Lázaro Ramos
Hoje,
gostaria de propor a leitura de um livro de cabeceira, daqueles que lemos com
calma, antes de dormir ou quando nos sobra um tempo, sem grandes pretensões
bibliográficas ou historiográficas, que nos envolve aos poucos e que ao final
nos surpreende, nos deixa com gosto de “quero mais” e ainda nos propõe
reflexões interessantes sobre temas como: racismo, intolerância, desigualdade,
família, questões de gênero e empoderamento.
Estou
falando da obra de Lázaro Ramos, ator, cineasta e escritor, lançada em 2017 e o
primeiro de seus livros para o público adulto. Lázaro é mais conhecido por sua
atuação na TV e tem publicado alguns livros infantis. A obra em si não é uma autobiografia,
como ressalta já no início o próprio autor, mas a primeira parte trata sim da
sua história e das realidades enfrentadas por ele nos primeiros tempos de vida,
seja na sua terra natal, a ilha do Paty, ou na capital do estado deste baiano,
quando ele se muda para lá.
É
certo que não se trata de um livro de referências unicamente pessoais, mas as
mesmas são usadas para chegar ao ponto em que a discussão e os temas mais
relevantes se apresentarão. Isto se dá na segunda parte do mesmo, mais densa e
mais polêmica, ao tratar de temáticas como intolerância, desigualdade, respeito
as diferenças, formação de identidade, consciência individual e coletiva. São
as vivências pessoais, suas histórias, realizações, frustrações e sobretudo os
personagens encontrados ao longo da carreira que irão dar sentido aos temas
mais complexos da discussão.
Pessoas
são citadas e histórias são reafirmadas desde o início do livro. E, para Lázaro
elas são muitas e diversas, de diferentes origens, profissões, gêneros e
religiões. Todas elas, segundo o autor, o ajudaram a formar sua identidade e o
modo como ele enxerga o mundo. Desde a família, o círculo mais íntimo, até os
entrevistados no programa Espelho[1],
de cujas entrevistas muitas opiniões, ideias e sugestões são citadas. Aliás, as
entrevistas e as falas dos entrevistados no citado programa são muitas vezes reflexões
sobre racismo, intolerância e desigualdade no Brasil.
Como
já dito, não é pretensão do livro entrar em temas e discussões mais
aprofundadas sobre racismo, escravidão e negritude no país, mas é certo que ele
orbita constantemente sobre estes temas, haja vista a cor e o lugar de fala do
ator e escritor, bem como a linha de raciocínio seguida pelo autor. Com uma linguagem
acessível, despojada, permeada com uma tonalidade as vezes cômica, o livro, a
meu ver, consegue transitar entre um público misto, podendo ser lido e bem
aceito em diferentes espaços.
Contudo,
faço questão de frisar para não gerar preconceitos em relação ao autor e a
obra, de que não se trata apenas de “mais um livro de um ator global” ou um
daqueles livros “água com açúcar para ganhar dinheiro”, mas de um encontro
entre diferentes mundos: o do autor e o do leitor. O convite feito a todos a
partir do título é um desafio sugestivo: “na minha pele”. Vista a mesma pele
que eu, sinta a minha pele, pede o autor nas entrelinhas, enfim, tenha empatia.
E para
não dizer que a obra não esbarra em temas polêmicos, vamos citar alguns para
que o leitor deste texto amplie um pouco mais sua visão, se quiser, sobre o
assunto. Um dos temas “espinhosos” abordados é a questão da “ideia da raça
negra como sinônimo de degeneração” (RAMOS, 2017, p. 81). Uma narrativa
acertada, pois se continuarmos presos as ideias racialistas do século XIX,
jamais conseguiremos discutir com seriedade questões raciais neste país. Muito
do que foi construído sobre a ideia do negro no século da abolição e no pós-abolição,
reverbera ainda hoje no modo como enxergamos o homem e mulher negros na
sociedade brasileira.
Em sua obra “As raças humanas e a responsabilidade penal no
Brasil (1894)”, o médico Nina Rodrigues utiliza fatores biológicos para
explicar fenômenos sociológicos. E se vale de teorias raciais europeias, para
as quais o negro era predisposto geneticamente à criminalidade. Mesmo que tais
ideias atualmente sejam irrelevantes e desacreditadas, o que ocorre na
sociedade brasileira em relação aos altos índices de jovens negros mortos e
outros tantos presos nos leva a pensar na permanência desses engodos que só
reforçam a estigmatização do passado. (Glauciane Santos, 2017).
Sobre este tema, Lázaro vai dizer
que em muitos dos seus personagens no teatro e na TV, ele recusou papeis em que
o personagem portasse uma arma de fogo ou estivesse envolvido em assaltos,
furtos, tráfico de drogas, temas estes, geralmente relacionados a pessoas de
cor negra. A ideia, segundo Lázaro, era a de não trazer para as telas ou para
os palcos a “legitimação” de tais estigmas sociais.
Outro assunto abordado é a falta de
referenciais negros na sociedade brasileira, ou ao menos, a falta da citação
deles. “Se não existirem referências da
cultura negra, ou se todas elas forem negativas ou por demais insignificantes,
isso não impactará diretamente em nossa capacidade de sonhar, de nos sentirmos
possíveis, de nos identificarmos com alguém”? (RAMOS, 2017, p. 78).
Por isso mesmo, os entrevistados do programa Espelho são em sua maioria, homens e
mulheres negros, e cabe ressaltar também a delicadeza do autor em rememorar
algumas personalidades negras em sua narrativa: o advogado abolicionista Luiz
Gama; as escritoras Ana Maria Gonçalves e Conceição Evaristo; a jornalista
Glória Maria; o cineasta e primeiro protagonista negro da televisão brasileira,
Zózimo Bulbul; o geógrafo Milton Santos; o cineasta Joel Zito Araújo; o
historiador Jaime Santana Sodré, o escritor e estudioso Nei Lopes; o professor
Carlos Augusto de Miranda Martins, dentre outros ilustres nomes.
Lázaro é casado com a também atriz Taís Araújo, a qual cita
em alguns momentos no livro, bem como seus filhos, mas não entra nos pormenores
ou nas opiniões dos mesmos sobre os assuntos citados. Ele vai até dizer que
ocorreram situações parecidas com as suas na vida da esposa, também
afrodescendente, mas frisa que não cabe a ele emitir juízo sobre a vida e as
realidades enfrentadas por Taís. Sobre o tema da mulher negra, a professora
Glauciane Santos vai dizer:
Sobre esta questão, Edward Telles, em seu livro, “Racismo à
Brasileira (2003)” nos revela a dificuldade que mulheres e homens negros
possuem ao buscarem relacionamentos amorosos. Ao contrário do que muitos
imaginam, relacionamentos inter-raciais não são tão comuns e as mulheres negras
mais retintas ficam ainda mais excluídas nesse contexto, mesmo entre seus pares
étnicos. (Glauciane Santos, 2017)
Alguns leitores acham que o autor
deveria ter sido mais incisivo em suas colocações, mais direto em algumas
opiniões e mais duro em alguns temas abordados. Contudo, a obra não deixa de
ser uma tentativa de lançar olhares sobre assuntos tão relevantes em tempos tão
racistas.
“É mais fácil escolher
um argumento – como defender que no Brasil o racismo é mais brando – e insistir
nele, dizendo que tudo é mimimi ou mania de perseguição. Sem assumir a
complexidade, nada muda de lugar”. (RAMOS, 2017, p.58).
Notas sobre o autor:
Luís Lázaro Sacramento de Araújo
Ramos nasceu em Salvador no dia 1º de novembro de 1978. É ator, apresentador,
cineasta e escritor. Começou sua carreira artística no Bando de Teatro Olodum,
na cidade de Salvador. Durante os anos de 1998 a 2002 foi âncora do “Fantástico”
da TV Globo. Ganhou notoriedade ao interpretar João Francisco dos Santos no
filme “Madame Satã” em 2002. Foi indicado ao Emmy em 2007 de melhor ator por
sua participação na novela “Cobras e Lagartos” na também TV Globo onde
interpretava o personagem Foguinho e
contracenava com sua esposa Taís Araújo.
Link da análise feita pela professora Glauciane Santos, citada na resenha:
Link do livro em PDF http://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/pdf/Na%20minha%20pele%20-%20Lazaro%20Ramos.pdf
[1] Em
2017, o programa de entrevistas Espelho – idealizado, dirigido e apresentado
por Lázaro Ramos no Canal Brasil – completa doze anos. Citação retirada do
próprio livro, página 9.
Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz, em 31 de agosto de 2020













