Nem tudo era italiano:

São Paulo e pobreza (1890-1915)

Carlos José Ferreira dos Santos


        Quando falamos em São Paulo hoje, em pleno século XXI, geralmente noções básicas e adjetivos clássicos sobre a metrópole afloram a mente: progresso, riqueza, desenvolvimento, negócios. Alguns mais afoitos podem até citar os imigrantes e o senso comum, que frisa o desenvolvimento que eles trouxeram para a cidade, que crescia vertiginosamente nos inícios do século passado, impulsionada pelo café e pelas indústrias que se instalavam nos seus arredores.

A obra de Carlos José não é um dos livros mais vendidos nas livrarias populares, bem como o formato de sua edição não é tão simpático aos olhos do mercado dos best-sellers. Contudo, é sem sombra de dúvidas, um clássico para aqueles que, assim como eu, questionam a propaganda maciça do novecentos sobre a força e influência dos imigrantes no progresso e desenvolvimento de São Paulo. A imagem “vendida” insistentemente pela elite paulistana, de uma Belle Époque construída com o suor e trabalho dos imigrantes, sobretudo italianos, incomoda aqueles que sabem que “nem tudo era italiano” numa sociedade mestiça como a nossa.

Intrigado com a ausência dos “nacionais pobres” na imprensa, na política e nos “órgãos oficiais” da metrópole que se industrializava, em contrapartida com a frequente apresentação dos estrangeiros superestimados, a obra de Carlos José irá aos poucos desenvolvendo e redescobrindo o lugar de cada cidadão dentro da cidade. As perguntas que surgem são: onde estavam os nacionais pobres? Em que lugares moravam? Que cor tinham? Quem eram?

O trabalho foi apresentado originalmente em 1995 como dissertação de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em História da PUC-SP com o título: “A população pobre nacional na cidade de São Paulo – virada do século (1890-1915). Foi publicado pela Annablume/FAPESP três anos depois da defesa, em 1998. Atualmente está na sua terceira edição. Como disse, não é um livro fácil de encontrar e há poucos exemplares à venda.

A professora Heloísa de Faria Cruz, responsável pela apresentação do livro, a época professora do Programa de pós-graduação da PUC/SP, assim se posiciona: “Questionando à contrapelo à Belle Époche paulistana, desvela a construção ‘em negativo’ de outros sujeitos, os pobres, ‘todos pretos ou quase pretos de tão pobres’, os trabalhadores pobres nacionais”.

As primeiras páginas serão então, uma apresentação dos habitantes da cidade de São Paulo no final do século XIX e início do XX. Baseado em sensos, e estudando os anos pré e pós abolição, bem como as primeiras décadas do novecentos, o autor irá nos apresentar os habitantes de uma cidade que se desvela altamente mestiça. Os dados irão revelar um número grande de negros, pardos, caipiras e caboclos, convivendo com levas crescentes de brancos europeus que chegavam incentivados e apoiados pelo Governo.

Os números demonstram também que os trabalhadores contratados pelas fábricas eram geralmente estes imigrantes brancos europeus (italianos, portugueses, espanhóis, etc.) e que os empregos eram priorizados para estas pessoas, em detrimento aos nacionais pobres, subjugados como “incapazes” e inferiores para aquele tipo de trabalho. Os anuários justificavam a qualificação profissional dos estrangeiros, o que é facilmente questionado, haja vista que, muitos dos que vinham como imigrantes para o Brasil eram de origem humilde e em grande maioria trabalhadores do campo, cultivadores de lavouras.

A leitura continua e os nacionais pobres começam a serem apresentados em números cada vez mais crescentes. O segundo capítulo é, portanto, o mais denso e um mergulho na cidade daquela virada de século, repleta de homens e mulheres pobres, em sua maioria negros e pardos, trabalhadores braçais que movimentavam a sempre crescente cidade do progresso.

A grande sacada do historiador, será justamente a de analisar a própria imprensa propagandista de uma cidade branca e europeia, e descobrir dentro das imagens veiculadas em periódicos ou órgãos oficiais, os homens e mulheres pobres, que não eram, é claro, o foco principal das imagens em questão. Ao tentar mostrar uma cidade pulsante, com seus carros, avenidas, bondes, chapéus, vestidos e cartolas, aquelas fotografias, ao congelarem o momento, não eram capazes de esconder os pretos e pardos, caboclos e caipiras, lavadeiras e carroceiros. Figuras quase que onipresentes, discretas, mas constantes, relegadas a um segundo plano, a quase invisibilidade.

Um infinito número de homens e mulheres, ganharão nesta pesquisa, seu devido lugar. Lugares fora do Triângulo Histórico, como a Várzea do Carmo, o sul da Sé e o Anhangabaú com seus moradores, não tão ilustres assim, também serão apresentados de outra forma. Enfim, aqueles homens e mulheres que moviam com seus braços a cidade, ganharão destaque: lavadeiras da Várzea, Quituteiras da rua das Casinhas, limpadores de trilho da avenida São João, carroceiros da rua XV de novembro, lavadores de casas, catadores de lixo, enfim, tantos e tantas não apresentados oficialmente, mas que estavam ali, nas fotos, como que para contar sua história. Afirma Heloisa de Faria:

“Através da leitura detalhada de fotos que, em geral, destacavam o progresso e a modernidade da vida urbana, em segundo plano, nos cantos, fora do foco central, o autor identifica os homens negros descalços transportando sacos, conduzindo carroças, mulheres com tabuleiros, trouxas ou embrulhos, crianças descalças em trajes caseiros. Busca remapear socialmente o centro e outros espaços da cidade, indo além da representação elegante e europeia do Triângulo e encontra becos, ruas alagadas, quiosques, mercados, igrejas, terreiros, batuques, congadas, caipós, na Várzea do Carmo, no Largo das Casinhas, no Largo do Rosário, no sul da Sé.”

       Muito interessante é poder olhar para São Paulo com estes novos “óculos” apresentados pelo autor. Poder enxergar uma parcela significativa da população que foi, logo nos anos pós abolição, sendo colocada pouco a pouco no escanteio do progresso e que segundo a elite da época, só serviam para realizar “serviços de preto”. A busca desenfreada da elite paulistana, mestiça em sua maioria, mas preocupada em branquear e europeizar a cidade, irá afastar sempre mais para as periferias a população preta, parda e pobre.

Este processo de alijamento destas populações já é bem conhecido, mas a pesquisa nos ajuda a enxergar como ele foi feito. Desde os pretos velhos, com sua sabedoria vendendo ervas no mercado caipira das beiras do Tamanduateí, até a lavadeiras do mesmo rio, os batuqueiros do Largo do Rosário e da Igreja de São Benedito, todos irão aos poucos fazendo parte de um mecanismo bem articulado que tentava os apagar, criminalizar, distanciar, serem enfim esquecidos na história.

O historiador nos dá de presente estas linhas sobre o que foi e o que é a São Paulo de ontem e de hoje. Uma mescla de tudo e de todos, construída a muitas mãos e regada com o suor de muita gente. Colocar cada personagem no seu devido lugar histórico é papel daqueles que se pretendem ler o “oficialmente” escrito. Termino com as palavras da já citada Heloísa de Faria Cruz, que diz: “Com seu trabalho, Carlos José nos propõe uma São Paulo onde nem tudo era italiano e contribui para uma compreensão dos processos de exclusão, ontem e hoje, pois joga luz nos silêncios da historiografia que tratou sobre o tema das cidades e do trabalho no período”.

        

           Notas sobre o autor:

Indígena com o nome de Casé Angatu Xukuru Tupinambá e morador no Território Indígena Tupinambá de Olivença - Aldeia Gwarïnï Taba Atã (Ilhéus/Bahia). Carlos José Ferreira dos Santos é historiador e professor universitário da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) em Ilhéus-BA.  Graduou-se em história pela Unesp-Franca, mestre pelo Programa em Estudos Pós-Graduados em História pela PUC-SP e doutor pela FAU-USP.


           Imagens de São Paulo – Gaensly – No acervo da Light – 1899-1925

Vista parcial do Largo do Palácio - atual Páteo do Colégio - 
Secretarias da Agricultura e do Tesouro - 1896 -1900. São Paulo/SP

Vista parcial do Largo São Francisco - Academia de Direito 
e Igreja de São Francisco, 1896 -1900. São Paulo/SP

Obras na Rua 25 de Março, em 5 de julho de 1899. São Paulo/SP.

Rua XV de novembro, imagem inclusa no Annual Report 1901. São Paulo/SP.

Câmara Municipal na Rua do Tesouro, imagem do álbum 
"Lembrança de São Paulo", inclusa em Annual Report 1901. São Paulo/SP.

Avenida São João a partir da esquina da Rua Libero Badaró, 
dezembro de 1921. São Paulo/SP.

 

              Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 07 de julho de 2020.



Um comentário:

  1. Que beleza de espaço! Um alento para a alma nesse momento tão conturbado! Parabéns aos envolvidos, parabéns ao Frei Alvaci! Que tudo isso passe logo para voltarmos a nos encontrar com a alegria costumeira! Paz e bem

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