A cidade de São Paulo: geografia e história
Caio Prado Junior
Existe um ditado que diz: “nos pequenos frascos estão os melhores perfumes” e outro: “as aparências enganam”. Quem se depara pela primeira vez com o pequeno livro que vamos apresentar agora, pode, num juízo apressado, incorrer no preconceito tão usual em nossa sociedade moderna: “julgar um livro pela capa”. Para que a gente não corra este risco, vou fazer uma pequena introdução.
Estou falando da obra “A cidade de São Paulo: geografia e história” da coleção “tudo é história”, publicado pela primeira vez em 1983 pela editora Brasiliense, escrito nada mais nada menos do que pelo célebre Caio Prado Júnior. Vale aqui, antes de tudo, uma contextualização sobre o autor, haja vista a importância histórica e política deste paulistano, classificado ao lado de Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda como um dos intérpretes do Brasil, por suas contribuições e análises sobre a formação social do país.
Caio
da Silva Prado Júnior, nasceu em São Paulo em 1907, dentro de uma tradicional
família da elite paulistana: os Prado; uma linhagem de fazendeiros e políticos
influentes na capital e no interior. Só para se ter uma ideia, seu avô paterno
era Martinho da Silva Prado Júnior (Martinico Prado) e sua avó, dona Veridiana
Valéria da Silva Prado, abastada aristocrata paulistana. Dois de seus tios avós
foram políticos influentes na cidade: Antônio Prado e Eduardo Prado. Formado no
colégio São Luís, com reforço particular de professores contratados, como era
costume na elite, Caio Prado terminou os estudos iniciais e forma-se em Direito
no Largo São Francisco, onde mais tarde seria livre docente de Economia
Política.
Sua
contribuição para a história do Brasil veio com dois clássicos, logo no início
de sua saga de historiador. O primeiro foi escrito em 1933 com o título
“Evolução política do Brasil”, uma tentativa de interpretar a história política
e social do nosso país. A segunda, sua obra magna, foi o clássico “Formação do
Brasil Contemporâneo – Colônia”, publicado em 1942. Este último, ao lado de
outros clássicos como “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre e Raízes do
Brasil de Sergio Buarque de Holanda, formam uma tríade que nos ajuda a entender
como se formaram as estruturas sociais deste país. Por isso mesmo, a obra de
Caio Prado é uma espécie de divisor de águas na historiografia brasileira e uma
das que mais solidamente
caracteriza a formação da sociedade brasileira.
Não é
nossa pretensão neste texto esgotar os estudos sobre Caio Prado Júnior, e muito
menos, divagar sobre o autor. Existe um vasto material produzido sobre ele, que
pode ser amplamente pesquisado e estudado. Meu objetivo aqui, como sempre
reforço, é o de despertar o interesse de leitura, bem como, ampliar nossos
conhecimentos sobre a História do Brasil e da cidade de São Paulo. Para este
fim, o livro que sugiro agora, é de fácil e rápida leitura. Ou seja, mais um
daqueles que colocamos em nossas estantes culturais e que lemos para ampliar
nosso repertório de conhecimento histórico.
O livro em questão é pequeno, não chega a ter cem páginas, isso contando com ilustrações e uma grafia fora do padrão. O “A cidade de São Paulo: geografia e história” é dividido basicamente em duas grandes partes: “O fator geográfico na formação e no desenvolvimento da cidade de São Paulo” (1) e a “Contribuição para a geografia urbana da cidade de São Paulo” (2). Como o leitor atento irá perceber, o destaque da obra será justamente o plano geográfico sobre o qual a cidade foi construída e cuja contribuição foi essencial para a grandeza e desenvolvimento da metrópole. Uma verdadeira apologia a geografia confluente que gerou a grande cidade dos paulistanos.
“Quanto ao fato de ter cabido ao sítio de São
Paulo a primazia sobre todos os demais, ele se deve, em grande parte, a fatores
de ordem física". O deslocamento do núcleo jesuítico ao planalto paulista
pode ser atribuído a fatores geográficos:
- A posição estratégica esplêndida do sítio de
São Paulo, alto de uma colina, permitia defesa contra ataques do gentio, ao
contrário de Santo André que se erguia na orla da mata, sem defesa natural
alguma.
- A falta de proximidade de um rio pesou
consideravelmente nos destinos de Santo André pois, impediam que os moradores
se socorressem do peixe para sua alimentação e dificultava a criação do gado.
“Um
último fator, e este consequência dos já citados veio a completar esta obra de
consolidação da hegemonia paulistana: é a localização das indústrias. Com o
progresso do estado surgem as grandes indústrias, e é na capital que de
preferência elas se localizam. Em 1933,
a indústria da capital possuía 61% do capital total invertido na indústria do
Estado e a mesma proporção do número de operários”.
A segunda
parte, tão densa quanto a primeira, apresenta os novos bairros, os rios, os
“elevados” da cidade, comparando os pequenos núcleos urbanos com a região
desabitada que se estende ao redor da capital. O autor vai chamar o entorno de
São Paulo de semideserto, justificando que ao sair da colina histórica muitos
quilômetros são percorridos com locais quase desabitados, como que se aquele núcleo
central prosperasse mesmo distante de outros maiores mais próximos, a saber: Sorocaba,
Campinas, Itatiba e Mogi das Cruzes.
Naquela
colina histórica se concentrou por anos o núcleo central de povoamento da
capital, crescendo mais a partir de meados do século XIX com as ligações e os
bairros além dos rios e com o povoamento das várzeas. O crescimento industrial,
comercial e enriquecimento da elite vai dar as diretrizes para o crescimento da
cidade.
“O
centro comercial ficou na colina onde nasceu a cidade, mas espremido no espaço
acanhado que lhe reservaram os barrancos que o cercam de três lados, vai-se se
alargando pelas elevações fronteiras do outro lado daqueles barrancos, graças à
facilidade de acesso que lhe proporcionaram os viadutos já referidos – o primeiro
dos quais, o do Chá, foi inaugurado em 1892”.
“Em resumo, São Paulo compõe-se hoje de um núcleo
central que ocupa o maciço cercado pelas várzeas do Tietê, do Tamanduateí e do
Pinheiros e de uma auréola de bairros que se instalaram numa parte destas várzeas,
e transpondo-as, vão alagar-se pelas elevações da outra margem. Bairros que
nasceram, em sua grande maioria, ao acaso, sem plano de conjunto; frutos da
especulação de terrenos em “lotes e a prestações”
A vocação de São Paulo para a grandeza de metrópole
é amplamente explorada na obra de Caio Prado. Justificativas são dadas, dados
são apresentados e o contexto econômico deve ser levado em consideração quando
se lê um material como esse.
Enfim, aos estudiosos do tema e aos entusiastas da
capital econômica, política e social deste país, recomendo a leitura deste
autor, bem como, de suas outras obras muito mais densas e complexas do que a
proposta aqui nesta resenha. Sugiro também conhecer um pouco mais do autor,
para que a leitura apressada não nos gere preconceito em relação a sua obra.
Notas
sobre o autor:
Caio da Silva Prado Júnior,
nascido em São Paulo, aí fez seus estudos secundários no Colégio São Luís, bem
como em Eastbourn, na Inglaterra.
Formado em 1928 pela Faculdade
de Direito, obteve nela, em 1956 a Livre-Docência com a sua tese Diretrizes para uma política econômica
brasileira.
Deputado estadual em 1947,
teve seu mandato cassado em consequência do cancelamento do registro do Partido
Comunista do Brasil pelo qual se elegera.
Recebeu o título de
intelectual do ano de 1966 pela publicação do seu livro A revolução brasileira, sendo agraciado com o prêmio Juca Pato.
Você
encontra diversas informações sobre Caio Prado, bem como, dissertações, teses e
entrevistas sobre o autor na página:
http://www.interpretesdobrasil.org/sitePage/62.av
Artigo de Carlos Paiva (usado na elaboração deste artigo) baseado no livro “A cidade de São
Paulo”, disponível para download em:
Imagens Ilustrativas
Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz, em 03 de agosto de 2020




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