sútil delicadeza de uma professora negra, dando voz e vez a um dos maiores autores autodidata da história desse país.

Deste modo, na primeira parte nos são apresentados os poemas escritos pelo trovador Luiz Gama, a quem a autora atribui como o primeiro poeta afro-brasileiro (FERREIRA, 2011, p. 37). Em seus versos ficam nítidos temas polêmicos como o anticlericalismo, a corrupção política, a hipocrisia dos mulatos, o preconceito racial, entre outros. O gênero literário também é variado e a erudição é caracteristicamente simbólica. O poeta faz questão de muitas vezes deixar explícito o fato de ser negro, reafirmando nas linhas o orgulho de sua negritude. Alguns poemas, como o renomado Bodarrada, um dos mais conhecidos e estudados de autoria de Gama, acabam as vezes por abafar outras obras relevantes do autor. Na coletânea, ainda que pequena, escolhida por Ligia, procura-se valorizar outras obras de sua autoria, como: Lá vai verso; Quem sou eu?; Sortimento de gorras para gente de grande tom; Coleirinho; Minha mãe; e outros.

Cabe-nos aqui também uma citação sobre a primeira coletânea de textos escritos pelo poeta negro, que foi o seu único livro, publicado em 1859, reeditado dois anos depois no Rio de Janeiro, com o título: Primeiras Trovas Burlescas de Getulino. Longe de ser uma simples coletânea de poemas e versos, a obra escrita em pleno regime escravista, dentro de uma sociedade altamente elitista e preconceituosa, as letras escritas por um autodidata, analfabeto até os 12 anos, parece ter sido um divisor de águas digno de figurar entre os melhores representantes de nossa insipiente literatura. Uma sutil ironia quase profética de um escritor que elogia desde o título, a sua origem africana. Getulia é um território do norte da África, correspondente a atual Argélia, ocupada por um povo nômade, os getulos no tempo dos Romanos. Nada melhor do que usar, então, o pseudônimo Getulino para identificar-se.

Uma das partes mais densas da obra é a que traz uma série de dezoito artigos completos de Gama publicados na imprensa abolicionista e republicana de São Paulo. É neste trecho que se percebe a condensação do poeta, político e jornalista, algo muito comum na imprensa do século XIX. Alguns artigos citados foram publicados nos periódicos fundados por Gama, como O Diabo Coxo de 1864, fundado em parceria com o italiano caricaturista Ângelo Agostini; o Cabrião fundado em 1866; ou o já consolidado periódico Correio Paulistano fundado em 1854 e que a esta altura seguia a linha política republicana. O leitor perceberá também a riqueza da erudição, a complexidade do contexto e as “alfinetadas” políticas e antirreligiosas de um autor Fundador do Clube Radical Paulistano e “irmão” da Loja Maçônica América.

Poderíamos citar uma série de observações pontais sobre suas cartas e a relevância de seus apontamentos para o conhecimento do escritor/jornalista Luiz Gama.  Gostaríamos apenas de mencionar o artigo Apontamentos biográficos no qual duras críticas são direcionadas ao falecido bispo de São Paulo Dom Antônio Joaquim de Melo, escravocrata convicto, elogiado pela imprensa oficial, mas duramente reprovado por Gama por sua postura frente aos escravos que possuía. E, Carta a Ferreira de Menezes, publicada no periódico A Província de São Paulo em 18 de dezembro de 1880, no qual o ex-escravo faz uma narrativa emocionada sobre quatro escravizados que haviam assassinado o filho de um fazendeiro, posteriormente presos e mortos brutalmente pela população ensandecida. Aos assassinados serão atribuídos os adjetivos de heróis, mártires e a honra de Espártacos. Vale lembrar que Ferreira de Menezes era mulato, amigo pessoal de Gama, maçom, advogado e foi o fundador do jornal carioca Gazeta da Tarde.

Já nas suas cartas e máximas, depara-se com um poeta pai, amigo e admirado por muitos. As cartas, algumas delas de foro íntimo, refletem a vida, as dores e a doença de Gama. Contudo, não deixam de expressar a força e a convicção sempre crescente de um homem extremamente certo de suas causas. Na Carta ao filho, Benedito Graco Pinto da Gama, de 23 de setembro de 1870, revela-se os traços de um pai preocupado com o futuro do filho e do seu país; já na Carta a Lúcio de Mendonça de 25 de julho de 1880, talvez respondendo ao pedido do amigo por uma autobiografia, Gama se apresenta, conta sua história e não deixa esquecer suas preocupações políticas em relação ao Brasil. Das máximas, publicadas quase todas no periódico Polichinelo, vale ressaltar a opinião firme em relação a temas recorrentes de seu repertório, bem como temas polêmicos como sua opinião sobre as mulheres.

Enfim, os capítulos intitulados A morte de Luiz Gama através da Imprensa e Luiz Gama visto por... além de serem fortes documentos históricos sobre o homem Luiz Gonzaga, refletem a repercussão de sua morte na imprensa nacional, bem como revelam a personalidade famosa que havia se tornado aquele baiano nascido livre, tornado escravo e morto cidadão. Dentre os muitos relatos na imprensa, vale destacar o texto publicado por Raul Pompéia: Última página da vida de um grande homem, publicado no jornal Gazeta de Notícias no dia 10 de setembro de 1882. O poeta amigo procura fazer um relato pormenorizado de seu contato com a notícia da morte, a repercussão na cidade, sua visita ao amigo morto, bem como o longo e concorrido cortejo fúnebre, as despedidas, as lágrimas da viúva e os dias que se sucederam ao enterro.  Pompéia assim exclama: “sobre minha mesa achei um jornal do dia. Trazia a notícia do passamento de Luiz Gama: faleceu ontem o cidadão Luiz Gonzaga Pinto da Gama, conhecido advogado desta cidade”. (FERREIRA, 2011, p. 236).

Aos estudiosos de movimentos mais recentes sobre negritude, o livro é um bom passo para conhecer a vida e obras de um dos maiores líderes do movimento abolicionista nacional. Gama é uma voz negra ainda pouco conhecida e pouco estudada em nossas academias. Na luta antirracista de nomes como Lélia Gonzáles, Abdias Nascimento, Djanira Ribeiro e Silvio Almeida, com certeza Luiz Gama figura como pioneiro. A coragem e a audácia de enfrentar as vicissitudes da vida e da sociedade fazem dele um de nossos maiores nomes, digno de figurar entre Espártacus e John Brown, em par de igualdade com abolicionistas brancos geralmente citados nos nossos livros de história: Rui Barboza, Castro Alves, Joaquim Nabuco, entre outros.

Em 2015, a OAB concedeu ao defensor dos direitos da população negra o reconhecimento como “maior advogado da história do país”. Em 2017, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, batizou uma de suas salas com o nome do homem que não pode estudar em uma delas pela cor de sua pele. Em 2018, um projeto de Lei apresentado pelo deputado federal Orlando Silva, foi sancionado pela Presidência da República tornando o advogado dos escravizados o Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil. Nada melhor que o tempo para colocar os verdadeiros heróis nos pedestais da história.

Referências:

Com a palavra Luiz Gama: poemas, artigos, cartas, máximas / Organização, apresentação, notas Ligia Fonseca Ferreira. – São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2011.

Numomura, Eduardo. Escravo e abolicionista. Pesquisa FAPESP 219. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2014/05/072-075_LuizGama_219.pdf ; Acesso em: 27 set. 2020.

Ferreira, Ligia Fonseca. Luiz Gama por Luiz Gama: carta a Lúcio de Mendonça. LITERAFRO. Disponível em:http://www.letras.ufmg.br/literafro/arquivos/autores/LuizGamaArtigoLigia.pdfAcesso em: 27 set. 2020.

*Mestrando em História Social pela Universidade Católica de São Paulo com pesquisa sobre Irmandades negras na capital paulista. Aluno bolsista pela Agência de Fomento de Ensino Superior (CAPES). Licenciado em filosofia e bacharel em teologia. E-mail: alvaci@gmail.com




Os parceiros do Rio Bonito

Antônio Candido

 

Já dizia o historiador e antropólogo potiguar Câmara Cascudo: “o melhor do Brasil é o brasileiro”. Memes, comentários contrários e reportagens televisivas à parte, a frase deste apaixonado pelo folclore e pela história do Brasil faz todo sentido ontem e hoje. Afinal de contas, o maior patrimônio de um país é o seu povo e cada nação deve ter orgulho de seus filhos.

Começamos a resenha desta semana com um pouco de brasilianismo, para não deixar que os pessimismos de nossos dias, as inúmeras corrupções políticas e as incertezas do futuro frente a um vírus e suas consequências, nos arranquem a alegria de ser quem somos e a vontade de continuar acreditando em nosso futuro.

Cabe-nos, nesta resenha, apresentar mais uma das muitas obras clássicas que a historiografia deste país produziu. É sempre bom lembrar que o Brasil ao longo dos séculos, gerou grandes pensadores e ilustres nomes para o cenário nacional e mundial. Nós brasileiros, contudo, precisamos valorizar mais o que é nosso e crermos no material humano que temos.

A obra apresentada nesta semana, “Os parceiros do Rio Bonito”, é a consolidada tese de doutorado em Ciências Sociais, defendida em 1954 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo por Antônio Candido, que foi publicada em 1964 na coleção Documentos Brasileiros da Editora José Olympio. Trata-se de um dos maiores clássicos das Ciências Sociais no Brasil, estudado por inúmeros graduandos em História e fonte de inspiração para dissertações de mestrado e teses de doutorado. Em 2010 foi publicada uma nova edição contendo material inédito.

O carioca de nascimento, Antônio Candido de Mello e Souza, tornou-se paulistano de coração. Na verdade, viveu grande parte de sua infância entre o interior de Minas Gerais e de São Paulo, fixando-se na capital paulista ainda jovem. Foi um estudioso do “homem brasileiro” e crítico literário, por isso mesmo, seus estudos servem como marco do pensamento crítico nacional. Contemplado ao longo da vida com vários prêmios nacionais e internacionais (Jabuti, Machado de Assis, Juca Pato, Camões, entre outros) estreitou laços de amizade com uma geração de grandes escritores como, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Oswald de Andrade. No campo da política foi um militante dos partidos de esquerda, atuando junto ao Partido Socialista Brasileiro e envolvido no processo de fundação do Partido dos Trabalhadores. Era um socialista declarado. Morreu em 2017 aos 98 anos afiliado ao PT. Sua última intervenção naquele partido foi a defesa da candidatura de Dilma Rousseff em 2010.

Já deu para perceber que o autor dispensa grandes apresentações e que fazer uma resenha de sua obra torna-se um certo desafio, afinal de contas, ao desenvolver um texto, que embora tenha como base uma pesquisa acadêmica associada às Ciências Sociais, ele traduz elementos do pensamento, da tradição e da formação sociológica do povo brasileiro no início do século XX. Na verdade, nas décadas de 1940 e 1950, tomava corpo no país uma investigação baseada na influência que a modernização gerava sobre seus cidadãos.

Para produzir sua tese, Candido irá fazer uma pesquisa de campo, chegando a morar por algum tempo junto aos “caipiras paulistas”, mais especificamente junto aos parceiros[1] da região de Rio Bonito, hoje Bofete, próximo a Botucatu no interior paulista. São estes homens e mulheres, citados na obra com seus nomes, hábitos e costumes, que irão gerar um material de caráter antropológico, sociológico e histórico, rico em detalhes, de fácil leitura e até mesmo capaz de gerar empatia/simpatia nos leitores.

No primeiro capítulo nos deparamos com a posição do autor em relação a fonte de sua pesquisa: o “caipira paulista em transição ao urbano”. Ele vai deixar bem claro que seu estudo é feito sobre peculiar ator brasileiro do interior paulista, diferente do caboclo ou do camponês, restrito, portanto, a uma área de influência local: o interior paulista. A pesquisa nasce justamente de uma investigação sobre a poesia popular presente no cururu[2], que vai adquirindo com o passar do tempo versões distintas, refletindo nelas as mudanças pelas quais o brasileiro está passando a nível mais geral, sentidas particularmente na vida do caipira paulista.

A obra segue e os hábitos daqueles homens e mulheres “isolados” e “autônomos” são aos poucos apresentados. Dieta nutricional, vestuário, abrigo, técnicas de produção de alimentos são caraterizados e mostrados numa sociedade em movimento, que rapidamente vai passando por mudanças significativas. O estudo particular feito sobre os alimentos, a produção dos mesmos ou a obtenção deles na natureza é essencial por pormenorizar uma vida baseada na subsistência e no tempo/recursos gastos para a alimentação. O empobrecimento da dieta alimentar naquele ambiente será, para Candido, nítido reflexo do empobrecimento social da vida rural.

Nesse meio tempo, em face ao industrial e urbano que se avizinha, cabe aquele cidadão rejeitar a vida antiga, migrar para cidade ou permanecer ali e se adaptar a viver com o mínimo necessário para sua sobrevivência. Ao logo da obra, Candido cita exemplos que observa de suas duas estadias na região, a primeira em 1948 e a segunda em 1954, cujas mudanças em hábitos e costumes são nitidamente observadas. Ao se adequar entre sua vida “antiga” e o “novo” que rapidamente se introduz, o caipira tradicional necessariamente adota traços sociais urbanos em seu dia a dia.

Desta forma, o parceiro vai pouco a pouco sendo arrastado para a modernidade. Vivendo nas condições mínimas de sobrevivência entre o “antigo” e o “novo” ele vai se ajustando, vivendo uma dualidade. As condições para produção de alimentos, de artesanato, de vestuário e moradia, variam agora entre o que é produção própria e o que conseguem comprar “da cidade”. O apego entre aquilo que é tradicional e o que é moderno é dúbio, deixando o caipira em condições de profunda crise.

Já não dá para substituir o que ele produz pelo industrializado porque seu dinheiro é pouco; as relações sociais não são mais as mesmas e os laços comunitários vão aos poucos se quebrando; os costumes de produção compartilhada e mesmo de partilha dos alimentos produzidos são personalizados. Nasce uma cultura nova, muito mais individualizada e individualizante, levando consequentemente ao fim daquela vida baseada nos costumes, nos meios de produção e na religiosidade do caipirismo.

Ao final da obra, emerge das páginas o político Antônio Candido, preocupado com aqueles homens e mulheres que necessariamente estão entrando na modernidade. Para o autor eles precisam ser bem incorporados a urbanização. Já que estão “condenados” a se urbanizar, que seja trilhando um caminho que “bem os urbanize”, que não lhes sobrem nas cidades apenas os lugares da mão de obra barata ou do meretrício.  No campo, que seja dado a estes remanescentes da cultura tradicional um pedaço de terra digno, onde possam viver, plantar, colher e bem comer. Que haja enfim, uma tão sonhada reforma agrária.

Finalizando, resta assinalar que se o êxodo rural pode desorganizar violentamente as famílias de caipiras pobres (entre os quais recrutam-se a maior parte das prostitutas das cidades), a urbanização do caipira que permanece na terra encontra na família um elemento de adaptação que permite aos indivíduos transitarem de um a outro sistema de padrões e manter a coesão necessária ao trabalho produtivo e à manutenção dum código moral. (Candido, 1997, p. 254)

            As ideias de Antônio Candido continuam atualíssimas. Aliás, ele tem sido estudado a exaustão por pensadores modernos e seu pensamento fez escola no modo USP de pensar o homem moderno. Tanto tempo depois, seu sonho de uma reforma agrária, de um “campo” mais justo para o simples “parceiro” e de relações mais iguais nos meios de produção rural e urbano, continuam a ecoar em uma sociedade cada vez mais individualizada, capitalista e urbana.



[1] A parceria é uma relação na qual o camponês não é proprietário da terra, embora possua a casa em que mora dentro da fazenda. Ele trabalha um pedaço de chão, junto com a família e entrega uma parte do produto ao fazendeiro, ficando com o resto. A parte do fazendeiro ia de 20% a 50%, a depender dos benefícios postos por este antes de começar a labuta. A relação de parceria dava ao trabalhador a dignidade social de um sitiante, embora juridicamente não o fosse, por não ser proprietário do terreno cultivado.

[2] Dança cantada do caipira paulista baseada em desafio entre dois repentistas.


Notas sobre o autor

Antônio Candido (1918-2017) foi um sociólogo, crítico literário, ensaísta e professor brasileiro, figura central dos estudos literários no Brasil. Autor de “Formação da Literatura Brasileira”, livro fundamental para quem quer entender a literatura nacional. Nasceu no Rio de Janeiro, no dia 24 de julho de 1918. Filho do médico Aristides Candido de Mello e Souza e de Clarisse Tolentino de Mello e Souza, recebeu as primeiras lições em casa, com sua mãe. Ainda criança, mudou-se com a família para a cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais.

Em 1935, já residindo em São Paulo, concluiu o curso secundário no Ginásio Estadual de São João da Boa Vista, no interior do Estado. Entre 1937 e 1938 estudou no curso complementar do Colégio Universitário da Universidade de São Paulo (USP). Nessa época, militava no Grupo Radical de Ação Popular, contra o Estado Novo, no governo de Getúlio Vargas.

Em 1939, com 21 anos de idade ingressou no curso de Direito da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e também no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Abandonou a Faculdade de Direito no 5º período e concluiu o curso de Ciências Sociais em 1942. (Fonte: https://www.ebiografia.com/antonio_candido/ acessada em 16/09/2020).

 

Referências

Cândido, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 8ª ed. São Paulo: Editora 34, 1997.

 Matéria na folha de São Paulo sobre o “último parceiro do Rio Bonito”:https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2504200106.htm acessada em 16 de setembro de 2020.

Caminha, Pedro. O caipira diante da urbanização: a mudança nas vidas de “Os Parceiros do Rio Bonito”. Resenha publicada na Revista IDeAS, v. 1, n. 1, p. 95-101, jul-dez. 2007. 

Rocha, Hugo Mateus Gonçalves.  Ensaio, ciência e história em “Os Parceiros do Rio Bonito”: uma leitura historiográfica da obra de Antônio Cândido. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. 2017.

 


Caipira pitando fumo - Almeida Júnior, 1893

Pescando - Almeida Júnior, 1894

Cozinha caipira - Almeida Júnior, 1895

Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 28 de setembro de 2020


 

Dicionário da Escravidão e Liberdade: 50 textos críticos

Lilia M. Schwarcz e Flávio Gomes (orgs)

 


Há mais de um mês, começamos a experiência de partilhar com você o conteúdo das atuais leituras que temos feito nos últimos meses. Os leitores mais atentos devem ter percebido que as resenhas, em sua maioria, giram em torno destes temas: escravidão, racismo, negritude, abolicionismo, liberdade. Pedimos desculpas se nos tornamos repetitivos, na verdade, achamos por bem voltar aos temas, haja vista que os livros aqui apresentados são sempre diferentes e de autores variados. Pedimos licença, portanto, para apresentar-vos o porquê de tantas leituras com temática parecida.  

Nos últimos anos, estamos centrando nossa pesquisa na elaboração de uma dissertação de mestrado em História, que tem como foco uma irmandade negra, instalada oficialmente no Largo São Francisco, no centro da capital paulista, no final do século XVIII.  Tal confraria de leigos em meados do novecentos teve seu momento áureo, com suas lutas, acertos e conquistas, o que marcou profundamente a história daquele lugar. Os esforços pela manutenção do espaço, as disputas internas, bem como as obras feitas naquela Igreja por uma irmandade de negros católicos, serão contadas quando a dissertação de mestrado estiver pronta. Por enquanto, todas as resenhas apresentadas aqui, fazem parte do acúmulo de repertório sobre aquelas pessoas, suas vidas e memórias.

Todos nós, portanto, estamos participando juntos do resgate de uma história um tanto quanto “esquecida” ou deixada de lado propositalmente. Herdamos um país que não faz questão de recontar as memórias de seu passado “negro”; que tem pouco interesse pela história “de gente de cor” e que consequentemente sabe pouco sobre o seu passado. Ao ler estas resenhas, você está junto conosco rememorando “o Brasil de ontem” com os pés na realidade do “Brasil de hoje”. Esperamos que ao final das pesquisas, a irmandade negra de São Benedito do Largo São Francisco reconte para nós, ela mesma, a sua história.

Sem mais delongas, apresentamos na resenha desta semana uma outra grande obra. Estamos falando do “Dicionário da Escravidão e Liberdade: 50 textos críticos”, organizado pelos historiadores Lilia Moritz Schwarcz e Flávio Gomes, lançado em 2018 por ocasião dos 130 anos da abolição da escravatura no Brasil. Trata-se de uma coletânea de textos críticos dos mais bem-conceituados historiadores da atualidade sobre a temática da escravidão e liberdade.

Cada verbete é escrito por um pesquisador, brasileiro ou estrangeiro, especialista na questão dos escravizados no Brasil. Pela qualidade da produção textual serve como excelente fonte de pesquisa bibliográfica, haja vista ser um dos mais completos trabalhos recentes sobre a escravidão neste país. A editora é a “Companhia das Letras”, que por sinal, tem publicado nos últimos anos muitas obras sobre o tema em questão.

Para os estudiosos ou interessados em tema tão relevante de nossa história, o “dicionário temático” é quase leitura obrigatória. Não iremos discutir ou apresentar aqui cada um dos temas apresentados no livro, porque esta resenha ficaria por demais extensa. Faz-se importante, contudo, apresentar alguns dados relevantes sobre o panorama que se faz sobre memórias e fatos que estão até hoje enraizadas em nosso país. Para começo de conversa é bom ter em mente, que as primeiras levas de africanos escravizados chegaram por aqui já nos anos de 1550 e as últimas desembarcaram três séculos depois, apenas na década de 1860. Ao longo desse período, foram trazidos forçadamente para este continente um total estimado de 4,8 milhões de pessoas. Nosso Brasil recebeu sozinho, entre 38 a 43% de todos os africanos que saíram de seu continente.

Ao longo da leitura você irá perceber também, que por estas terras o escravismo foi algo fortemente instaurado de norte a sul. Desde os quilombos instalados na Amazônia e nas fronteiras com as Guianas até as charqueadas do Rio Grande do Sul: em todos os espaços do território nacional, existiam homens e mulheres escravizados. Aliás, interessante perceber como o livro aborda a questão indígena e a escravização dos povos nativos, algo nunca bem resolvido para a coroa e para os colonos, bem como uma convivência inesperada em diferentes espaços entre africanos e indígenas.

A complexa rede do sistema escravista é amplamente apresentada, de forma acessível e linguagem adaptada ao grande público. Assim, ficamos sabendo, por exemplo de quais regiões africanas partiram os escravizados que se dirigiram ao Brasil, bem como, qual a bagagem histórica, cultural e religiosa que eles traziam consigo. Assuntos como casamentos entre escravizados, leis, castigos, mulheres e crianças, amas de leite, tráfico, canções, economia, emancipações, escravidão indígena, Frente Negra, Imprensa Negra, Irmandades, educação, morte e ritos fúnebres, rebeliões, quilombos e revoltas nos ajudam a entender o sistema que moldou as bases deste país e que ainda é sentido no dia-a-dia racista brancocêntrico.

Não é de se estranhar que por aqui o sistema escravocrata tenha criado raízes tão profundas que era quase impossível viver sem ele. Em diferentes regiões demográficas, bem como em diferentes ciclos econômicos, como os da cana de açúcar, da mineração, do algodão, da agropecuária e do café, estavam lá os escravizados para “girar a roda do moinho” da economia. Até meados da década de 1860, com todas as leis e pressões externas, o Brasil ainda não se pensava um país sem escravidão. Essa intricada rede de relações que se criavam, na maior colônia escravista das Américas, é amplamente apresentada no livro.

Enfim, vale ainda uma palavra sobre a pesquisa iconográfica que compõe a edição. Imagens já clássicas como as de Debret e Rugendas, outras menos conhecidas pinturas de época, bem como, imagens de escravizados e seus patrões; indígenas em suas aldeias; negros e negras em estúdios fotográficos, entre outros, compõe um caderno interno em algumas páginas da obra. Como afirma Lilia Moritz, as imagens pretendem estabelecer um diálogo com os verbetes, permitindo uma leitura crítica da iconografia que cercou a escravidão. Afirma Lilia: “é preciso confiar nesta iconografia e, ao mesmo tempo, dela desconfiar”, porque “representações visuais tem a capacidade de copiar a realidade, mas também de produzi-la”. Sendo assim, as imagens apresentadas são mais uma forma de repensarmos o tema proposto ao longo das linhas.

Em tempos de “Black Lives Matter”, de empoderamento negro e de uma leitura mais atenta da realidade desigual que nos cerca, a importância do dicionário não se restringe ao passado. Muito pelo contrário, mais de 130 anos depois da abolição, o racismo continua estrutural no Brasil, moldando relações e se perpetuando em diferentes formas de violência institucional, estruturando uma base de relações que tem na cor da pele um fator determinante. A leitura, portanto, é atual e necessária.

 

Organização: Lilia Moritz Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes

Prefácio: Alberto da Costa e Silva.

Autores dos verbetes: Lilia Moritz Schwarcz, Flávio dos Santos Gomes, Roquinaldo Ferreira, Luiz Felipe de Alencastro, Robert W. Slenes, Beatriz Gallotti Mamigonian, Luis Nicolau Parés, Edward A. Alpers, Eduardo França Paiva, Lorena Féres da Silva Telles, Petrônio Domingues, Ricardo Salles, Martha Abreu, Antônio Liberac Cardoso Simões Pires, Carlos Eugênio Líbano Soares, Keila Grinberg, Jonas Moreira Vargas, Paulo Roberto Staudt Moreira, Marcus J. M. de Carvalho, Hebe Mattos, Marília B. A. Ariza, Luís Cláudio Pereira Symanski, Herbert S. Klein, Tânia Salgado Pimenta, Rafael de Bivar Marquese, Maria Clara S. Carneiro Sampaio, Stuart B. Schwartz, Isabel Cristina Ferreira dos Reis, Carlos Eduardo Moreira de Araújo, María Verónica Secreto, Lucilene Reginaldo, Joseli Maria Nunes Mendonça, Maria Cristina Cortez Wissenbach, Sidney Chalhoub, Robson Luís Machado Martins, Douglas Cole Libby, Cláudia Rodrigues, Wlamyra Albuquerque, Maria Helena Pereira Toledo Machado, Jaime Rodrigues, Walter Fraga, Angela Alonso, Luciana Brito, João José Reis, Marcelo Mac Cord, Robério S. Souza.

Notas sobre os organizadores:

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton. É autora de, entre outros livros, O espetáculo das raças (Companhia das Letras, 1993, e Farrar Strauss & Giroux, 1999), As barbas do imperador (1998, prêmio Jabuti/Livro do Ano, e Farrar Strauss & Giroux, 2004), O sol do Brasil (2008, prêmio Jabuti/Biografia 2009), Brasil: Uma biografia (com Heloisa Murgel Starling; Companhia das Letras, 2015, indicado ao prêmio Jabuti/Ciências Humanas) e Lima Barreto: Triste visionário (Companhia das Letras, 2017).

Flávio dos Santos Gomes é professor da UFRJ, atuando também nos programas de pós-graduação em história comparada (UFRJ) e história (UFBA). Foi agraciado duas vezes com o Premio Literário Casa de las Américas, do Instituto Casa de las Américas (Cuba), sendo menção honrosa em 2006 (pelo livro A hidra e os pântanos) e o vencedor em 2011 (pelo livro O alufá Rufino, em coautoria com João José Reis e Marcus Joaquim de Carvalho). Tem publicado dezenas de livros, coletâneas e artigos em periódicos nacionais e estrangeiros, atuando na área de Brasil colonial e pós-colonial, escravidão, Amazônia, fronteiras e campesinato negro.

 

Link do livro para download:

https://contrapoder.net/wp-content/uploads/2020/04/SCHWARCZ-_-GOMES-2018.-Dicion%C3%A1rio-da-escravid%C3%A3o-e-liberdade.pdf

 

Entrevista com a organizadora, Lilia Moritz Schwarcz:

https://www.geledes.org.br/dicionario-da-escravidao-e-liberdade-joga-luz-sobre-complexa-relacao-entre-os-africanos-e-o-brasil/

 

Matéria no “Folha de São Paulo” sobre a obra apresentada:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/05/historiadores-lancam-dicionario-com-ensaios-sobre-a-escravidao-no-brasil.shtml

 

Algumas imagens que ilustram a obra:

 

Um jantar brasileiro - Jean Baptiste Debret, 1827

Venda em Recife. Johann Moritz Rugendas, 1830.

Retrato de homem feito em Manaus. Walter Hunnewell, 1865.


Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 21 de setembro de 2020.

 

Antônio Galvão de França

(Frei Antônio de Sant´Anna Galvão)



O objetivo deste texto é o de apresentar ao máximo os aspectos históricos do franciscano Frei Antônio de Sant´Anna Galvão, destacando sua presença por 60 anos na cidade de São Paulo.

Os dados que iremos fornecer se baseiam basicamente na obra intitulada: Frei Antônio de Sant´Anna Galvão. Trata-se de uma coletânea comentada do material apresentado em Roma para a Congregação da causa dos santos, responsável por dar andamento ao processo de canonização. Datada de 1993, teve como organizador, os postuladores da causa de canonização na época: Frei Cristoforo Bove e Irmã Célia Cadorin.

1.    Nascimento e formação inicial:

O menino nasceu na cidade de Guaratinguetá (terra das garças brancas em tupi), no vale do Paraíba, no ano de 1739. Na época, a então Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá era uma importante vila do Vale. Foi inclusive nesta mesma região, que alguns anos antes, em 1717, três pescadores encontraram nas águas do Rio Paraíba, na área chamada de “Porto Itaguaçu”, uma pequena imagem da Virgem da Conceição em terracota enegrecida, que passou a ser chamada de Nossa Senhora Aparecida.

Era filho de pai português e mãe brasileira. O pai, aliás, era o capitão-mor, ou seja, o representante militar da coroa naquela vila. Por isso mesmo, o menino ainda muito jovem é mandado a Belém da Cocheira, cidade baiana que abrigava um dos únicos internatos para estudos em terras coloniais na época. Lá ele permanece por seis anos para completar seus estudos junto ao Colégio dos jesuítas.

Com a morte da mãe e as crescentes pressões sobre os jesuítas em Portugal e no Brasil, o jovem estudante regressa a Guaratinguetá. Na verdade, o pai dele sabia que não daria para continuar os estudos com os padres da Companhia de Jesus devido aos problemas políticos. Tendo manifestado o desejo de continuar os estudos para a vida religiosa, ingressa desta vez no Convento de Santa Clara, dos franciscanos em Taubaté.

Os estudos seguem em Cachoeiro do Macacu na capitania do Rio de Janeiro, onde recebe o hábito de religioso franciscano em 1760. Dois anos depois é ordenado sacerdote no Convento de Santo Antônio na capital. O jovem contava na ocasião com pouco mais de 20 anos.

2.    Chegada em São Paulo

Chegou em São Paulo em 1762 para completar seus estudos de filosofia e teologia, naquele que era o maior convento da cidade: o Convento de São Francisco. Encontra-se matriculado no curso de filosofia no Convento a 24 de julho de 1762. Este espaço funcionou como casa de estudos até 1818. Na época vivia seu período áureo como casa de formação para os estudantes franciscanos e chegou a abrigar mais de 200 religiosos.

Contudo, o contexto social sob a liderança do Marques de Pombal em terras lusitanas foi para a Igreja do padroado o início do declínio numérico dos religiosos na colônia. Inclusive, poucos anos antes da chegada de Frei Galvão na cidade, em 1759, os jesuítas serão expulsos do Brasil e os franciscanos e outros religiosos começarão a sofrer pressões do governo. Sua vida na cidade estará marcada por este contexto social contrário aos religiosos e recheado das ideias iluministas vindas da Europa.

É neste mesmo Convento, que em 9 de novembro de 1766, 4 anos após sua chegada, que ele fará sua consagração como filho e escravo perpétuo da Virgem Imaculada. Consagrar-se a Maria como escravo não foi uma ideia de frei Galvão, haja vista que esta devoção havia nascido séculos antes na Espanha em um Convento Concepcionista e foi divulgada fortemente nos séculos seguintes pelos franciscanos espanhóis.

O mais novo "servo" (o termo usado na cédula é escravo) de Maria na capital paulistana, com certeza tinha conhecimento desta antiga devoção e é baseado nela que o jovem sacerdote irá recorrer, quando é procurado por um fiel com dores renais. Em um pequeno pedaço de papel escreverá uma invocação à Virgem, mandará o fiel tomar com fé e devoção e o mesmo será curado.  Este pedacinho de papel ficou conhecido como “pílulas de Frei Galvão”.

3.    Nomeações e cargos

 

·         Porteiro do Convento em três mandatos – 23 de julho de 1768 / 27 de janeiro de 1770 / 30 de janeiro de 1773.

A portaria era considerada e estimada como o ponto chave onde os religiosos entravam em contato com a população da cidade de um modo geral; confiava-se normalmente a sacerdotes prudentes e de sólida conduta religiosa.

·         Membro da Academia dos Felizes – 25 de agosto de 1770.

Chamada de Sessão Literária Solene, foi convocada pelo Morgado de Mateus, o governador da capitania, Luís Antônio de Souza Botelho Mourão. Foi a primeira Academia de Letras em terras paulistanas. Dela tomou parte Frei Galvão, que apresentou 16 peças, todas elas em latim, bem como boa parte da intelectualidade e clérigos.

·         Confessor das recolhidas do Recolhimento de Santa Teresa.

Não há precisão sobre a data, mas muito provavelmente entre os anos de 1769/1770, cargo que exerceu até a fundação do Recolhimento da Luz. Aliás, foi do Recolhimento de Santa Teresa que saiu a madre fundadora do Recolhimento da Luz: Madre Helena Maria do Espírito Santo.

·         Comissário da Venerável Ordem Terceira de São Paulo – 9 de agosto de 1776.

Cargo que ocupou por vários anos: de 1776 a 1799, época em que orientava o Recolhimento da Luz e se empenhava em levar avante a construção do novo local de moradia das recolhidas e sua igreja.

 

4.    A construção do Recolhimento da Luz

O primeiro Recolhimento da cidade de São Paulo é o de Santa Teresa, que foi fundado em 1685, de orientação carmelitana e ficava próximo ao Convento daqueles religiosos, na antiga rua do Carmo no centro de São Paulo. Revitalizado pelo primeiro bispo de São Paulo a partir de 1745, foi por muitos anos o único espaço para acolher consagradas ou filhas, esposas e escravas de senhores na São Paulo colonial. Percebe-se que São Paulo não terá desde sua fundação grandes conventos e mosteiros femininos, fato este atribuído a escassez de mulheres brancas na vila.

Neste espaço, na condição de confessor das recolhidas, Frei Galvão irá conhecer irmã Helena Maria do Espírito Santo que lhe confessa ter visto em sonho a Nosso Senhor Jesus Cristo lhe pedindo para fundar um outro recolhimento na cidade. Depois de muito hesitar, consultar outros religiosos e pedir tempo para a irmã, o confessor aceita o desafio.

Era preciso, contudo, fazer-se o pedido da fundação ao rei e a seu secretário de Estado, o Marques de Pombal. O que se sabe é que a autorização oficial para a construção jamais chegaria na capitania de São Paulo. Contudo, sob a alegação de que o espaço não seria uma casa de religiosas, mas sim um lugar de retiro e recolhimento, o pedido é feito ao governador geral que lhes dá a autorização. No Natal de 1773, Madre Helena Maria receberá a informação oficial.

A primeira comunidade do Recolhimento é instalada em 2 de fevereiro de 1774 com a profissão religiosa da fundadora Madre Helena Maria realizada no Convento de São Francisco e o nome escolhido para o novo lugar: Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência. Que se destacaria a partir de então por sua devoção a Imaculada Conceição.

O que não era de se esperar era que um ano depois, em 1775, morreria a madre Helena Maria e o recolhimento ficaria sob o cuidado total de Frei Galvão. Neste ano também, com a saída do piedoso Morgado de Mateus e a chegada de outro capitão geral para a cidade, o recolhimento seria fechado por pouco mais de um mês. A pressão da população e a exigência de reabertura chegaram ao Rio de Janeiro que mandou reabrir o espaço.

Em 1788 é inaugurada uma nova ala para as recolhidas e em 15 de agosto de 1802 é inaugurada a Igreja.  Frei Adalberto Ortmman vai mesmo dizer que o Recolhimento da Luz é obra exclusiva da vontade de Frei Galvão, construído a duras penas em uma época de extrema pobreza na Capitania de São Paulo. Para as obras o religioso esmolou durante anos na Capitania. Ao morrer, em 1822, frei Galvão não viria as obras da torre da igreja concluídas.

O Recolhimento só será chamado de Mosteiro em 1929, quando as irmãs da Imaculada Conceição, Concepcionistas, passarão a viver definitivamente como as irmãs do Mosteiro da Luz. O recolhimento foi visitado por Dom Pedro II em 1846 e pela Princesa Isabel em 1885.

5.    Tentativas de transferência e nomeações; 

·                     Desterro ou degredo obrigatório em 1780.

Imposto pelo Capitão-geral Martim Lopes Lobo Saldanha a Frei Galvão, por envolvimento na defesa do soldado Caetaninho que apesar das intervenções, foi condenado a pena capital, após se envolver em uma briga com o filho do dito capitão. À saída do religioso da cidade, a Câmara Municipal de São Paulo se opôs, bem como uma parte da população que fez protestos em frente a casa de Saldanha. A sentença seria revogada e Frei Galvão voltaria para o Convento São Francisco.

·         Nomeado Presidente e Mestre dos noviços no Convento de São Boaventura de Macacu na Capitania do Rio de Janeiro – 6 de outubro de 1781.

A carta de nomeação foi retida pelo bispo diocesano, Dom Frei Manuel da Ressureição, impedindo que Frei Galvão partisse para o Rio de Janeiro para cumprir sua missão.

·         Guardião do Convento de São Francisco da Cidade de São Paulo.

Foi eleito para o cargo no dia 24 de março de 1798, o que causou espanto para as recolhidas da Luz. A questão era que como guardião suas funções impediriam uma assistência mais direta ao Recolhimento, bem como a continuidade das obras do edifício. Intervém em favor de Frei Galvão o bispo diocesano e a Câmara Municipal. O mandato terminaria pouco mais de um ano depois, em 28 de setembro de 1799. Pouco mais de um ano, seria novamente eleito guardião do Convento em 1801.

·         Definidor em setembro de 1802 para o Capítulo Provincial.

·         Visitador do Convento São Luiz em Itu aos 29 de outubro de 1804.

·         Presidente do Capítulo Provincial em 1808, função a qual renunciou por motivos de saúde.

 

6.    A morte e sepultura

Só quando as forças diminuídas lhe impossibilitariam a caminhada diária entre o Convento de São Francisco e o Recolhimento: “Chegou ao ponto de não fazer diariamente o caminho do Convento de São Francisco até o da Luz, no Campo do Guaré, embora a descida da figueira de São Bento estivesse melhorada, com a fatura de uma rua; chamou-se primeiramente de Miguel Carlos, depois, da Constituição e, finalmente até hoje, Florêncio de Abreu”, obteve ele a licença do superior e do bispo de permanecer nas dependências de sua obra, onde ficou até a morte.

Passou a habitar num quartinho contiguo ao Recolhimento, lugar muito ruim, de chão de terra, situado no local onde hoje está o locutório das irmãs, nos fundos da Igreja.

Morreu naquele pequeno quarto, às 10 horas da manhã do dia 23 de dezembro de 1822, assistido pelo guardião do Convento São Francisco, por outros religiosos e clérigos. Haviam se passado alguns meses da Independência do Brasil e este paulista que havia acompanhado toda essa história de perto, morria no alto de seus mais de 80 anos de idade.

Querendo o guardião, segundo o costume levar o corpo para ser sepultado no Convento de São Francisco, as irmãs e os moradores da Luz requereram ao Bispo Dom Mateus a graça de ser enterrado aí mesmo, na Igreja do Recolhimento, que ele mesmo construíra e onde gastara quase todas as suas forças e vivera os últimos dias de sua vida.

O bispo e o guardião consentem e na tarde daquele mesmo dia ele é sepultado na capela mor do Recolhimento da Luz, onde seus restos repousam em “tumulo perpétuo” até hoje no altar do grande Mosteiro. Em 2022 se completarão 200 anos de sua morte.

Recolhimento de Santa Teresa. Pintura de Alípio Dutra no acervo do Museu Paulista

Maquete do antigo Convento de São Francisco e suas igrejas

Fotografia do Recolhimento da Luz em final do século XIX

Torre da Igreja do Recolhimento de Santa Teresa em imagem do início do século XX


Resenha feita por Alvaci Mendes da Luz em 14 de setembro de 2020.
 

 

 

 

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