O idioma da mestiçagem

Larissa Viana


         Você com certeza já ouviu alguma dessas frases: “não há racismo no Brasil pois somos um povo miscigenado”, “fulano só estava brincando quando chamou o outro de macaco” ou ainda, “como posso ser racista, se alguns de meus parentes são negros ou mulatos? ” Estas frases cunhadas ao longo de séculos de preconceitos e exclusão social fazem parte do universo do “mito da democracia racial” existente em nosso país, sobre o qual diversos autores, de ontem e de hoje, se debruçaram e se debruçam na busca de compreender a formação do povo brasileiro.

O assunto é delicado, mas creio que falar dele se faz necessário. Não sou especialista no tema racismo, mas comungo da ideia de que é tarefa de cada concidadão meu, compreender a realidade que nos cerca e entender o contexto onde nossos pré-conceitos foram moldados. O universo do racismo nestas terras é estrutural como salientam diversos autores, inclusive a historiadora que vamos apresentar hoje. É por isso, que obras como esta, abrem para nós mais um horizonte neste vasto mundo colonial sobre o qual nossas raízes estão fincadas.

Ressalto que o tema central do livro não é “racismo estrutural” nem o “mito da democracia racial”, aliás termos modernos e desconhecidos para o homem colonial e suas irmandades, objeto central dos estudos da autora para produção da obra. Contudo o assunto focal irá orbitar constantemente em torno destes temas, mesmo que de forma sutil, quando parte do pressuposto da ideia de formação de uma identidade “parda” nacional.

Não quero me estender no tema racismo aqui nestas linhas, mas só para pontuar que esta resenha está sendo escrita em 2020 e que episódios racistas são corriqueiros ainda hoje em nosso país, cito alguns bem recentes: o caso do jovem negro Mateus, abordado por seguranças a paisana em um shopping center do Rio de Janeiro, porque eles simplesmente “acharam que o boné que Mateus usava estava ligado a uma facção criminosa”; outro caso, de outro Mateus, pardo, desta vez em um condomínio de luxo no interior de São Paulo, insultado e agredido verbalmente com alegações visivelmente racistas. Enfim os tantos pretos e pardos, alvejados nas periferias e nos morros, porque a cor de sua pele antecipa uma suspeita. Os casos são muitos e os citados são bem recentes, infelizmente até você terminar de ler este texto, outros tantos acontecerão em alguma parte desse país.

Esse assunto merece ampla discussão e renderia muitas páginas desta resenha, achei por bem citá-lo ao menos nos primeiros parágrafos. Como já dito, não é este o tema central que aqui iremos tratar, mas esta é também uma das bandeiras defendida pela autora. Estou falando de Larissa Viana, professora adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e a resenha de hoje trata de seu livro: “O idioma da mestiçagem”. A obra é fruto do trabalho de pesquisa para elaboração de sua tese de doutorado na dita instituição de ensino e trata das irmandades de pardos no período colonial, mais especificamente as irmandades do Rio de Janeiro nos séculos XVII e XVIII.

Muito mais do que um estudo sobre as irmandades religiosas católicas, voltadas primordialmente para os homens e mulheres “pardos”, o livro é um passeio no universo cultural sobre o qual se formou a identidade nacional dos “mestiços”. Quem eram estas pessoas? Como eram vistas pela sociedade? Como eram integradas na mesma? Quais os desafios enfrentados pelos ditos pardos no processo de integração social? Estas e outras perguntas a obra se propõe responder e ajuda o leitor a compreender de forma mais clara, a origem e a identificação do mestiço brasileiro.

A começar pelo termo “pardo”, preferido pelos homens e mulheres coloniais em contrapartida ao termo “mulato”, que era geralmente relacionado aos negros escravizados e por isso repleto de preconceitos. Ao utilizar-se de um termo para se caracterizarem, os pardos se aproveitam do mesmo para criar uma identidade própria. Larissa reforça que a palavra pardo era carregada de múltiplos usos e de muitos significados no contexto colonial:

No século XVII, por exemplo, era usado em São Paulo para designar indígenas escravizados ilegalmente. No Nordeste açucareiro, de mais acentuada presença africana, tendia a ser sinônimo de mulato, mas deve-se ter em conta, como adverte uma vez mais L. Schwartz, que a emergência dos pardos no século XVII estava ligada também as uniões entre europeus e africanos, e destes com os indígenas. No sudeste colonial, de acordo com a pesquisa de Sheila Faria, o termo pardo aparecia por vezes referenciado a mestiçagem, mas também era usado como sinônimo de liberto ou homem livre de cor nascido na colônia, independentemente de ser ou não mestiço. A categoria pardo, nesse caso, reveste-se de um conteúdo social especialmente interessante, na medida em que era usada para qualificar homens e mulheres livres de ascendência africana que já não eram necessariamente mestiços. Russell-Wood, em análise recente, propôs que a palavra pardo pudesse ser pensada como indicação de uma condição social mais elevada do que aquela habitualmente atribuída aos mulatos naquele contexto. Desse modo, mais do que uma identificação de uma matriz de cor, o termo pardo podia indicar origem, condição social e status das pessoas de cor no universo colonial.

Dentro deste universo ambíguo e fluído, os pardos no sentido mais amplo do termo (crioulos, pardos, mulatos) irão preferir categorizar-se como tal, na busca constante de reconhecimento e ascensão social. Ser pardo não é ser branco, mas também não é ser negro. No Vocabulário Portuguez e Latino, de Raphael Bluteau, composto entre 1712 e 1727, a palavra pardo designava a “cor entre branco e preto, própria do pardal” (Viana, 2007, p. 19). Ser pardo portanto é estar no meio termo dessas duas cores, dessas duas “condições sociais”, e por isso mesmo, poder almejar algum tipo de crescimento. Há um debate, portanto, de identidade criado nestes homens e mulheres a partir da mestiçagem, o que é amplamente apresentado no livro.

Na esteira do lugar de identificação social, irão surgir ao longo do século XVII e XVIII, diversas irmandades católicas associadas a homens e mulheres pardos nas cidades coloniais brasileiras. Note que o termo pardo, será preferencialmente usado pelos irmãos destas confrarias, em detrimento ao termo mulato. Os oragos ou santos de devoção, serão variados mas tendem a seguir estas invocações: Nossa Senhora de Guadalupe, Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Amparo e da Conceição, entre outros.

A novidade está na entronização de uma nova devoção: a de São Gonçalo Garcia em 1745 no Recife em Pernambuco. De origem indiana, fruto da “miscigenação” de pai português e mãe escrava, Gonçalo será sinônimo de pardo no período colonial brasileiro. O que é curioso neste santo, é que sua tez “parda” é usada por Frei Jaboatão (historiador e religioso franciscano do século XVIII) como qualificativo e não como degeneração, como era comumente usado pelas autoridades. Uma tentativa portando de positivação dos pardos perante a sociedade.

Em discurso proferido no momento da entrada do santo em Pernambuco, que os estudiosos Raquel Lins e Gilberto Andrade chamaram de “elogio do homem pardo”, Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, defensor ardoroso da causa, elenca inúmeras qualidades e virtudes dos homens pardos. Apoiado em estudos filosóficos e bíblicos, ele chega à conclusão que “[...] os mistos como sabem os filósofos, são mais perfeitos de que as partes de que resultam, porque participam das perfeições dessas partes. E aqui temos já por princípio natural, a cor parda mais perfeita que a cor preta e branca [...]”. (VIANA, 2007. p. 127).

            Chegar a este tipo de oficialização e legitimação não foi fácil, nem mesmo para o franciscano entusiasta da causa do santo pardo. Termos como “pureza de sangue” e “sangue mulato” eram amplamente usados em termos oficiais para excluir negros, pardos e mestiços de irmandades, funções públicas ou mesmo cargos eclesiásticos. Em uma população que crescia cada vez mais a partir do tráfico e da “mistura de raças”, os mestiços geralmente eram vistos como altamente perigosos e perturbadores para a ordem pública. Aliás, critérios de pureza de sangue foram usados até meados do século XIX em irmandades de brancos e órgãos oficiais, mesmo que desde as modernizações implantadas pelo Marquês de Pombal, houvessem recomendações de extinção deste tipo de critério discriminatório.

            Neste contexto de hibridismo e mistura, as irmandades de pardos ganham um lugar de destaque porque se tornam espaço de sociabilidade, lugar onde o estigma do sangue mulato poderia ser vencido, num processo de valorização da mestiçagem. E isto tudo, na diretriz que perpassa o lugar das identidades sociorreligiosas. Enfim, como afirma a autora, essas irmandades foram utilizadas como forma de apropriação e legitimação de um espaço diferenciado na hierarquia social dos pardos.

            Larissa Viana nos abre um leque novo de possibilidades para compreensão do universo sociorreligioso colonial e pós-colonial. Nos ajuda a enxergar o quanto conceitos criados e amplamente usados no ontem, são frequentemente empregados para legitimar ações do hoje. A autora tem vários textos sobre racismo e suas origens que valeriam a leitura, claro, depois que você terminar de ler “O idioma da mestiçagem”.

 

            Notas sobre a autora:

Professora adjunta do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do NUPEHC (Núcleo de Pesquisa e Estudos em História Cultural). Possui mestrado em História pela UFF (1998) e doutorado em História obtido na mesma instituição (2004). Tem experiência na área, com ênfase em História do Brasil e das Américas, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão e liberdade nas Américas, mestiçagem, relações raciais e história social da cultura.

Coordenou entre 2014 - 2019 o Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da UFF, vinculado à Rede Nacional Pró-História. Integra a Comissão de Biblioteca do PPGH-UFF desde 2009, atuando na Rede Livros e Leituras no século XXI.

 

Artigo sobre São Gonçalo Garcia – o primeiro santo pardo a ter sua devoção amplamente incentivada na América portuguesa.

https://books.openedition.org/oep/786

 

Artigo de Ana Paula Cabral Tostes sobre “Raça” e “cor” no debate sobre escravidão na América portuguesa.

https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548945029_5cea56cf5fd1f35c825c988064dc4f2f.pdf

 

Resenha do livro feita pela professora Fábia Barbosa Ribeiro:

https://www.redalyc.org/pdf/2850/285022053012.pdf

 




Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 17 de agosto de 2020.

2 comentários:

  1. Parabéns Frei Alvaci. Como sempre o senhor foi brilhante!

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  2. Perfeito Frei Alvaci. As suas matérias são muito interessantes. Obrigada !

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