A morte é uma festa:
ritos fúnebres e revolta popular
no Brasil do século XIX
João
José Reis
Poderíamos começar nossa resenha de leitura desta semana, sugerindo que você imagine uma “nuvem de palavras” que resumisse o século XIX. Pare um instante esta leitura e pense. Pensou? Que palavras lhe vieram à mente? Se você é um leitor assíduo da história do Brasil, com certeza surgiram estas: independência, abolição, escravidão, revoltas, revoluções, levantes populares, república, império, guerras, café. Estas são algumas, teríamos muitas outras para citar, mas a ideia é já começar lembrando que estaremos falando aqui de um século bastante “movimentado” no cenário nacional.
O
clássico escolhido é o livro “A morte é uma festa” do historiador baiano João
José Reis. A riqueza de documentação e pesquisa consagraram o autor como um dos
maiores da sua geração. Não a toa, a obra ganhou o prêmio Jabuti de 1992, o
prêmio Clarence Haring da American Historical Association, em 1997 e foi
publicado em inglês pela Universidade da Carolina do Norte.
Uma
resenha de leitura pode falhar em alguns pormenores, portanto, de antemão, peço
desculpas aos leitores caso deixe a desejar. Afinal de contas tentaremos
sintetizar mais de quatrocentas páginas em algumas linhas. Sublinho que a ideia
aqui é motivá-lo a posterior leitura da obra.
Estamos
na cidade de Salvador, no mês de outubro do ano de 1836. Passaram-se pouco mais
de um ano desde que os Malês (africanos de religião muçulmana) se rebelaram e
conduziram um levante popular brutalmente reprimido pelas forças imperiais. E
passarão mais alguns meses para que o médico e líder político baiano Francisco
Sabino lidere aquela que ficou conhecida como “Sabinada”, uma revolta
autonomista de caráter separatista.
Entre
estas duas grandes revoltas, e não menos historicamente importante do que elas,
se encontra o levante que ficou conhecido como Cemiterada. A obra em questão
vai se debruçar sobre os motivos centrais que originaram uma revolta
majoritariamente católica, liderada pelas irmandades baianas do início do
século XIX. O objetivo dela: impedir a inauguração do primeiro cemitério
público da cidade de Salvador, o cemitério do Campo Santo, já pronto para ser
inaugurado e que será totalmente destruído em algumas horas pelos revoltosos.
Naquele
25 de outubro reuniram-se no terreiro de Jesus, ao repicar dos sinos, os irmãos
leigos das confrarias católicas mais ricas e importantes da cidade com suas
capas, estandartes e indumentárias. Caminharam em direção a Praça do Palácio,
cerca de poucos minutos. O objetivo principal daquela marcha era intimidar o
governo, médicos, empresários locais e até mesmo o bispo, que haviam a pouco
assinado um documento que autorizava os enterros fora das igrejas. A
reivindicação central da revolta foi, portanto, continuar enterrando os irmãos
das confrarias dentro das igrejas e em seus jazigos particulares.
João
Reis vai então desenvolver sua obra de forma a deixar claro o porquê destes
irmãos terem se rebelado tão agressivamente. Ao contrário do que se
convencionou dizer, sobre este episódio, as reivindicações iam muito além do
enterro. Passavam, é claro, como comumente conhecido, pelo lado econômico da
questão, afinal de contas, grandes confrarias como a da Misericórdia, a de São
Francisco e do Carmo, lucravam muito com todo o aparato que se organizava em
torno de um enterramento.
Contudo,
para o autor, existia muito mais do que apenas o lado econômico. O termo “morte
barroca”, cunhado por ele nesta obra, define muito bem o que se passava na
cabeça daquela população católica. A despedida dos entes queridos, os
confrades, estava envolta em muitos ritos, símbolos, missas, procissões, padres,
e, não seria possível para os baianos católicos daquele início de século se
despedir de seus mortos de outro jeito. Aliás, são elencados enterros muito
parecidos em Minas, Rio de Janeiro, São Paulo e outras províncias do Império.
Caso o cemitério do Campo Santo fosse inaugurado essa “mística” barroca em
torno dos enterros seria duramente prejudicada.
Os
documentos analisados pelo historiador irão revelar, por exemplo, que existiam
diversas hierarquias em torno da despedida. Vários testamentos irão deixar
prescritos: o lugar da sepultura dentro da igreja, o tipo do caixão a ser
usado, o número de padres na procissão, a mortalha para cobrir o corpo, a
quantidade de missas a serem rezadas pós morte, as velas para os participantes,
enfim, um engenhoso mecanismo organizado pelas confrarias e que João Reis irá chamar
de “Economia da Salvação”. Aquele cristão estava preocupado com sua alma, com o
lugar onde seria enterrado, com quem iria rezar missas por ele e quanto tempo a
menos, suas economias em vida, poderiam o privar de tempo no purgatório. Muito
de fé e religiosidade girava, portanto, em torno daquele movimento liderado por
grupos católicos oitocentistas.
De um
outro lado, baseados em teorias novas e analises que vinham da Europa estavam os
médicos e sanitaristas. Segundo eles, os enterros nas igrejas começavam a se
tornar um problema sanitário. Estudos feitos na França e Inglaterra traziam
para o Brasil da época a teoria dos miasmas mefíticos, a putrefação de material
orgânico que cria ares contaminados, que ao serem inalados pelos vivos também
os contaminam, gerando as epidemias. O exemplo do fechamento do Cemitério dos
Inocentes em Paris, os testes com animais vivos jogados dentro de túmulos com
corpos em decomposição, a contaminação de moradores próximos a cemitérios
europeus, são alguns dos exemplos citados na época para legitimar as teorias.
Os
irmãos, amotinados naquela manhã, não estavam convencidos, e, concluía o
inquérito instaurado para averiguar os fatos: “No dia 25 de outubro de 1836,
pelas onze horas da manhã, foi derrubado o novo cemitério edificado na Estrada
do Rio Vermelho por mais de mil pessoas, e estas, de diversas condições, e de
diverso sexo, que para isso nesse lugar se reuniam...”
Cemitério
destruído. Empresários indenizados. Lei revogada. As irmandades haviam logrado
seu intento. A resolução, ou seja, os enterros em igrejas perduraram ainda por
quase vinte anos em Salvador. Em outras cidades do Império não foi diferente,
São Paulo inaugurou seu primeiro cemitério público, o da Consolação, em 1858.
No Rio de Janeiro o primeiro cemitério inaugurado foi o de São João Batista em
1852 em meio a uma epidemia de febre amarela. O do Campo Santo só foi reaberto
em 1855 devido a uma epidemia terrível de cólera entre 1855 e 1856. Uma peste
que vitimou muita gente no Brasil da época.
Os mortos passam então a ser encarados como perigo. As pessoas fugiam dos doentes e moribundos. A epidemia estabeleceu uma desordem não só na vida, mas também na morte. Só aí, os vivos se convenceram que enterrar na igreja era prejudicial a eles. Aqueles mortos na epidemia eram enterrados sem nenhum daquele ritual barroco que todo bom católico mereceria e que os homens e mulheres coloniais e pós-coloniais tanto defenderam.
Notas sobre o autor:
João José
Reis é professor de história na Universidade Federal da Bahia e autor de vários
livros, dentre eles: “Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos
malês em 1835. O autor se especializou no estudo sobre os levantes e revoltas
negras (de escravos ou libertos) no país, particularmente na Bahia colonial e
imperial.
Sua
última obra é o livro “Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia”. O título em
questão “A morte é uma festa” ganhou o prêmio Jabuti de 1992, o prêmio Clarence
Haring da American Historical Association em 1997 e foi publicado em inglês
pela University of North Carolina Press.
Sugestões de leituras do mesmo autor:
Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835;
Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia.
Ilustrações retiradas do livro:
Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 13 de julho de 2020.






Muito bacana! Obrigada
ResponderExcluirMuito interessante Frei Alvaci, desconhecia o levante Cemiterada! Excelente! Obrigada!
ResponderExcluirAssunto instigante este sobre os sepultamentos em igrejas que perdurou até meados do século XIX. E essa revolta – a Cemiterada – que, ao que parece, só aconteceu em Salvador, levanta muitas questões também sobre a desigualdade social. Afinal, onde era sepultado quem não fosse membro de uma irmandade ou confraria?
ResponderExcluirE o problema de saúde pública também era muito sério. Nessa época, na França, Louis Pasteur (1822-1895) estudava a origem das infecções e também encontrou muita dificuldade para convencer os próprios médicos de que a assepsia era necessária para não levar a contaminação de um paciente para outro.
Muito interessante e bem elaborada síntese. Da até vontade de ler as mais de quatrocentas páginas desta obra!!! Gracias
ResponderExcluirMuito interessante e bem elaborada síntese. Da até vontade de ler as mais de quatrocentas páginas desta obra!!! Gracias
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