Na minha pele

Lázaro Ramos 


Hoje, gostaria de propor a leitura de um livro de cabeceira, daqueles que lemos com calma, antes de dormir ou quando nos sobra um tempo, sem grandes pretensões bibliográficas ou historiográficas, que nos envolve aos poucos e que ao final nos surpreende, nos deixa com gosto de “quero mais” e ainda nos propõe reflexões interessantes sobre temas como: racismo, intolerância, desigualdade, família, questões de gênero e empoderamento.

Estou falando da obra de Lázaro Ramos, ator, cineasta e escritor, lançada em 2017 e o primeiro de seus livros para o público adulto. Lázaro é mais conhecido por sua atuação na TV e tem publicado alguns livros infantis. A obra em si não é uma autobiografia, como ressalta já no início o próprio autor, mas a primeira parte trata sim da sua história e das realidades enfrentadas por ele nos primeiros tempos de vida, seja na sua terra natal, a ilha do Paty, ou na capital do estado deste baiano, quando ele se muda para lá.

É certo que não se trata de um livro de referências unicamente pessoais, mas as mesmas são usadas para chegar ao ponto em que a discussão e os temas mais relevantes se apresentarão. Isto se dá na segunda parte do mesmo, mais densa e mais polêmica, ao tratar de temáticas como intolerância, desigualdade, respeito as diferenças, formação de identidade, consciência individual e coletiva. São as vivências pessoais, suas histórias, realizações, frustrações e sobretudo os personagens encontrados ao longo da carreira que irão dar sentido aos temas mais complexos da discussão.

Pessoas são citadas e histórias são reafirmadas desde o início do livro. E, para Lázaro elas são muitas e diversas, de diferentes origens, profissões, gêneros e religiões. Todas elas, segundo o autor, o ajudaram a formar sua identidade e o modo como ele enxerga o mundo. Desde a família, o círculo mais íntimo, até os entrevistados no programa Espelho[1], de cujas entrevistas muitas opiniões, ideias e sugestões são citadas. Aliás, as entrevistas e as falas dos entrevistados no citado programa são muitas vezes reflexões sobre racismo, intolerância e desigualdade no Brasil.

Como já dito, não é pretensão do livro entrar em temas e discussões mais aprofundadas sobre racismo, escravidão e negritude no país, mas é certo que ele orbita constantemente sobre estes temas, haja vista a cor e o lugar de fala do ator e escritor, bem como a linha de raciocínio seguida pelo autor. Com uma linguagem acessível, despojada, permeada com uma tonalidade as vezes cômica, o livro, a meu ver, consegue transitar entre um público misto, podendo ser lido e bem aceito em diferentes espaços.

Contudo, faço questão de frisar para não gerar preconceitos em relação ao autor e a obra, de que não se trata apenas de “mais um livro de um ator global” ou um daqueles livros “água com açúcar para ganhar dinheiro”, mas de um encontro entre diferentes mundos: o do autor e o do leitor. O convite feito a todos a partir do título é um desafio sugestivo: “na minha pele”. Vista a mesma pele que eu, sinta a minha pele, pede o autor nas entrelinhas, enfim, tenha empatia.

E para não dizer que a obra não esbarra em temas polêmicos, vamos citar alguns para que o leitor deste texto amplie um pouco mais sua visão, se quiser, sobre o assunto. Um dos temas “espinhosos” abordados é a questão da “ideia da raça negra como sinônimo de degeneração” (RAMOS, 2017, p. 81). Uma narrativa acertada, pois se continuarmos presos as ideias racialistas do século XIX, jamais conseguiremos discutir com seriedade questões raciais neste país. Muito do que foi construído sobre a ideia do negro no século da abolição e no pós-abolição, reverbera ainda hoje no modo como enxergamos o homem e mulher negros na sociedade brasileira.

Em sua obra “As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil (1894)”, o médico Nina Rodrigues utiliza fatores biológicos para explicar fenômenos sociológicos. E se vale de teorias raciais europeias, para as quais o negro era predisposto geneticamente à criminalidade. Mesmo que tais ideias atualmente sejam irrelevantes e desacreditadas, o que ocorre na sociedade brasileira em relação aos altos índices de jovens negros mortos e outros tantos presos nos leva a pensar na permanência desses engodos que só reforçam a estigmatização do passado. (Glauciane Santos, 2017).

            Sobre este tema, Lázaro vai dizer que em muitos dos seus personagens no teatro e na TV, ele recusou papeis em que o personagem portasse uma arma de fogo ou estivesse envolvido em assaltos, furtos, tráfico de drogas, temas estes, geralmente relacionados a pessoas de cor negra. A ideia, segundo Lázaro, era a de não trazer para as telas ou para os palcos a “legitimação” de tais estigmas sociais.

            Outro assunto abordado é a falta de referenciais negros na sociedade brasileira, ou ao menos, a falta da citação deles.  “Se não existirem referências da cultura negra, ou se todas elas forem negativas ou por demais insignificantes, isso não impactará diretamente em nossa capacidade de sonhar, de nos sentirmos possíveis, de nos identificarmos com alguém”? (RAMOS, 2017, p. 78).

Por isso mesmo, os entrevistados do programa Espelho são em sua maioria, homens e mulheres negros, e cabe ressaltar também a delicadeza do autor em rememorar algumas personalidades negras em sua narrativa: o advogado abolicionista Luiz Gama; as escritoras Ana Maria Gonçalves e Conceição Evaristo; a jornalista Glória Maria; o cineasta e primeiro protagonista negro da televisão brasileira, Zózimo Bulbul; o geógrafo Milton Santos; o cineasta Joel Zito Araújo; o historiador Jaime Santana Sodré, o escritor e estudioso Nei Lopes; o professor Carlos Augusto de Miranda Martins, dentre outros ilustres nomes.

Lázaro é casado com a também atriz Taís Araújo, a qual cita em alguns momentos no livro, bem como seus filhos, mas não entra nos pormenores ou nas opiniões dos mesmos sobre os assuntos citados. Ele vai até dizer que ocorreram situações parecidas com as suas na vida da esposa, também afrodescendente, mas frisa que não cabe a ele emitir juízo sobre a vida e as realidades enfrentadas por Taís. Sobre o tema da mulher negra, a professora Glauciane Santos vai dizer:

Sobre esta questão, Edward Telles, em seu livro, “Racismo à Brasileira (2003)” nos revela a dificuldade que mulheres e homens negros possuem ao buscarem relacionamentos amorosos. Ao contrário do que muitos imaginam, relacionamentos inter-raciais não são tão comuns e as mulheres negras mais retintas ficam ainda mais excluídas nesse contexto, mesmo entre seus pares étnicos. (Glauciane Santos, 2017)

            Alguns leitores acham que o autor deveria ter sido mais incisivo em suas colocações, mais direto em algumas opiniões e mais duro em alguns temas abordados. Contudo, a obra não deixa de ser uma tentativa de lançar olhares sobre assuntos tão relevantes em tempos tão racistas.

 “É mais fácil escolher um argumento – como defender que no Brasil o racismo é mais brando – e insistir nele, dizendo que tudo é mimimi ou mania de perseguição. Sem assumir a complexidade, nada muda de lugar”. (RAMOS, 2017, p.58).

 

Notas sobre o autor:

Luís Lázaro Sacramento de Araújo Ramos nasceu em Salvador no dia 1º de novembro de 1978. É ator, apresentador, cineasta e escritor. Começou sua carreira artística no Bando de Teatro Olodum, na cidade de Salvador. Durante os anos de 1998 a 2002 foi âncora do “Fantástico” da TV Globo. Ganhou notoriedade ao interpretar João Francisco dos Santos no filme “Madame Satã” em 2002. Foi indicado ao Emmy em 2007 de melhor ator por sua participação na novela “Cobras e Lagartos” na também TV Globo onde interpretava o personagem Foguinho e contracenava com sua esposa Taís Araújo.

Link da análise feita pela professora Glauciane Santos, citada na resenha:

http://www.letras.ufmg.br/literafro/resenhas/ensaio/393-reflexoes-de-um-jovem-escritor-sobre-as-relacoes-raciais-no-brasil

Link do livro em PDF http://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/pdf/Na%20minha%20pele%20-%20Lazaro%20Ramos.pdf



[1] Em 2017, o programa de entrevistas Espelho – idealizado, dirigido e apresentado por Lázaro Ramos no Canal Brasil – completa doze anos. Citação retirada do próprio livro, página 9.


Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz, em 31 de agosto de 2020


Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro

(1868-1888)

Ângela Alonso 

Em primeiro lugar, gostaria de começar esta resenha, agradecendo a todos que de uma forma ou de outra chegaram nesta página. Não é nada fácil tirar tempo para escrever, menos fácil ainda é tirar tempo para ler e se aprofundar em determinados assuntos. Contudo, se você chegou até aqui é porque gosta deste tipo de desafio e sabe o quanto os universos da leitura e da escrita ampliam nosso modo de ver o mundo que nos cerca. Por isso, obrigado por ajudar-me a tentar enxergar o amanhã usando os óculos do ontem. Que o passado sempre nos inspire a vislumbrar o futuro.

Comecei o texto dessa semana “quase que” filosofando, porque creio que para ler a socióloga e historiadora Ângela Alonso, com maestria, é preciso ter um pouco de historiador, sociólogo e porque não, pouco de filósofo. De antemão adianto, aos que irão se aventurar na leitura, que as mais de quinhentas páginas do majestoso “Flores, votos e balas” são uma grande viagem que fazemos junto com a autora ao nosso passado recente de conquistas, progressos e retrocessos, no que foi a luta pela abolição da escravatura no Brasil. Aos olhos da autora: o primeiro movimento social brasileiro.

A jovem professora é livre-docente do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, escritora e colunista da Folha de São Paulo. Tem hoje 51 anos de idade e lançou seu livro, fruto de seis anos de pesquisas, em 2015. Tem diversas entrevistas sobre o livro, o país e os movimentos sociais, publicados nas plataformas digitais, facilmente acessíveis.

Para começo de conversa, adianto que o livro é rico em detalhes, escrito em formato jornalístico e pincelado, o tempo todo, com citações históricas. Por isso, sugiro que antes de começar a ler você faça uma pesquisa, mesmo que superficial, sobre o movimento abolicionista brasileiro. Digo isto porque alguns termos, personagens e dados, citados ao longo da obra, sugerem um prévio conhecimento do leitor. Não falo isso para desmotivá-lo, mesmo porque, a riqueza da obra que será lida vale o esforço e essa resenha poderá lhe ajudar um pouco.

O título flores, votos e balas, é um tanto quanto instigante e é preciso ler a obra toda para compreendê-lo. Como eu sou um cara legal, vou quebrar seu galho e resumi-lo em poucas palavras: trata-se da forma que a autora encontrou de subdividir o movimento em três fases. As três palavras traduzem os três principais momentos de um movimento, que segundo a autora, foi bem maior e mais complexo do que geralmente é apresentado pela historiografia. Sem mais delongas, vamos às fases:

A primeira, a das flores, começa tímida no início da década de 1860 e vai se estendendo ao longo da seguinte. É um período em que o abolicionismo é marcado por conferências, concertos, teatros, espetáculos, romances e onde pouco a pouco a tentativa é convencer a opinião pública, de que a escravidão precisava ser abolida. Motivado pela elite, alimentado nas esferas burguesas e regado a banquetes, essa primeira fase é artística e pacífica. E porque as flores? A camélia, protagonista, é distribuída nos espetáculos, ao final dos concertos ou usada na lapela como sinal de identificação dos membros do movimento.

Enquanto nos palcos a elite ia sendo convencida, no Parlamento e nas ruas arranjos políticos eram feitos. Nas esferas governamentais Joaquim Nabuco é um dos que operam o tempo todo em prol dos abolicionistas, enquanto figuras como Paulino José de Souza estão do início ao fim na resistência: é a fase dos votos. Províncias como a do Ceará e a do Amazonas, lideradas por políticos abolicionistas põem fim à escravidão em 1884, quatro anos antes da canetada da princesa, gerando reação contrária. O Ceará por exemplo, se torna o “refúgio dos escravos fugidos” de outras províncias. Aqui e acolá, a partir dos gabinetes, com a ajuda da imprensa e apoio popular, regiões inteiras se declaravam livres.

No Parlamento, a aliança entre abolicionistas fortalecidos e escravistas apoiados pelo governo Imperial tenta chegar a um acordo sobre a Reforma proposta por Manuel de Souza Dantas: fim gradativo da escravidão, “salário aos ex-escravos” e um pequeno pedaço de terra aos mesmos. O objetivo da união e do apoio ao governo era o de eleger um abolicionista para a chefia do Parlamento. O tiro saiu pela culatra. Abolicionistas são derrotados nos votos (há controvérsias) e o pior: é eleito para a Presidência do Conselho de Ministros um escravista ferrenho, o Barão de Cotegipe, o mesmo que anos depois será um dos que irá votar contra a Lei Áurea e se pronunciar abertamente na frente da princesa: "Vossa alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono". A fase seguinte, é a das balas.

Derrotados nas urnas, mas não desmotivados nos propósitos, amplamente apoiados por advogados, políticos e pela grande massa da população, a fase final do movimento, a partir de 1885, será decisiva para a derrocada do regime escravista. É pela luta como um todo, mas por este momento em particular, que Ângela Alonso, vai dizer que o abolicionismo foi o “primeiro movimento social brasileiro". Ele começa na elite, mas a transcende.

Agora é a vez dos extratos médios urbanos, da participação popular: cocheiros, lavradores, vendedores, comerciantes. A cereja do bolo: a grande maioria já não denuncia mais as fugas e os esconderijos às autoridades, há uma adesão maciça à causa abolicionista. A falência de um sistema escravocrata enraizado e alimentado por um grupo de fazendeiros endinheirados e de alguns políticos ávidos pelo poder, viria em pouco anos.

O gabinete do Barão de Cotegipe intensifica as perseguições aos abolicionistas e seus dirigentes, e eles por sua vez, lideram e organizam fugas orientadas em massa das fazendas, acoitamento de escravos fugidos nas cidades, casas e comércios, apoiam a criação de quilombos urbanos, intensificam os ganhos de causas judiciais, e até em última instância, organizam-se na luta armada.

O fim dessa história a gente já conhece: Lei Áurea (aliás, esse nome aí já havia sido dado a outra lei, assinada por Isabel em 1871, que fica conhecida depois como lei do Ventre Livre). Não era como os abolicionistas tinham pensado o fim da escravidão. Diversas vezes haviam apresentado no Parlamento um projeto de lei que incluía proteção aos libertos, direitos sociais aos mesmos e a posse de uma pequena propriedade privada.

O que aconteceu nas vésperas daquele 13 de maio, logo após a queda dos escravistas do poder, foi uma intensa negociação de André Rebouças (grande líder do movimento cuja breve biografia apresento abaixo) com a Coroa. O medo era não ter outra ocasião para tal e a escravidão bater às portas do novo século. Por fim, uma lei simples: dois artigos e os ex-escravizados lançados à própria sorte. No dia seguinte entrariam em cena os do contra, chamados de indenizistas, querendo da Coroa indenização pelos escravos “libertados” pela lei.

Quando a princesa Isabel assinou aquelas poucas linhas, o fim da escravidão já era impossível de reprimir. Pressionada interna e externamente, afinal de contas a Inglaterra que desde o início do século não dava sossego para a família Real, resolveu apertar o cerco. Os vizinhos das Américas também, um a um, extinguiram antes dela os regimes escravistas em suas terras. Naquele 1888, a princesa estava sozinha, como último baluarte das Américas escravocratas. A Lei aprovada por votações na Câmara, no Senado e assinada pela Princesa Regente foi: 

Artigo 1º - É declarada extinta, desde a data da lei, a escravidão no Brasil.

Artigo 2º - Revogam-se disposições em contrário.

De 13 de maio de 1888 a 15 de novembro de 1889, foram poucos os meses até que a coroa caísse da cabeça da princesa. Escravistas sentindo-se traídos se aliam aos já fortalecidos Republicanos, aliás, partido do qual a maioria dos abolicionistas fazia parte. A República seria o novo passo em direção ao futuro. Muitas aspas sejam colocadas aí, haja vista o golpe militar que instaura a República e as “figuras” que sentam na cadeira da princesa. Mas essa já é uma outra página da nossa história da qual o livro não tem a intenção de tratar.

Finalizo com as palavras da autora:

Todos os brasileiros somos, de um modo ou de outro, herdeiros do tipo de desfecho que teve a escravidão entre nós. A decisão política, no pós abolição, de atrair europeus, em vez de incorporar plenamente os ex-escravos à sociedade nacional, trouxe ao país levas de imigrantes, como meus avós Maria do Carmo Soler e Felix Alonso Garcia. Se o desfecho fosse outro, seríamos todos outros. Eles não teriam vindo ao Brasil e eu não teria escrito este livro”.

 

Outros personagens importantes do movimento abolicionista citados no livro:

André Rebouças - Talvez seja um dos personagens centrais do livro. É como que uma figura transversal. Está do início ao fim no movimento e na obra de Ângela. Negro, engenheiro formado, diplomado. Pertence a uma pequena parte da imensa população negra e mestiça que consegue ascender socialmente no Governo Imperial. Atua ativamente no campo político a favor do movimento.

José do Patrocínio – Também negro, mas não com a mesma sorte de ascenção social de Rebouças. Filho de padre branco (o vigário de Campos de Goytacazes) com a sua jovem escrava. A mestiçagem vai ser um empecilho social para se formar em medicina, consegue no máximo ser farmacêutico. Opera fortemente a favor do movimento no espaço público e na imprensa.

Luiz Gama – Outro negro que sofreu na pele a discriminação da cor. Filho de português branco e mãe negra, não lhe permitem estudar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, mas nem por isso ele deixa de advogar. Usou a estratégia de mobilização do sistema jurídico.

Impetrava ações argumentando que existiam leis a favor dos escravizados e que elas deveriam ser colocadas em prática. Construiu uma linha de ativismo toda própria. Morreu cedo, mas foi transformado no grande herói da campanha. Atuação ativa e ao mesmo tempo clandestina.

Antônio Bento – Herdeiro de Luiz Gama na causa em São Paulo. Branco, relativamente bem-posto na vida, juiz e católico. Era do partido Conservador, vale lembrar que a maior parte dos abolicionistas eram ou liberais ou republicanos. Antônio Bento é cheio de contradições.

Figura importante na fase final da campanha porque tem facilidade em esconder escravos fugidos, tem ligação com a Igreja Católica e incentiva a fuga dos escravizados nas fazendas. Atua constantemente interligado com outros abolicionistas, mas de uma forma mais clandestina.

Abílio Borges – Médico baiano formado em Salvador, é um dos brancos da elite que aderem a causa. O mais interessante é que durante seu período como professor, fazia questão de incutir na cabeça de seus alunos ideias abolicionistas. Um dos mais famosos deles foi Castro Alves, que fica conhecido posteriormente como o poeta dos escravos. Abílio atua nos bastidores, faz conexões internacionais e busca apoio no estrangeiro para a causa em terras brasileiras. Ângela vai dizer que a descoberta de um Abílio Borges abolicionista foi uma de suas maiores surpresas. O mesmo não é comumente apresentado como tal nos livros de história.

 

Sobre a expressão "lançados à própria sorte" grifado no texto, acrescento:

O recenseamento de 1872 e pesquisas recentes corroboram os indícios que existiu certa ascensão social dos negros livres na cidade de São Paulo, com paulatina inserção no trabalho assalariado, na compra ou na posse de pequenas propriedades e no acúmulo de bens. [...] Florestan Fernandes sustentou que a exclusão social a que o negro foi submetido, quando da formação do mercado de trabalho assalariado, era resultado do abandono das elites que os "atirou a própria sorte" ao final da escravidão. Os documentos analisados em pesquisas anteriores e a bibliografia consultada apontam que os negros possuíam qualificação profissional para exercer os mais variados trabalhos - e não fizeram "opção pelo ócio", como já foi afirmado por outros pesquisadores - uma vez que, efetivamente, exerceram inúmeros trabalhos, ainda que proibidos, e ao longo do século XVIII e XIX, viveram um processo de adaptação à cultura capitalista, acumulando bens e valores em moeda ou metais preciosos. Ou seja, se as elites tivessem simplesmente "atirado os escravos a própria sorte", certamente a integração econômica e social teria acontecido e se ampliado. O dado novo é que as oligarquias fizeram mais do que desprezar o trabalhador negro. Segundo o que nos indicam os parágrafos da legislação (em particular os códigos de posturas) e a partir das elaborações teóricas que davam sustentação àquela legislação podemos concluir que houve uma ação deliberada no sentido de marginalizar os ex-escravizados e seus descendentes. (Ferreira, Abílio. Tebas: um negro arquiteto na São Paulo escravocrata. São Paulo: IDEA, 2018).


Link sobre líderes negros nos anos que antecederam a abolição:

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44091469

 

Link de matéria sobre as "Províncias" que aboliram a escravidão antes da Lei Áurea:

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48234172

 

Entrevista de Ângela Alonso à TV Cultura:

https://tvcultura.com.br/videos/50922_historia-movimento-abolicionista-angela-alonso-fflch-usp.html


Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 24 de agosto de 2020.

 

O idioma da mestiçagem

Larissa Viana


         Você com certeza já ouviu alguma dessas frases: “não há racismo no Brasil pois somos um povo miscigenado”, “fulano só estava brincando quando chamou o outro de macaco” ou ainda, “como posso ser racista, se alguns de meus parentes são negros ou mulatos? ” Estas frases cunhadas ao longo de séculos de preconceitos e exclusão social fazem parte do universo do “mito da democracia racial” existente em nosso país, sobre o qual diversos autores, de ontem e de hoje, se debruçaram e se debruçam na busca de compreender a formação do povo brasileiro.

O assunto é delicado, mas creio que falar dele se faz necessário. Não sou especialista no tema racismo, mas comungo da ideia de que é tarefa de cada concidadão meu, compreender a realidade que nos cerca e entender o contexto onde nossos pré-conceitos foram moldados. O universo do racismo nestas terras é estrutural como salientam diversos autores, inclusive a historiadora que vamos apresentar hoje. É por isso, que obras como esta, abrem para nós mais um horizonte neste vasto mundo colonial sobre o qual nossas raízes estão fincadas.

Ressalto que o tema central do livro não é “racismo estrutural” nem o “mito da democracia racial”, aliás termos modernos e desconhecidos para o homem colonial e suas irmandades, objeto central dos estudos da autora para produção da obra. Contudo o assunto focal irá orbitar constantemente em torno destes temas, mesmo que de forma sutil, quando parte do pressuposto da ideia de formação de uma identidade “parda” nacional.

Não quero me estender no tema racismo aqui nestas linhas, mas só para pontuar que esta resenha está sendo escrita em 2020 e que episódios racistas são corriqueiros ainda hoje em nosso país, cito alguns bem recentes: o caso do jovem negro Mateus, abordado por seguranças a paisana em um shopping center do Rio de Janeiro, porque eles simplesmente “acharam que o boné que Mateus usava estava ligado a uma facção criminosa”; outro caso, de outro Mateus, pardo, desta vez em um condomínio de luxo no interior de São Paulo, insultado e agredido verbalmente com alegações visivelmente racistas. Enfim os tantos pretos e pardos, alvejados nas periferias e nos morros, porque a cor de sua pele antecipa uma suspeita. Os casos são muitos e os citados são bem recentes, infelizmente até você terminar de ler este texto, outros tantos acontecerão em alguma parte desse país.

Esse assunto merece ampla discussão e renderia muitas páginas desta resenha, achei por bem citá-lo ao menos nos primeiros parágrafos. Como já dito, não é este o tema central que aqui iremos tratar, mas esta é também uma das bandeiras defendida pela autora. Estou falando de Larissa Viana, professora adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e a resenha de hoje trata de seu livro: “O idioma da mestiçagem”. A obra é fruto do trabalho de pesquisa para elaboração de sua tese de doutorado na dita instituição de ensino e trata das irmandades de pardos no período colonial, mais especificamente as irmandades do Rio de Janeiro nos séculos XVII e XVIII.

Muito mais do que um estudo sobre as irmandades religiosas católicas, voltadas primordialmente para os homens e mulheres “pardos”, o livro é um passeio no universo cultural sobre o qual se formou a identidade nacional dos “mestiços”. Quem eram estas pessoas? Como eram vistas pela sociedade? Como eram integradas na mesma? Quais os desafios enfrentados pelos ditos pardos no processo de integração social? Estas e outras perguntas a obra se propõe responder e ajuda o leitor a compreender de forma mais clara, a origem e a identificação do mestiço brasileiro.

A começar pelo termo “pardo”, preferido pelos homens e mulheres coloniais em contrapartida ao termo “mulato”, que era geralmente relacionado aos negros escravizados e por isso repleto de preconceitos. Ao utilizar-se de um termo para se caracterizarem, os pardos se aproveitam do mesmo para criar uma identidade própria. Larissa reforça que a palavra pardo era carregada de múltiplos usos e de muitos significados no contexto colonial:

No século XVII, por exemplo, era usado em São Paulo para designar indígenas escravizados ilegalmente. No Nordeste açucareiro, de mais acentuada presença africana, tendia a ser sinônimo de mulato, mas deve-se ter em conta, como adverte uma vez mais L. Schwartz, que a emergência dos pardos no século XVII estava ligada também as uniões entre europeus e africanos, e destes com os indígenas. No sudeste colonial, de acordo com a pesquisa de Sheila Faria, o termo pardo aparecia por vezes referenciado a mestiçagem, mas também era usado como sinônimo de liberto ou homem livre de cor nascido na colônia, independentemente de ser ou não mestiço. A categoria pardo, nesse caso, reveste-se de um conteúdo social especialmente interessante, na medida em que era usada para qualificar homens e mulheres livres de ascendência africana que já não eram necessariamente mestiços. Russell-Wood, em análise recente, propôs que a palavra pardo pudesse ser pensada como indicação de uma condição social mais elevada do que aquela habitualmente atribuída aos mulatos naquele contexto. Desse modo, mais do que uma identificação de uma matriz de cor, o termo pardo podia indicar origem, condição social e status das pessoas de cor no universo colonial.

Dentro deste universo ambíguo e fluído, os pardos no sentido mais amplo do termo (crioulos, pardos, mulatos) irão preferir categorizar-se como tal, na busca constante de reconhecimento e ascensão social. Ser pardo não é ser branco, mas também não é ser negro. No Vocabulário Portuguez e Latino, de Raphael Bluteau, composto entre 1712 e 1727, a palavra pardo designava a “cor entre branco e preto, própria do pardal” (Viana, 2007, p. 19). Ser pardo portanto é estar no meio termo dessas duas cores, dessas duas “condições sociais”, e por isso mesmo, poder almejar algum tipo de crescimento. Há um debate, portanto, de identidade criado nestes homens e mulheres a partir da mestiçagem, o que é amplamente apresentado no livro.

Na esteira do lugar de identificação social, irão surgir ao longo do século XVII e XVIII, diversas irmandades católicas associadas a homens e mulheres pardos nas cidades coloniais brasileiras. Note que o termo pardo, será preferencialmente usado pelos irmãos destas confrarias, em detrimento ao termo mulato. Os oragos ou santos de devoção, serão variados mas tendem a seguir estas invocações: Nossa Senhora de Guadalupe, Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Amparo e da Conceição, entre outros.

A novidade está na entronização de uma nova devoção: a de São Gonçalo Garcia em 1745 no Recife em Pernambuco. De origem indiana, fruto da “miscigenação” de pai português e mãe escrava, Gonçalo será sinônimo de pardo no período colonial brasileiro. O que é curioso neste santo, é que sua tez “parda” é usada por Frei Jaboatão (historiador e religioso franciscano do século XVIII) como qualificativo e não como degeneração, como era comumente usado pelas autoridades. Uma tentativa portando de positivação dos pardos perante a sociedade.

Em discurso proferido no momento da entrada do santo em Pernambuco, que os estudiosos Raquel Lins e Gilberto Andrade chamaram de “elogio do homem pardo”, Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, defensor ardoroso da causa, elenca inúmeras qualidades e virtudes dos homens pardos. Apoiado em estudos filosóficos e bíblicos, ele chega à conclusão que “[...] os mistos como sabem os filósofos, são mais perfeitos de que as partes de que resultam, porque participam das perfeições dessas partes. E aqui temos já por princípio natural, a cor parda mais perfeita que a cor preta e branca [...]”. (VIANA, 2007. p. 127).

            Chegar a este tipo de oficialização e legitimação não foi fácil, nem mesmo para o franciscano entusiasta da causa do santo pardo. Termos como “pureza de sangue” e “sangue mulato” eram amplamente usados em termos oficiais para excluir negros, pardos e mestiços de irmandades, funções públicas ou mesmo cargos eclesiásticos. Em uma população que crescia cada vez mais a partir do tráfico e da “mistura de raças”, os mestiços geralmente eram vistos como altamente perigosos e perturbadores para a ordem pública. Aliás, critérios de pureza de sangue foram usados até meados do século XIX em irmandades de brancos e órgãos oficiais, mesmo que desde as modernizações implantadas pelo Marquês de Pombal, houvessem recomendações de extinção deste tipo de critério discriminatório.

            Neste contexto de hibridismo e mistura, as irmandades de pardos ganham um lugar de destaque porque se tornam espaço de sociabilidade, lugar onde o estigma do sangue mulato poderia ser vencido, num processo de valorização da mestiçagem. E isto tudo, na diretriz que perpassa o lugar das identidades sociorreligiosas. Enfim, como afirma a autora, essas irmandades foram utilizadas como forma de apropriação e legitimação de um espaço diferenciado na hierarquia social dos pardos.

            Larissa Viana nos abre um leque novo de possibilidades para compreensão do universo sociorreligioso colonial e pós-colonial. Nos ajuda a enxergar o quanto conceitos criados e amplamente usados no ontem, são frequentemente empregados para legitimar ações do hoje. A autora tem vários textos sobre racismo e suas origens que valeriam a leitura, claro, depois que você terminar de ler “O idioma da mestiçagem”.

 

            Notas sobre a autora:

Professora adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do NUPEHC (Núcleo de Pesquisa e Estudos em História Cultural). Possui mestrado em História pela UFF (1998) e doutorado em História obtido na mesma instituição (2004). Tem experiência na área, com ênfase em História do Brasil e das Américas, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão e liberdade nas Américas, mestiçagem, relações raciais e história social da cultura.

Coordenou entre 2014 - 2019 o Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da UFF, vinculado à Rede Nacional Pró-História. Integra a Comissão de Biblioteca do PPGH-UFF desde 2009, atuando na Rede Livros e Leituras no século XXI.

 

Artigo sobre São Gonçalo Garcia – o primeiro santo pardo a ter sua devoção amplamente incentivada na América portuguesa.

https://books.openedition.org/oep/786

 

Artigo de Ana Paula Cabral Tostes sobre “Raça” e “cor” no debate sobre escravidão na América portuguesa.

https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548945029_5cea56cf5fd1f35c825c988064dc4f2f.pdf

 

Resenha do livro feita pela professora Fábia Barbosa Ribeiro:

https://www.redalyc.org/pdf/2850/285022053012.pdf

 




Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 17 de agosto de 2020.

Lá vem o meu parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco (século XVIII)

Antônia Aparecida Quintão


(...) nenhuma classe se entregava com maior devotamento a demonstrações religiosas que os negros, particularmente lisonjeados com o aparecimento, de vez em quando, de um santo de cor ou de uma Nossa Senhora preta. “Lá vem o meu parente”, exclamou certa vez um negro velho que se achava perto de nós quando viu surgir em meio à procissão a imagem de um santo de cabelo encarapinhado e lábios grossos e, no seu transporte de alegria, o velho exprimiu exatamente os sentimentos visados com tais expedientes. (Kidder, 1972).

    Com esta citação, quase que profética e cheia de beleza cultural e religiosa, começo a resenha desta semana.  Muito poderia falar sobre este livro mas vou tentar ao máximo não ser prolixo, para que o intuito e o objetivo destas linhas não se me escapem. Afinal de contas, sobre irmandades religiosas católicas, em específico, e sobre as de negros, em particular, tenho lido muito no último ano e por isso a escrita flui com certa naturalidade.

    Conheci a professora Quintão no final de 2018 ao buscar conteúdos sobre as irmandades religiosas na cidade de São Paulo. Ela foi muito gentil comigo no início de minhas pesquisas bibliográficas, deu atenção para meus assuntos de “curioso em história”, me recebeu na Universidade Presbiteriana Mackenzie onde trabalha e de quebra me emprestou para leitura os livros que procurava de sua autoria. Aparecida Quintão tem duas obras, muito interessantes, sobre irmandades católicas de “homens pretos”, aquelas fundadas e administradas por homens e mulheres de cor, cativos ou não. Tive a honra de ler os dois e sobre os mesmos gostaria de falar um pouco. 

    O primeiro deles é sobre a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos da cidade de São Paulo, intitulado: “Irmandades negras: outro espaço de luta e resistência - São Paulo: 1870-1890 ”. Resultado de sua dissertação de mestrado, a obra nasceu das pesquisas sobre a dita irmandade, suas conquistas e dificuldades enfrentadas ao longo de seus mais de 300 anos de história. Engloba de um modo geral as irmandades negras no Brasil, mas discorre particularmente de duas décadas bem conturbadas da nossa história no contexto em que a dita irmandade estava inserida: os últimos anos da escravidão e os primeiros da República, na cidade da São Paulo. 

      Aparecem constantemente neste livro as tentativas de manutenção do espaço físico e religioso dos negros católicos de São Paulo, em um contexto que já contava com a presença crescente dos imigrantes e da elite cada vez mais urbana e europeizada, “branca” nos modos e nos costumes. Como sabemos, a Igreja do Rosário de São Paulo foi demolida, o cemitério da irmandade soterrado e depois de muita briga jurídica, uma nova igreja foi construída longe do triângulo histórico, no atual Largo do Paissandu. 

     O segundo livro, objeto desta resenha, é um pouco mais denso, enriquecido por rica pesquisa bibliográfica e fonte documental primária, tese de doutorado da professora Quintão. Publicado em 2002 pela FAPESP, foi apresentado originalmente em 1997 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, como requisito para o título de doutora em História. 

     Dividido em cinco capítulos, como o subtítulo mesmo sugere, o livro irá apresentar de forma bem detalhada algumas irmandades de pretos e pardos de cidades do estado do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Claro que de modo particular, serão contempladas algumas delas com mais atenção, como é o caso da Irmandade do Rosário e São Benedito do Rio de Janeiro, ou, aquela de Nossa Senhora do Rosário da vila de Santo Antônio do Recife, e ainda, a de Nossa Senhora do Rosário da cidade de Olinda. Sobre estas irmandades citadas acima, vasto material primário foi pesquisado nos arquivos das mesmas cidades, bem como em arquivos da Torre do Tombo em Portugal. Por isso mesmo, o livro apresenta muitas citações transcritas diretamente das fontes. O leitor faz, portanto, uma viagem aos documentos, ao modo de pensar e às conquistas daqueles negros católicos do século XVII.

        Tendo como base alguns autores clássicos, como João José Reis, Caio Boschi e Julita Scarano, a autora nos primeiros três capítulos irá apresentar a realidade vivida pelas irmandades do Rio de Janeiro e Pernambuco. Elas não divergiam muito daquelas existentes em outros estados, como nas estudadas pelos autores citados na Bahia ou em Minas. Pontos convergentes como a estrutura da Igreja Católica comum pra todas, as estratégias de sobrevivência, as formas de solidariedade, de ajuda mútua, os conflitos étnicos, a organização econômica, a presença de brancos e pardos no seio da Irmandade, bem como, os constantes conflitos com os párocos e capelães, são amplamente citados e exemplificados. 

        Interessante também ressaltar as partes em que a autora justifica a escolha da devoção de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito como as preferidas pelos negros no período colonial e imperial. Através de suas histórias, devoções e divulgação no seio católico, estes oragos negros para negros, foram pouco a pouco, sendo incorporados pela hierarquia e pela sociedade colonial. Neste interim, a autora faz uma crítica contumaz àqueles que atribuem às irmandades espaços de conformismo e alienação das comunidades negras. Alguns mesmo chegam a chamar as irmandades de antiquilombos, como que se, nas irmandades, os negros continuassem no seu lugar de submissão: à igreja, aos senhores e a sociedade escravagista. Quintão não comunga com este modo de pensar e justifica sua opinião crítica com citações. 

“Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santo Elesbão e Santa Efigênia eram invocações dos negros, não apenas pela afinidade epidérmica ou pela origem geográfica, mas também pela identidade com suas agruras. Os “santos” dos brancos, supunha-se, não saberiam compreender os dissabores e os sofrimentos dos negros” (BOSCHI in QUINTÃO, 2002, p.77). 

         Sobre este ponto, as transcrições de documentos são de uma riqueza sem par. Aliás, eles justificam e confirmam o não conformismo dos “irmãos negros” à estruturas de opressão e submissão. Cartas enviadas ao governo imperial, trocas de “farpas” de ambos os lados, bem como, negativas de posse de suas igrejas particulares, reafirmam estes grupos sociais consolidados e em briga constante por seus direitos. O caso mais emblemático citado é o da escolha da Igreja do Rosário do Rio de Janeiro, para servir de Sé Catedral. Os irmãos não aceitam a princípio, brigam por seu direito de posse por alguns anos, acabam tendo sua igreja invadida pela Cúria, mas não abrem mão de manter na mesma igreja suas festas e celebrações paralelas àquelas do bispo e seus padres. Com a construção da nova Catedral, a igreja do Rosário do Rio voltou ao poder da Irmandade. 

        Com outras irmandades do Rio de Janeiro, de pretos ou de pardos, bem como em algumas de Pernambuco, a sorte não foi a mesma. Ao longo do século XVIII e principalmente no século XIX, sob diversos pretextos, igrejas de Irmandades foram sendo retiradas da administração dos irmãos, cemitérios foram soterrados e outras tantas posses demolidas. O que salta aos olhos, contudo, no livro da professora Quintão, é a frequência com que termos depreciativos eram atribuídos a figura do homem e da mulher negra e como eles eram frequentemente usados para justificar as ações da classe dominante. 

      Adjetivos depreciativos como beberão, ladrão, ligado a superstições, assassinatos, intrigas são abertamente apresentados nos documentos, alijando sempre mais da figura do negro a possibilidade de ascensão, trabalho digno ou liberdade. Poderíamos citar vários exemplos, como os dos negros e negras de ganho das cidades coloniais, das negras regateiras e dos negros canoeiros de Olinda e Recife e mesmo dos escravos nas áreas rurais que com seu trabalho nos feriados e domingos conseguiam juntar algum pouco dinheiro para tentar comprar sua alforria. Todos estes se viam muitas vezes acusados injustamente dos delitos acima mencionados. 

        Enfim, como disse, o assunto é amplo, cheio de riqueza de detalhes e, confesso para vocês, vamos voltar neles novamente em outras resenhas aqui nestas páginas. Por isso, a título de conclusão, deixo que a própria autora nos fale e nos ajude a ampliar o olhar e tentar enxergar cada vez mais este universo, ao mesmo tempo tão longe e tão perto de nós: 

“Em cada momento histórico, o homem se manifesta e atua da forma que lhe é possível. As irmandades elaboraram estratégias no contexto da sociedade escravagista em que estavam inseridas, por isso, busquei ao longo desta pesquisa rastrear a autonomia que se forjava na burla do poder constituído... 

Inicialmente procurei demonstrar que as atividades desenvolvidas pelos negros e pardos nas suas irmandades tinham um caráter de protesto racial, uma vez que estavam inseridas numa sociedade marcadamente racista. As fontes consultadas nos permitem constatar que os negros eram vistos como criminosos, ladrões, feiticeiros, considerados incapazes, perigosos, suspeitos, e, a partir daí, passíveis de terem seus bens usurpados... 

O negro era uma presença que incomodava, causava temor e inquietava. Suas reivindicações significavam ameaças e eram vistas como tentativa de desestabilização social. 

É certamente difícil comprovar que a sociedade brasileira é historicamente racista, pois o Brasil gosta de se ver e de se mostrar como um país sem preconceitos, tendo elaborado e incorporado o mito da “democracia racial”, que permanece incontestável justamente por ser mito e apesar dos numerosos exemplos de discriminação praticados cotidianamente de uma maneira visível e indiscutível. 

Se as irmandades não chegaram a contestar a ordem estabelecida, certamente denunciaram as suas incoerências e reagiram às suas injustiças, o que pôde ser comprovado através da análise dos seus requerimentos e das suas petições, que em última análise tiveram sempre como motivação básica e fundamental o seu desejo de independência e autonomia”. (QUINTÃO, 2002, pp. 203-204) 

        Aos que ficaram interessados pela leitura, tenho uma notícia ruim: o livro está esgotado pela FAPESP e é um tanto difícil encontrá-lo pelos sebos físicos ou virtuais. A não ser que você consiga fazer amizade com a professora Quintão e pedir emprestado algum dos exemplares que ela guarda consigo com carinho filial.


Notas sobre a autora:

    Antônia Aparecida Quintão dos Santos Cezerilo é professora doutora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foi pesquisadora do núcleo de pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o negro Brasileiro (NEINB). Atua ativamente em várias organizações da comunidade negra. É historiadora graduada pela Universidade de São Paulo, onde fez mestrado e doutorado na área de História Social.


Imagens Ilustrativas

Escravos de ganho - Rio de Janeiro - 1865

 Escrava de ganho vendedora - Rio de Janeiro - 1865

Escrava Crioula - Rio de Janeiro - 1865



Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 10 de agosto de 2020


A cidade de São Paulo: geografia e história

Caio Prado Junior

Existe um ditado que diz: “nos pequenos frascos estão os melhores perfumes” e outro: “as aparências enganam”. Quem se depara pela primeira vez com o pequeno livro que vamos apresentar agora, pode, num juízo apressado, incorrer no preconceito tão usual em nossa sociedade moderna: “julgar um livro pela capa”. Para que a gente não corra este risco, vou fazer uma pequena introdução.

Estou falando da obra “A cidade de São Paulo: geografia e história” da coleção “tudo é história”, publicado pela primeira vez em 1983 pela editora Brasiliense, escrito nada mais nada menos do que pelo célebre Caio Prado Júnior. Vale aqui, antes de tudo, uma contextualização sobre o autor, haja vista a importância histórica e política deste paulistano, classificado ao lado de Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda como um dos intérpretes do Brasil, por suas contribuições e análises sobre a formação social do país.

Caio da Silva Prado Júnior, nasceu em São Paulo em 1907, dentro de uma tradicional família da elite paulistana: os Prado; uma linhagem de fazendeiros e políticos influentes na capital e no interior. Só para se ter uma ideia, seu avô paterno era Martinho da Silva Prado Júnior (Martinico Prado) e sua avó, dona Veridiana Valéria da Silva Prado, abastada aristocrata paulistana. Dois de seus tios avós foram políticos influentes na cidade: Antônio Prado e Eduardo Prado. Formado no colégio São Luís, com reforço particular de professores contratados, como era costume na elite, Caio Prado terminou os estudos iniciais e forma-se em Direito no Largo São Francisco, onde mais tarde seria livre docente de Economia Política.

Sua contribuição para a história do Brasil veio com dois clássicos, logo no início de sua saga de historiador. O primeiro foi escrito em 1933 com o título “Evolução política do Brasil”, uma tentativa de interpretar a história política e social do nosso país. A segunda, sua obra magna, foi o clássico “Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia”, publicado em 1942. Este último, ao lado de outros clássicos como “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre e Raízes do Brasil de Sergio Buarque de Holanda, formam uma tríade que nos ajuda a entender como se formaram as estruturas sociais deste país. Por isso mesmo, a obra de Caio Prado é uma espécie de divisor de águas na historiografia brasileira e uma das que mais solidamente caracteriza a formação da sociedade brasileira.

Não é nossa pretensão neste texto esgotar os estudos sobre Caio Prado Júnior, e muito menos, divagar sobre o autor. Existe um vasto material produzido sobre ele, que pode ser amplamente pesquisado e estudado. Meu objetivo aqui, como sempre reforço, é o de despertar o interesse de leitura, bem como, ampliar nossos conhecimentos sobre a História do Brasil e da cidade de São Paulo. Para este fim, o livro que sugiro agora, é de fácil e rápida leitura. Ou seja, mais um daqueles que colocamos em nossas estantes culturais e que lemos para ampliar nosso repertório de conhecimento histórico.

O livro em questão é pequeno, não chega a ter cem páginas, isso contando com ilustrações e uma grafia fora do padrão. O “A cidade de São Paulo: geografia e história” é dividido basicamente em duas grandes partes: “O fator geográfico na formação e no desenvolvimento da cidade de São Paulo” (1) e a “Contribuição para a geografia urbana da cidade de São Paulo” (2). Como o leitor atento irá perceber, o destaque da obra será justamente o plano geográfico sobre o qual a cidade foi construída e cuja contribuição foi essencial para a grandeza e desenvolvimento da metrópole. Uma verdadeira apologia a geografia confluente que gerou a grande cidade dos paulistanos.

 

“Quanto ao fato de ter cabido ao sítio de São Paulo a primazia sobre todos os demais, ele se deve, em grande parte, a fatores de ordem física". O deslocamento do núcleo jesuítico ao planalto paulista pode ser atribuído a fatores geográficos:

- A posição estratégica esplêndida do sítio de São Paulo, alto de uma colina, permitia defesa contra ataques do gentio, ao contrário de Santo André que se erguia na orla da mata, sem defesa natural alguma.

- A falta de proximidade de um rio pesou consideravelmente nos destinos de Santo André pois, impediam que os moradores se socorressem do peixe para sua alimentação e dificultava a criação do gado.

 Ao longo da primeira parte então, Caio Prado nos apresenta os fatores determinantes da formação da cidade e da escolha do lugar pelos jesuítas. A colina, os rios, os campos de Piratininga, a facilidade de espaço aberto (os campos), enfim, como já dito, a geografia confluente da capital. Aquela cidade que “nasceu para dar certo”, do século XVI ao XX, impulsionada neste último pela criação das indústrias e o “boom” do desenvolvimento através do café e da estrada de ferro. Enfim, para citar o autor: “As causas que determinaram a grandeza de São Paulo vem atuando desde o início da colonização".

“Um último fator, e este consequência dos já citados veio a completar esta obra de consolidação da hegemonia paulistana: é a localização das indústrias. Com o progresso do estado surgem as grandes indústrias, e é na capital que de preferência elas se localizam. Em 1933, a indústria da capital possuía 61% do capital total invertido na indústria do Estado e a mesma proporção do número de operários”.

A segunda parte, tão densa quanto a primeira, apresenta os novos bairros, os rios, os “elevados” da cidade, comparando os pequenos núcleos urbanos com a região desabitada que se estende ao redor da capital. O autor vai chamar o entorno de São Paulo de semideserto, justificando que ao sair da colina histórica muitos quilômetros são percorridos com locais quase desabitados, como que se aquele núcleo central prosperasse mesmo distante de outros maiores mais próximos, a saber: Sorocaba, Campinas, Itatiba e Mogi das Cruzes.

Naquela colina histórica se concentrou por anos o núcleo central de povoamento da capital, crescendo mais a partir de meados do século XIX com as ligações e os bairros além dos rios e com o povoamento das várzeas. O crescimento industrial, comercial e enriquecimento da elite vai dar as diretrizes para o crescimento da cidade.

“O centro comercial ficou na colina onde nasceu a cidade, mas espremido no espaço acanhado que lhe reservaram os barrancos que o cercam de três lados, vai-se se alargando pelas elevações fronteiras do outro lado daqueles barrancos, graças à facilidade de acesso que lhe proporcionaram os viadutos já referidos – o primeiro dos quais, o do Chá, foi inaugurado em 1892”.

“Em resumo, São Paulo compõe-se hoje de um núcleo central que ocupa o maciço cercado pelas várzeas do Tietê, do Tamanduateí e do Pinheiros e de uma auréola de bairros que se instalaram numa parte destas várzeas, e transpondo-as, vão alagar-se pelas elevações da outra margem. Bairros que nasceram, em sua grande maioria, ao acaso, sem plano de conjunto; frutos da especulação de terrenos em “lotes e a prestações”

A vocação de São Paulo para a grandeza de metrópole é amplamente explorada na obra de Caio Prado. Justificativas são dadas, dados são apresentados e o contexto econômico deve ser levado em consideração quando se lê um material como esse.

Enfim, aos estudiosos do tema e aos entusiastas da capital econômica, política e social deste país, recomendo a leitura deste autor, bem como, de suas outras obras muito mais densas e complexas do que a proposta aqui nesta resenha. Sugiro também conhecer um pouco mais do autor, para que a leitura apressada não nos gere preconceito em relação a sua obra.

           

Notas sobre o autor:

Caio da Silva Prado Júnior, nascido em São Paulo, aí fez seus estudos secundários no Colégio São Luís, bem como em Eastbourn, na Inglaterra.

Formado em 1928 pela Faculdade de Direito, obteve nela, em 1956 a Livre-Docência com a sua tese Diretrizes para uma política econômica brasileira.

Deputado estadual em 1947, teve seu mandato cassado em consequência do cancelamento do registro do Partido Comunista do Brasil pelo qual se elegera.

Recebeu o título de intelectual do ano de 1966 pela publicação do seu livro A revolução brasileira, sendo agraciado com o prêmio Juca Pato.

 

Você encontra diversas informações sobre Caio Prado, bem como, dissertações, teses e entrevistas sobre o autor na página:

http://www.interpretesdobrasil.org/sitePage/62.av

 

Artigo de Carlos Paiva (usado na elaboração deste artigo) baseado no livro “A cidade de São Paulo”, disponível para download em:

http://www.perkons.com.br/pt/estudos-e-pesquisas-detalhes/104/a-cidade-de-sao-paulo---geografia-e-historia


Imagens Ilustrativas

Correio Geral

Monumento do Ipiranga

Grande Hotel Paulista



Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz, em 03 de agosto de 2020


Leia também