Os Rosários dos Angolas:

 Irmandades de Africanos e crioulos 

na Bahia setecentista

Lucilene Reginaldo

A história colonial deste país continental chamado Brasil, tem ainda muitas páginas desconhecidas a serem descobertas e desvendadas neste século e nos séculos seguintes. Para os curiosos, estudiosos e pesquisadores, sempre há algo novo a descobrir, a conhecer e a revelar para os brasileiros e para o mundo.

Aos interessados em história sobre irmandades leigas do período colonial, a resenha de hoje é sobre a obra “Os Rosários dos Angolas” da historiadora Lucilene Reginaldo, fruto de sua tese de doutorado. O livro tem como fundamento as pesquisas sobre uma irmandade em específico (Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos das Portas do Carmo – hoje, Irmandade do Rosário dos Pretos do Pelourinho em Salvador), mas, faz uma viagem ao final do século XV e início do XVI, as navegações empreendidas pela Península Ibérica e as conquistas atlânticas, para contextualizar o nascimento daquela irmandade baiana.  Para um leigo que se aventura em conhecer as confrarias católicas coloniais, trata-se de um passo inicial acertado nesta seara da nossa história.

Em primeiro lugar, vale ressaltar, como dito acima, que a autora faz um importante trabalho de pesquisa sobre o contexto atlântico do surgimento das irmandades católicas. Desde as costas do continente africano, a começar pelo Reino do Congo e Angola, passando por Portugal e chegando ao Brasil, estes grupos organizados de homens e mulheres foram os responsáveis por estruturas de subsistência, apoio, crenças, enfim, se tornaram desde o início lugares de identidade. Conhecer as origens destes grupos em África e em Portugal, ajuda a entender o “sucesso” e a expansão que tiveram em território nacional. Começando por aquelas do Rosário, o leque se amplia e a viagem do leitor pelo conhecimento das irmandades pode ganhar outros rumos, podendo-se passar para outras muito conhecidas e difundidas no período colonial: São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia, São Balthazar, só para citar algumas, dos ditos “homens pretos”.

A expansão do catolicismo na África Central é fator preponderante para a expansão posterior do regime escravista, visto que as conquistas territoriais estavam intimamente ligadas as conquistas “de almas”. Com a conversão da corte do Reino do Congo e posteriormente de todos os seus súditos, o catolicismo ganha espaço em território africano recém conquistado pela coroa portuguesa.

Uma devoção, em particular, abraçada pelos pretos, a de Nossa Senhora do Rosário, é anterior a este processo de intercâmbio Europa-África, mas vai se fortalecer após a batalha de Lepanto em 1571, quando vitória na guerra é atribuída a Virgem sob esta invocação. Logo após este episódio, a invocação a esta Senhora passa a ser amplamente divulgada e é abraçada por devotos brancos e pretos, mas com o passar de pouco tempo, se torna orago protetora preferida pelos negros em África, em Portugal e posteriormente no Brasil. Vale saber que em terras lusitanas a devoção do Rosário como orago de irmandade é já do final do século XVI, em África se intensifica nos séculos XVI e XVII e no Brasil nos finais do século XVII e durante todo o século XVIII e XIX.

Em sociedades altamente estratificadas, como o eram as escravistas, rapidamente os “critérios de cor” foram preponderantes para o surgimento de inúmeras irmandades católicas segmentadas, cada vez mais, não por profissões, status social, hierarquias, mas também pela “tonalidade” da cor da pele do indivíduo. Deste modo, na Bahia do setecentos - capital da colônia e sede do primeiro bispado do Brasil - irão surgir as primeiras irmandades dos “homens pretos” em terras coloniais. Concentradas em Salvador e nas cidades do Recôncavo Baiano elas congregavam todo tipo de homens e mulheres das classes menos privilegiadas: negros escravizados, libertos, forros, crioulos, pardos, mestiços. Salvaguardavam inclusive, critérios de aceitação para seus membros a partir da nação de origem, as ditas “irmandades de nação”.

A tese da professora Lucilene nos leva então a entender o que aconteceu com a Irmandade do Rosário de Salvador. Baseada em estudos de fontes primárias, a autora descobre a preponderância dos negros Angola naquela irmandade, o que inclui também a maioria das irmandades do Rosário baianas do século XVIII. Os estudos vão provar, por exemplo, que as eleições do rei do Congo, os reisados e as congadas, estavam intimamente ligadas a estas confrarias em específico e eram raros os casos de coroação e eleições de reis em outras irmandades negras.

Nesta altura da obra, a autora irá contestar os estudos do médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues, feito com base em pesquisas empíricas e estudos clínicos em negros recém libertos no final do século XIX e início do XX na cidade de Salvador. Para ela, os estudos de Nina sobre a supremacia de negros Nagôs sobre os Bantos, teria suas falhas por ter se baseado apenas naqueles africanos chegados no Brasil nos últimos navios negreiros, portanto vindos na última leva da Costa da Mina.

Interessante também observar, que as contestações da autora sobre a primazia dos negros Iorubas na Bahia se dá sobre um estudo feito no final do século XIX, justamente o período em que houveram muitas revoltas naquela região, encabeçadas pelos negros daquelas nações. Os nagôs seriam “pintados” então como revoltosos, enquanto, os Angolas seriam apresentados como mais dóceis e amáveis, o que diga-se de passagem não é era de todo verdade.

Enfim, ao final da obra, a autora irá apresentar a Irmandade do Rosário das Portas do Carmo. Quem eram seus membros, quem eram os líderes, quais suas prioridades, entre outros, destacando sempre a figura e força destes homens e mulheres. A irmandade do Rosário baiana não se diferia muito das outras existentes no Brasil colônia: dividia-se entre “negros de nação”, tinha por objetivo proteger seus membros, celebrar seu orago, preparar as festas e dar enfim, aos irmãos, um enterro digno. Era lugar de autoproteção e onde se conservavam as raízes culturais africanas. Para Lucilene, as irmandades baianas conseguiram, mais do que a maioria das outras no Brasil, preservar suas raízes africanas com um sincretismo religioso que não é visto em nenhuma outra parte do país.


Observações sobre a obra:

Questionamentos sobre as teorias de superioridade Iorubá na Bahia, usando como base os estudos que hierarquizavam as raças humanas, sendo os negros falantes desta língua (Costa da Mina/Golfo do Benin) superiores aos de língua Banto (Angola/Congo).

 A formação do catolicismo baiano é fortemente influenciada pela cultura banto (centro africanos).

Fundamenta o pressuposto de um catolicismo preexistente na África central.

As irmandades tornaram-se na diáspora africana, lugar de formação de criação de identidades centro africanas nas Américas.

A interligação Atlântica, Europa-África-Brasil, é um dos maiores diferenciais deste estudo sobre as irmandades negras.

 

        Autores clássicos sobre as irmandades leigas na história do Brasil:

Caio Boschi – “Os leigos e o poder”;

Julita Scarano – “Devoção e escravidão”;

João José Reis – “A morte é uma festa”;

Antônia Aparecida Quintão – “Irmandades negras: outro espaço de luta e resistência”

 

        Notas sobre a autora:

Graduou-se em História pela PUC/SP em 1991, mesma universidade onde defendeu seu mestrado em 1995. Doutorou-se em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) em 2005. Foi professora de História na Universidade Estadual de Feira de Santana de 1997 a 2012 e diretora associada do Arquivo Edgard Leuenroth da UNICAMP de 2013 a 2014. Publicou livros e artigos sobre a história das irmandades negras no Império português. 

Tem diversas pesquisas sobre as missões católicas nos reinos do Congo e Angola.  Atualmente é professora de História da África no Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas.


Fotografias do Instituto Moreira Salles, utilizadas aqui para ilustrar o tema abordado no texto  

Escrava doméstica. Salvador. 1870

Escravos transportando homem na liteira. Salvador. 1869

Negra da Bahia. Salvador. 1885

Praça Castro Alves. Salvador. 1875.


Resenha feita por Alvaci Mendes da Luz em 27 de julho de 2020.

Homens livres na ordem escravocrata

Maria Sylvia de Carvalho Franco

Como já dito em postagens anteriores, nosso intuito nestas páginas é ajudar o leitor a ampliar seu repertório sobre obras clássicas da História do Brasil, bem como, despertar o interesse para a leitura destas mesmas obras. Em tempos de leituras apressadas, de opiniões formadas a partir de “manchetes” ou de postagens com um número reduzido de caracteres, desafiar-se a leitura de livros como o que vamos sugerir agora, é, sem sombra de dúvidas, enriquecer a estante intelectual sobre a qual se formarão suas opiniões, ideias, atitudes e conceitos.

Publicado pela primeira vez em 1969, “Homens livres na ordem escravocrata” teve que esperar cinco anos desde que foi escrito e defendido como tese de doutorado, para ser publicado e acessível ao público. Maria Sylvia havia passado os últimos anos estudando e escrevendo sua obra. Ela não esperava, porém, que aquele 1964, ano da conclusão e defesa do trabalho, entraria para a História como o início do que viriam a se tornar posteriormente os anos de repressão, da censura, do AI5, das mortes, perseguições políticas, enfim, os famigerados “Anos de Chumbo”.

Não é por menos, dentro do contexto social da década de sessenta e formada na escola do sociólogo Florestan Fernandes, que a autora irá dialogar durante toda sua obra com grandes nomes da história intelectual, política e social do país, a saber: Antônio Cândido, Sérgio Buarque de Holanda e o próprio Florestan. O leitor atento, porém, irá perceber a presença constante da escola alemã nas entrelinhas: Marx e Weber.

A base da pesquisa é um apanhado de “processos-crime” do século XIX recolhidos no Vale do Paraíba paulista. Aliás, o começo do livro é justamente a apresentação de um desses processos na íntegra, o que faz com que o leitor já comece mergulhando na ideia do que a autora irá explanar ao longo do que se seguirá. Não à toa, o primeiro capítulo é intitulado “Código do sertão”, segundo o qual a violência é umas das bases das relações sociais naquele meio, onde vivia o caipira pobre livre do século XIX. As relações giravam, para Maria Sylvia, constantemente, entre violência e favor, escravismo e trabalho livre. É na análise desses processos-crime e na vida simples daqueles homens e mulheres, que se fundamentará a pesquisa.

Afirma a própria autora, em resposta a um texto crítico de Boris Fausto à sua obra, publicado na Folha de São Paulo no dia 14 de setembro de 1997:

“Fausto pretende invalidar a documentação e esmaecer suas perturbadoras evidências, dizendo que os processos crimes limitam-se a âmbitos restritos. Isto bem mostra que nunca atentou para esse acervo. O leitor pode verificar seu desacerto apenas percorrendo o longo e comovente testemunho que abre o primeiro capítulo do livro: todos os aspectos da cultura, recolhidos no conceito de comunidade, desdobram-se diante de nossos olhos: integração à natureza, relações socioeconômicas, sentimentos, ideário, religiosidade, associados a um outro elemento excluído daquela teoria: a grande violência que lhes dá sentido. Sobretudo a linguagem nos transporta para um mundo concretamente representado. ”

O que se verá no desenrolar da leitura é um grande trabalho de apresentação do homem livre pobre dentro de um sistema social vigente: o regime escravista. A autora conseguirá nas linhas que seguem, confrontar o dualismo vigente até então, apresentando uma sociedade que girava em torno do escravismo sim, mas ao mesmo tempo conciliando as vivências não escravas. Explico: a presença do trabalho livre, enquanto fenômeno constitutivo do mundo moderno, pela mediação de seu contrário, o trabalho escravo, aqui nas terras de além mar. Não se trata, portanto, de dois polos separados, mas dois sistemas que dialogam: escravismo-capitalismo. Aliás, este será o tema central de todo o livro. Diz Maria Sylvia:

“Meu ponto de partida foi exatamente esse rumo no desenvolvimento socioeconômico orientado pelos vínculos entre trabalho livre e trabalho escravo, definindo o sentido da produção colonial moderna, essencialmente diversa do "escravismo" antigo. Basta ler a introdução ao livro, onde enfrento a questão dos nexos intrínsecos entre escravidão moderna e trabalho livre e questiono, nos seus fundamentos, a tese da exterioridade desses termos e os supostos limites intransponíveis entre escravismo e capitalismo, como reza a ortodoxia marxista. ”

Com maestria, digna de um clássico, os personagens vão sendo apresentados aos poucos para darem sentido a tese central. São eles os homens livres pobres, que orbitam em torno do grande latifúndio ou dos proprietários de terra, que irão fazer girar as engrenagens do sistema. Nesta altura da leitura aparece o vendeiro, com sua “venda” instalada nas beiras das estradas, em regiões próximas às fazendas ou das pequenas vilas. O vendeiro é uma espécie de ponte entre a vila, o fazendeiro e seus escravos. Outro personagem curioso que será apresentado é o tropeiro. Ele conhece as estradas, os animais, se estabelece entre suas criações e algumas terras “emprestadas” em um constante vai e vem. Negocia com o vendeiro, transporta para o fazendeiro, viaja para as cidades. Tanto o vendeiro quanto o tropeiro são homens livres que se deixam influenciar por um pedaço de terra para criar suas mulas, por um saco de café a mais ou pela negociação mais lucrativa com este ou aquele fazendeiro.

Ao redor das fazendas, cultivando a terra, mas não a possuindo, estão outras figuras muito significativas neste processo de dominação do homem livre: o sitiante e o agregado. Homens e suas famílias pobres, brancos ou negros, estas pessoas orbitarão em torno dos fazendeiros e seus favores, serão os “dominados” pelos fazendeiros. Convencidos a trabalhar por pouco, por trocas de favores, venda de votos, compadrio, enfim, a exploração do “trabalho livre” destes homens e suas famílias se formará à base da corrupção e da dominação pessoal. Estas pessoas, estabelecidas em terras que não são suas, estarão sempre devendo favores para aqueles “bons homens” que os fizeram o grande favor de deixar cultivar e trabalhar em suas posses.

Enfim, para a autora, estão os homens livres pobres dentro da dinâmica do capitalismo nascente que gira em torno das grandes propriedades escravistas. Nestas terras, estes dois polos distintos, mas igualmente controlados, irão entrelaçar-se: trabalho livre versus trabalho escravo. No Brasil, o capitalismo nascente, irá saber conciliar muito bem a dominação pessoal, a troca de favores e os seus resultados. Técnicas de controle das liberdades que irão perdurar até os nossos dias.

“Mas o que incomoda? O livro traz algo essencial, estrategicamente excluído na resenha: para usar palavras de Nabuco, a alma humana posta em leilão, com seus fundamentos, processos e resultados produzidos pela magia do mercado. Tudo se vende, compra, troca, na esteira da velha dominação pessoal reativada nos salões oficiais de hoje. "Negociar" tornou-se virtude política. As evidências empíricas espalham-se pelas folhas dos periódicos. A estrutura mais profunda, a chave do sucesso no torneio das vontades, na corrupção do juízo e da prática, está no gesto, agressivo e afável, que se chama favor, sobejamente discutido nos "Homens Livres".

 

Os trechos citados em itálico ao longo do texto, são retirados da réplica da autora sobre um texto crítico de Bóris Fausto, publicado na Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs140921.htm


Notas sobre a autora

Maria Sylvia de Carvalho Franco nasceu em 1930 em uma família tradicional da elite paulista. Formou-se em ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP) em 1952 e foi colega de turma do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Doutorou-se em 1964, sob a orientação do sociólogo Florestan Fernandes, com a tese "Homens Livres na Velha Civilização do Café", tese que se tornaria cinco anos depois o livro “Homens livres na Ordem Escravocrata” considerada por um júri de intelectuais um dos 20 ensaios mais significativos da história do país.

Maria Sylvia dirigiu o Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) nos anos mais repressivos da ditadura. Tornou-se livre-docente em 1970 e professora titular em 1989. Aposentada na USP, transferiu-se para o Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do qual se tornou professora titular em 1999.


Imagens ilustrativas

                                            Partida para a colheita. Vale do Paraíba. 1885

                                            Escravos na colheita de café.Vale do Paraíba. 1882

                                            Partida para a colheita.Vale do Paraíba. 1885


Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 20 de julho de 2020.



A morte é uma festa: 

ritos fúnebres e revolta popular 

no Brasil do século XIX

João José Reis

Poderíamos começar nossa resenha de leitura desta semana, sugerindo que você imagine uma “nuvem de palavras” que resumisse o século XIX. Pare um instante esta leitura e pense. Pensou? Que palavras lhe vieram à mente? Se você é um leitor assíduo da história do Brasil, com certeza surgiram estas: independência, abolição, escravidão, revoltas, revoluções, levantes populares, república, império, guerras, café. Estas são algumas, teríamos muitas outras para citar, mas a ideia é já começar lembrando que estaremos falando aqui de um século bastante “movimentado” no cenário nacional.

O clássico escolhido é o livro “A morte é uma festa” do historiador baiano João José Reis. A riqueza de documentação e pesquisa consagraram o autor como um dos maiores da sua geração. Não a toa, a obra ganhou o prêmio Jabuti de 1992, o prêmio Clarence Haring da American Historical Association, em 1997 e foi publicado em inglês pela Universidade da Carolina do Norte.

Uma resenha de leitura pode falhar em alguns pormenores, portanto, de antemão, peço desculpas aos leitores caso deixe a desejar. Afinal de contas tentaremos sintetizar mais de quatrocentas páginas em algumas linhas. Sublinho que a ideia aqui é motivá-lo a posterior leitura da obra.

Estamos na cidade de Salvador, no mês de outubro do ano de 1836. Passaram-se pouco mais de um ano desde que os Malês (africanos de religião muçulmana) se rebelaram e conduziram um levante popular brutalmente reprimido pelas forças imperiais. E passarão mais alguns meses para que o médico e líder político baiano Francisco Sabino lidere aquela que ficou conhecida como “Sabinada”, uma revolta autonomista de caráter separatista.

Entre estas duas grandes revoltas, e não menos historicamente importante do que elas, se encontra o levante que ficou conhecido como Cemiterada. A obra em questão vai se debruçar sobre os motivos centrais que originaram uma revolta majoritariamente católica, liderada pelas irmandades baianas do início do século XIX. O objetivo dela: impedir a inauguração do primeiro cemitério público da cidade de Salvador, o cemitério do Campo Santo, já pronto para ser inaugurado e que será totalmente destruído em algumas horas pelos revoltosos.

Naquele 25 de outubro reuniram-se no terreiro de Jesus, ao repicar dos sinos, os irmãos leigos das confrarias católicas mais ricas e importantes da cidade com suas capas, estandartes e indumentárias. Caminharam em direção a Praça do Palácio, cerca de poucos minutos. O objetivo principal daquela marcha era intimidar o governo, médicos, empresários locais e até mesmo o bispo, que haviam a pouco assinado um documento que autorizava os enterros fora das igrejas. A reivindicação central da revolta foi, portanto, continuar enterrando os irmãos das confrarias dentro das igrejas e em seus jazigos particulares.

João Reis vai então desenvolver sua obra de forma a deixar claro o porquê destes irmãos terem se rebelado tão agressivamente. Ao contrário do que se convencionou dizer, sobre este episódio, as reivindicações iam muito além do enterro. Passavam, é claro, como comumente conhecido, pelo lado econômico da questão, afinal de contas, grandes confrarias como a da Misericórdia, a de São Francisco e do Carmo, lucravam muito com todo o aparato que se organizava em torno de um enterramento.

Contudo, para o autor, existia muito mais do que apenas o lado econômico. O termo “morte barroca”, cunhado por ele nesta obra, define muito bem o que se passava na cabeça daquela população católica. A despedida dos entes queridos, os confrades, estava envolta em muitos ritos, símbolos, missas, procissões, padres, e, não seria possível para os baianos católicos daquele início de século se despedir de seus mortos de outro jeito. Aliás, são elencados enterros muito parecidos em Minas, Rio de Janeiro, São Paulo e outras províncias do Império. Caso o cemitério do Campo Santo fosse inaugurado essa “mística” barroca em torno dos enterros seria duramente prejudicada.

Os documentos analisados pelo historiador irão revelar, por exemplo, que existiam diversas hierarquias em torno da despedida. Vários testamentos irão deixar prescritos: o lugar da sepultura dentro da igreja, o tipo do caixão a ser usado, o número de padres na procissão, a mortalha para cobrir o corpo, a quantidade de missas a serem rezadas pós morte, as velas para os participantes, enfim, um engenhoso mecanismo organizado pelas confrarias e que João Reis irá chamar de “Economia da Salvação”. Aquele cristão estava preocupado com sua alma, com o lugar onde seria enterrado, com quem iria rezar missas por ele e quanto tempo a menos, suas economias em vida, poderiam o privar de tempo no purgatório. Muito de fé e religiosidade girava, portanto, em torno daquele movimento liderado por grupos católicos oitocentistas.

De um outro lado, baseados em teorias novas e analises que vinham da Europa estavam os médicos e sanitaristas. Segundo eles, os enterros nas igrejas começavam a se tornar um problema sanitário. Estudos feitos na França e Inglaterra traziam para o Brasil da época a teoria dos miasmas mefíticos, a putrefação de material orgânico que cria ares contaminados, que ao serem inalados pelos vivos também os contaminam, gerando as epidemias. O exemplo do fechamento do Cemitério dos Inocentes em Paris, os testes com animais vivos jogados dentro de túmulos com corpos em decomposição, a contaminação de moradores próximos a cemitérios europeus, são alguns dos exemplos citados na época para legitimar as teorias.

Os irmãos, amotinados naquela manhã, não estavam convencidos, e, concluía o inquérito instaurado para averiguar os fatos: “No dia 25 de outubro de 1836, pelas onze horas da manhã, foi derrubado o novo cemitério edificado na Estrada do Rio Vermelho por mais de mil pessoas, e estas, de diversas condições, e de diverso sexo, que para isso nesse lugar se reuniam...”

Cemitério destruído. Empresários indenizados. Lei revogada. As irmandades haviam logrado seu intento. A resolução, ou seja, os enterros em igrejas perduraram ainda por quase vinte anos em Salvador. Em outras cidades do Império não foi diferente, São Paulo inaugurou seu primeiro cemitério público, o da Consolação, em 1858. No Rio de Janeiro o primeiro cemitério inaugurado foi o de São João Batista em 1852 em meio a uma epidemia de febre amarela. O do Campo Santo só foi reaberto em 1855 devido a uma epidemia terrível de cólera entre 1855 e 1856. Uma peste que vitimou muita gente no Brasil da época.

Os mortos passam então a ser encarados como perigo. As pessoas fugiam dos doentes e moribundos. A epidemia estabeleceu uma desordem não só na vida, mas também na morte. Só aí, os vivos se convenceram que enterrar na igreja era prejudicial a eles. Aqueles mortos na epidemia eram enterrados sem nenhum daquele ritual barroco que todo bom católico mereceria e que os homens e mulheres coloniais e pós-coloniais tanto defenderam.


Notas sobre o autor:

João José Reis é professor de história na Universidade Federal da Bahia e autor de vários livros, dentre eles: “Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. O autor se especializou no estudo sobre os levantes e revoltas negras (de escravos ou libertos) no país, particularmente na Bahia colonial e imperial.

Sua última obra é o livro “Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia”. O título em questão “A morte é uma festa” ganhou o prêmio Jabuti de 1992, o prêmio Clarence Haring da American Historical Association em 1997 e foi publicado em inglês pela University of North Carolina Press.

 

        Sugestões de leituras do mesmo autor:

        Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835;

        Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia.


        Ilustrações retiradas do livro:







        Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 13 de julho de 2020.


Nem tudo era italiano:

São Paulo e pobreza (1890-1915)

Carlos José Ferreira dos Santos


        Quando falamos em São Paulo hoje, em pleno século XXI, geralmente noções básicas e adjetivos clássicos sobre a metrópole afloram a mente: progresso, riqueza, desenvolvimento, negócios. Alguns mais afoitos podem até citar os imigrantes e o senso comum, que frisa o desenvolvimento que eles trouxeram para a cidade, que crescia vertiginosamente nos inícios do século passado, impulsionada pelo café e pelas indústrias que se instalavam nos seus arredores.

A obra de Carlos José não é um dos livros mais vendidos nas livrarias populares, bem como o formato de sua edição não é tão simpático aos olhos do mercado dos best-sellers. Contudo, é sem sombra de dúvidas, um clássico para aqueles que, assim como eu, questionam a propaganda maciça do novecentos sobre a força e influência dos imigrantes no progresso e desenvolvimento de São Paulo. A imagem “vendida” insistentemente pela elite paulistana, de uma Belle Époque construída com o suor e trabalho dos imigrantes, sobretudo italianos, incomoda aqueles que sabem que “nem tudo era italiano” numa sociedade mestiça como a nossa.

Intrigado com a ausência dos “nacionais pobres” na imprensa, na política e nos “órgãos oficiais” da metrópole que se industrializava, em contrapartida com a frequente apresentação dos estrangeiros superestimados, a obra de Carlos José irá aos poucos desenvolvendo e redescobrindo o lugar de cada cidadão dentro da cidade. As perguntas que surgem são: onde estavam os nacionais pobres? Em que lugares moravam? Que cor tinham? Quem eram?

O trabalho foi apresentado originalmente em 1995 como dissertação de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em História da PUC-SP com o título: “A população pobre nacional na cidade de São Paulo – virada do século (1890-1915). Foi publicado pela Annablume/FAPESP três anos depois da defesa, em 1998. Atualmente está na sua terceira edição. Como disse, não é um livro fácil de encontrar e há poucos exemplares à venda.

A professora Heloísa de Faria Cruz, responsável pela apresentação do livro, a época professora do Programa de pós-graduação da PUC/SP, assim se posiciona: “Questionando à contrapelo à Belle Époche paulistana, desvela a construção ‘em negativo’ de outros sujeitos, os pobres, ‘todos pretos ou quase pretos de tão pobres’, os trabalhadores pobres nacionais”.

As primeiras páginas serão então, uma apresentação dos habitantes da cidade de São Paulo no final do século XIX e início do XX. Baseado em sensos, e estudando os anos pré e pós abolição, bem como as primeiras décadas do novecentos, o autor irá nos apresentar os habitantes de uma cidade que se desvela altamente mestiça. Os dados irão revelar um número grande de negros, pardos, caipiras e caboclos, convivendo com levas crescentes de brancos europeus que chegavam incentivados e apoiados pelo Governo.

Os números demonstram também que os trabalhadores contratados pelas fábricas eram geralmente estes imigrantes brancos europeus (italianos, portugueses, espanhóis, etc.) e que os empregos eram priorizados para estas pessoas, em detrimento aos nacionais pobres, subjugados como “incapazes” e inferiores para aquele tipo de trabalho. Os anuários justificavam a qualificação profissional dos estrangeiros, o que é facilmente questionado, haja vista que, muitos dos que vinham como imigrantes para o Brasil eram de origem humilde e em grande maioria trabalhadores do campo, cultivadores de lavouras.

A leitura continua e os nacionais pobres começam a serem apresentados em números cada vez mais crescentes. O segundo capítulo é, portanto, o mais denso e um mergulho na cidade daquela virada de século, repleta de homens e mulheres pobres, em sua maioria negros e pardos, trabalhadores braçais que movimentavam a sempre crescente cidade do progresso.

A grande sacada do historiador, será justamente a de analisar a própria imprensa propagandista de uma cidade branca e europeia, e descobrir dentro das imagens veiculadas em periódicos ou órgãos oficiais, os homens e mulheres pobres, que não eram, é claro, o foco principal das imagens em questão. Ao tentar mostrar uma cidade pulsante, com seus carros, avenidas, bondes, chapéus, vestidos e cartolas, aquelas fotografias, ao congelarem o momento, não eram capazes de esconder os pretos e pardos, caboclos e caipiras, lavadeiras e carroceiros. Figuras quase que onipresentes, discretas, mas constantes, relegadas a um segundo plano, a quase invisibilidade.

Um infinito número de homens e mulheres, ganharão nesta pesquisa, seu devido lugar. Lugares fora do Triângulo Histórico, como a Várzea do Carmo, o sul da Sé e o Anhangabaú com seus moradores, não tão ilustres assim, também serão apresentados de outra forma. Enfim, aqueles homens e mulheres que moviam com seus braços a cidade, ganharão destaque: lavadeiras da Várzea, Quituteiras da rua das Casinhas, limpadores de trilho da avenida São João, carroceiros da rua XV de novembro, lavadores de casas, catadores de lixo, enfim, tantos e tantas não apresentados oficialmente, mas que estavam ali, nas fotos, como que para contar sua história. Afirma Heloisa de Faria:

“Através da leitura detalhada de fotos que, em geral, destacavam o progresso e a modernidade da vida urbana, em segundo plano, nos cantos, fora do foco central, o autor identifica os homens negros descalços transportando sacos, conduzindo carroças, mulheres com tabuleiros, trouxas ou embrulhos, crianças descalças em trajes caseiros. Busca remapear socialmente o centro e outros espaços da cidade, indo além da representação elegante e europeia do Triângulo e encontra becos, ruas alagadas, quiosques, mercados, igrejas, terreiros, batuques, congadas, caipós, na Várzea do Carmo, no Largo das Casinhas, no Largo do Rosário, no sul da Sé.”

       Muito interessante é poder olhar para São Paulo com estes novos “óculos” apresentados pelo autor. Poder enxergar uma parcela significativa da população que foi, logo nos anos pós abolição, sendo colocada pouco a pouco no escanteio do progresso e que segundo a elite da época, só serviam para realizar “serviços de preto”. A busca desenfreada da elite paulistana, mestiça em sua maioria, mas preocupada em branquear e europeizar a cidade, irá afastar sempre mais para as periferias a população preta, parda e pobre.

Este processo de alijamento destas populações já é bem conhecido, mas a pesquisa nos ajuda a enxergar como ele foi feito. Desde os pretos velhos, com sua sabedoria vendendo ervas no mercado caipira das beiras do Tamanduateí, até a lavadeiras do mesmo rio, os batuqueiros do Largo do Rosário e da Igreja de São Benedito, todos irão aos poucos fazendo parte de um mecanismo bem articulado que tentava os apagar, criminalizar, distanciar, serem enfim esquecidos na história.

O historiador nos dá de presente estas linhas sobre o que foi e o que é a São Paulo de ontem e de hoje. Uma mescla de tudo e de todos, construída a muitas mãos e regada com o suor de muita gente. Colocar cada personagem no seu devido lugar histórico é papel daqueles que se pretendem ler o “oficialmente” escrito. Termino com as palavras da já citada Heloísa de Faria Cruz, que diz: “Com seu trabalho, Carlos José nos propõe uma São Paulo onde nem tudo era italiano e contribui para uma compreensão dos processos de exclusão, ontem e hoje, pois joga luz nos silêncios da historiografia que tratou sobre o tema das cidades e do trabalho no período”.

        

           Notas sobre o autor:

Indígena com o nome de Casé Angatu Xukuru Tupinambá e morador no Território Indígena Tupinambá de Olivença - Aldeia Gwarïnï Taba Atã (Ilhéus/Bahia). Carlos José Ferreira dos Santos é historiador e professor universitário da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) em Ilhéus-BA.  Graduou-se em história pela Unesp-Franca, mestre pelo Programa em Estudos Pós-Graduados em História pela PUC-SP e doutor pela FAU-USP.


           Imagens de São Paulo – Gaensly – No acervo da Light – 1899-1925

Vista parcial do Largo do Palácio - atual Páteo do Colégio - 
Secretarias da Agricultura e do Tesouro - 1896 -1900. São Paulo/SP

Vista parcial do Largo São Francisco - Academia de Direito 
e Igreja de São Francisco, 1896 -1900. São Paulo/SP

Obras na Rua 25 de Março, em 5 de julho de 1899. São Paulo/SP.

Rua XV de novembro, imagem inclusa no Annual Report 1901. São Paulo/SP.

Câmara Municipal na Rua do Tesouro, imagem do álbum 
"Lembrança de São Paulo", inclusa em Annual Report 1901. São Paulo/SP.

Avenida São João a partir da esquina da Rua Libero Badaró, 
dezembro de 1921. São Paulo/SP.

 

              Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 07 de julho de 2020.



Sejam bem-vindos!


"Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber: que o esplendor da manhã não se abre com faca." Manoel de Barros.

Talvez você que está chegando nesta página pode já nos conhecer de alguma forma: seja porque percorreu conosco algumas ruas, igrejas e praças do centro histórico da capital paulistana, porque participou de algum dos nossos passeios, ou mesmo, porque foi indicado por alguém. Outros podem ser apenas curiosos chegando aqui para ver do que se trata. Enfim, se você está lendo estas linhas é porque tem interesse, nos conhece ou simplesmente quer saber mais sobre a História do Brasil ou da cidade de São Paulo. Seja qual for o motivo que te traz aqui, te desejamos boas-vindas.

A página que você está visitando pretende ser um lugar democrático de compartilhamento de conhecimento. Assim como em nossas redes sociais, as postagens feitas aqui se basearão em dados e pesquisas, leituras e fontes fidedignas que sempre serão citadas. O nosso objetivo primeiro é o de despertar seu interesse para a leitura, a busca de dados e talvez aprofundar ainda mais aquilo que você já sabe, nunca o de omitir dados ou créditos de qualquer que seja a fonte.

Tendo o dito acima como pressuposto, seguem algumas ideias do que será disponibilizado. Já nos próximos dias, lançaremos uma série de postagens, a princípio nas segundas-feiras, com resenhas de livros de diferentes autores. Os temas dos primeiros textos serão variados, mas tendem a girar em torno de alguns pontos específicos: cidade de São Paulo; período colonial; religiosidade; irmandades negras; abolicionismo, entre outros. Esta primeira série seguirá a modalidade de resenhas. Outras séries irão surgindo na medida em que gerarmos interesse, ampliarmos o repertório e ouvirmos as sugestões dos leitores.

Esperamos que gostem do conteúdo divulgado e se não gostarem esperamos que nos deem o feedback para que possamos melhorar. Todas as sugestões, críticas e até os elogios serão levados em consideração. No mais, muito obrigado por ter chegado até aqui e bom proveito!

Equipe “Conhecendo São Paulo”


Vitrais Faculdade de Direito/USP - Largo São Francisco, SP


Visita Monitorada - Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, SP


Igreja Nossa Senhora da Morte e Rua do Carmo, SP



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