Os Rosários dos Angolas:

 Irmandades de Africanos e crioulos 

na Bahia setecentista

Lucilene Reginaldo

A história colonial deste país continental chamado Brasil, tem ainda muitas páginas desconhecidas a serem descobertas e desvendadas neste século e nos séculos seguintes. Para os curiosos, estudiosos e pesquisadores, sempre há algo novo a descobrir, a conhecer e a revelar para os brasileiros e para o mundo.

Aos interessados em história sobre irmandades leigas do período colonial, a resenha de hoje é sobre a obra “Os Rosários dos Angolas” da historiadora Lucilene Reginaldo, fruto de sua tese de doutorado. O livro tem como fundamento as pesquisas sobre uma irmandade em específico (Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos das Portas do Carmo – hoje, Irmandade do Rosário dos Pretos do Pelourinho em Salvador), mas, faz uma viagem ao final do século XV e início do XVI, as navegações empreendidas pela Península Ibérica e as conquistas atlânticas, para contextualizar o nascimento daquela irmandade baiana.  Para um leigo que se aventura em conhecer as confrarias católicas coloniais, trata-se de um passo inicial acertado nesta seara da nossa história.

Em primeiro lugar, vale ressaltar, como dito acima, que a autora faz um importante trabalho de pesquisa sobre o contexto atlântico do surgimento das irmandades católicas. Desde as costas do continente africano, a começar pelo Reino do Congo e Angola, passando por Portugal e chegando ao Brasil, estes grupos organizados de homens e mulheres foram os responsáveis por estruturas de subsistência, apoio, crenças, enfim, se tornaram desde o início lugares de identidade. Conhecer as origens destes grupos em África e em Portugal, ajuda a entender o “sucesso” e a expansão que tiveram em território nacional. Começando por aquelas do Rosário, o leque se amplia e a viagem do leitor pelo conhecimento das irmandades pode ganhar outros rumos, podendo-se passar para outras muito conhecidas e difundidas no período colonial: São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia, São Balthazar, só para citar algumas, dos ditos “homens pretos”.

A expansão do catolicismo na África Central é fator preponderante para a expansão posterior do regime escravista, visto que as conquistas territoriais estavam intimamente ligadas as conquistas “de almas”. Com a conversão da corte do Reino do Congo e posteriormente de todos os seus súditos, o catolicismo ganha espaço em território africano recém conquistado pela coroa portuguesa.

Uma devoção, em particular, abraçada pelos pretos, a de Nossa Senhora do Rosário, é anterior a este processo de intercâmbio Europa-África, mas vai se fortalecer após a batalha de Lepanto em 1571, quando vitória na guerra é atribuída a Virgem sob esta invocação. Logo após este episódio, a invocação a esta Senhora passa a ser amplamente divulgada e é abraçada por devotos brancos e pretos, mas com o passar de pouco tempo, se torna orago protetora preferida pelos negros em África, em Portugal e posteriormente no Brasil. Vale saber que em terras lusitanas a devoção do Rosário como orago de irmandade é já do final do século XVI, em África se intensifica nos séculos XVI e XVII e no Brasil nos finais do século XVII e durante todo o século XVIII e XIX.

Em sociedades altamente estratificadas, como o eram as escravistas, rapidamente os “critérios de cor” foram preponderantes para o surgimento de inúmeras irmandades católicas segmentadas, cada vez mais, não por profissões, status social, hierarquias, mas também pela “tonalidade” da cor da pele do indivíduo. Deste modo, na Bahia do setecentos - capital da colônia e sede do primeiro bispado do Brasil - irão surgir as primeiras irmandades dos “homens pretos” em terras coloniais. Concentradas em Salvador e nas cidades do Recôncavo Baiano elas congregavam todo tipo de homens e mulheres das classes menos privilegiadas: negros escravizados, libertos, forros, crioulos, pardos, mestiços. Salvaguardavam inclusive, critérios de aceitação para seus membros a partir da nação de origem, as ditas “irmandades de nação”.

A tese da professora Lucilene nos leva então a entender o que aconteceu com a Irmandade do Rosário de Salvador. Baseada em estudos de fontes primárias, a autora descobre a preponderância dos negros Angola naquela irmandade, o que inclui também a maioria das irmandades do Rosário baianas do século XVIII. Os estudos vão provar, por exemplo, que as eleições do rei do Congo, os reisados e as congadas, estavam intimamente ligadas a estas confrarias em específico e eram raros os casos de coroação e eleições de reis em outras irmandades negras.

Nesta altura da obra, a autora irá contestar os estudos do médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues, feito com base em pesquisas empíricas e estudos clínicos em negros recém libertos no final do século XIX e início do XX na cidade de Salvador. Para ela, os estudos de Nina sobre a supremacia de negros Nagôs sobre os Bantos, teria suas falhas por ter se baseado apenas naqueles africanos chegados no Brasil nos últimos navios negreiros, portanto vindos na última leva da Costa da Mina.

Interessante também observar, que as contestações da autora sobre a primazia dos negros Iorubas na Bahia se dá sobre um estudo feito no final do século XIX, justamente o período em que houveram muitas revoltas naquela região, encabeçadas pelos negros daquelas nações. Os nagôs seriam “pintados” então como revoltosos, enquanto, os Angolas seriam apresentados como mais dóceis e amáveis, o que diga-se de passagem não é era de todo verdade.

Enfim, ao final da obra, a autora irá apresentar a Irmandade do Rosário das Portas do Carmo. Quem eram seus membros, quem eram os líderes, quais suas prioridades, entre outros, destacando sempre a figura e força destes homens e mulheres. A irmandade do Rosário baiana não se diferia muito das outras existentes no Brasil colônia: dividia-se entre “negros de nação”, tinha por objetivo proteger seus membros, celebrar seu orago, preparar as festas e dar enfim, aos irmãos, um enterro digno. Era lugar de autoproteção e onde se conservavam as raízes culturais africanas. Para Lucilene, as irmandades baianas conseguiram, mais do que a maioria das outras no Brasil, preservar suas raízes africanas com um sincretismo religioso que não é visto em nenhuma outra parte do país.


Observações sobre a obra:

Questionamentos sobre as teorias de superioridade Iorubá na Bahia, usando como base os estudos que hierarquizavam as raças humanas, sendo os negros falantes desta língua (Costa da Mina/Golfo do Benin) superiores aos de língua Banto (Angola/Congo).

 A formação do catolicismo baiano é fortemente influenciada pela cultura banto (centro africanos).

Fundamenta o pressuposto de um catolicismo preexistente na África central.

As irmandades tornaram-se na diáspora africana, lugar de formação de criação de identidades centro africanas nas Américas.

A interligação Atlântica, Europa-África-Brasil, é um dos maiores diferenciais deste estudo sobre as irmandades negras.

 

        Autores clássicos sobre as irmandades leigas na história do Brasil:

Caio Boschi – “Os leigos e o poder”;

Julita Scarano – “Devoção e escravidão”;

João José Reis – “A morte é uma festa”;

Antônia Aparecida Quintão – “Irmandades negras: outro espaço de luta e resistência”

 

        Notas sobre a autora:

Graduou-se em História pela PUC/SP em 1991, mesma universidade onde defendeu seu mestrado em 1995. Doutorou-se em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) em 2005. Foi professora de História na Universidade Estadual de Feira de Santana de 1997 a 2012 e diretora associada do Arquivo Edgard Leuenroth da UNICAMP de 2013 a 2014. Publicou livros e artigos sobre a história das irmandades negras no Império português. 

Tem diversas pesquisas sobre as missões católicas nos reinos do Congo e Angola.  Atualmente é professora de História da África no Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas.


Fotografias do Instituto Moreira Salles, utilizadas aqui para ilustrar o tema abordado no texto  

Escrava doméstica. Salvador. 1870

Escravos transportando homem na liteira. Salvador. 1869

Negra da Bahia. Salvador. 1885

Praça Castro Alves. Salvador. 1875.


Resenha feita por Alvaci Mendes da Luz em 27 de julho de 2020.

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