Lá vem o meu parente: as irmandades de pretos e pardos no Rio de Janeiro e em Pernambuco (século XVIII)

Antônia Aparecida Quintão


(...) nenhuma classe se entregava com maior devotamento a demonstrações religiosas que os negros, particularmente lisonjeados com o aparecimento, de vez em quando, de um santo de cor ou de uma Nossa Senhora preta. “Lá vem o meu parente”, exclamou certa vez um negro velho que se achava perto de nós quando viu surgir em meio à procissão a imagem de um santo de cabelo encarapinhado e lábios grossos e, no seu transporte de alegria, o velho exprimiu exatamente os sentimentos visados com tais expedientes. (Kidder, 1972).

    Com esta citação, quase que profética e cheia de beleza cultural e religiosa, começo a resenha desta semana.  Muito poderia falar sobre este livro mas vou tentar ao máximo não ser prolixo, para que o intuito e o objetivo destas linhas não se me escapem. Afinal de contas, sobre irmandades religiosas católicas, em específico, e sobre as de negros, em particular, tenho lido muito no último ano e por isso a escrita flui com certa naturalidade.

    Conheci a professora Quintão no final de 2018 ao buscar conteúdos sobre as irmandades religiosas na cidade de São Paulo. Ela foi muito gentil comigo no início de minhas pesquisas bibliográficas, deu atenção para meus assuntos de “curioso em história”, me recebeu na Universidade Presbiteriana Mackenzie onde trabalha e de quebra me emprestou para leitura os livros que procurava de sua autoria. Aparecida Quintão tem duas obras, muito interessantes, sobre irmandades católicas de “homens pretos”, aquelas fundadas e administradas por homens e mulheres de cor, cativos ou não. Tive a honra de ler os dois e sobre os mesmos gostaria de falar um pouco. 

    O primeiro deles é sobre a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos da cidade de São Paulo, intitulado: “Irmandades negras: outro espaço de luta e resistência - São Paulo: 1870-1890 ”. Resultado de sua dissertação de mestrado, a obra nasceu das pesquisas sobre a dita irmandade, suas conquistas e dificuldades enfrentadas ao longo de seus mais de 300 anos de história. Engloba de um modo geral as irmandades negras no Brasil, mas discorre particularmente de duas décadas bem conturbadas da nossa história no contexto em que a dita irmandade estava inserida: os últimos anos da escravidão e os primeiros da República, na cidade da São Paulo. 

      Aparecem constantemente neste livro as tentativas de manutenção do espaço físico e religioso dos negros católicos de São Paulo, em um contexto que já contava com a presença crescente dos imigrantes e da elite cada vez mais urbana e europeizada, “branca” nos modos e nos costumes. Como sabemos, a Igreja do Rosário de São Paulo foi demolida, o cemitério da irmandade soterrado e depois de muita briga jurídica, uma nova igreja foi construída longe do triângulo histórico, no atual Largo do Paissandu. 

     O segundo livro, objeto desta resenha, é um pouco mais denso, enriquecido por rica pesquisa bibliográfica e fonte documental primária, tese de doutorado da professora Quintão. Publicado em 2002 pela FAPESP, foi apresentado originalmente em 1997 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, como requisito para o título de doutora em História. 

     Dividido em cinco capítulos, como o subtítulo mesmo sugere, o livro irá apresentar de forma bem detalhada algumas irmandades de pretos e pardos de cidades do estado do Rio de Janeiro e de Pernambuco. Claro que de modo particular, serão contempladas algumas delas com mais atenção, como é o caso da Irmandade do Rosário e São Benedito do Rio de Janeiro, ou, aquela de Nossa Senhora do Rosário da vila de Santo Antônio do Recife, e ainda, a de Nossa Senhora do Rosário da cidade de Olinda. Sobre estas irmandades citadas acima, vasto material primário foi pesquisado nos arquivos das mesmas cidades, bem como em arquivos da Torre do Tombo em Portugal. Por isso mesmo, o livro apresenta muitas citações transcritas diretamente das fontes. O leitor faz, portanto, uma viagem aos documentos, ao modo de pensar e às conquistas daqueles negros católicos do século XVII.

        Tendo como base alguns autores clássicos, como João José Reis, Caio Boschi e Julita Scarano, a autora nos primeiros três capítulos irá apresentar a realidade vivida pelas irmandades do Rio de Janeiro e Pernambuco. Elas não divergiam muito daquelas existentes em outros estados, como nas estudadas pelos autores citados na Bahia ou em Minas. Pontos convergentes como a estrutura da Igreja Católica comum pra todas, as estratégias de sobrevivência, as formas de solidariedade, de ajuda mútua, os conflitos étnicos, a organização econômica, a presença de brancos e pardos no seio da Irmandade, bem como, os constantes conflitos com os párocos e capelães, são amplamente citados e exemplificados. 

        Interessante também ressaltar as partes em que a autora justifica a escolha da devoção de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito como as preferidas pelos negros no período colonial e imperial. Através de suas histórias, devoções e divulgação no seio católico, estes oragos negros para negros, foram pouco a pouco, sendo incorporados pela hierarquia e pela sociedade colonial. Neste interim, a autora faz uma crítica contumaz àqueles que atribuem às irmandades espaços de conformismo e alienação das comunidades negras. Alguns mesmo chegam a chamar as irmandades de antiquilombos, como que se, nas irmandades, os negros continuassem no seu lugar de submissão: à igreja, aos senhores e a sociedade escravagista. Quintão não comunga com este modo de pensar e justifica sua opinião crítica com citações. 

“Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santo Elesbão e Santa Efigênia eram invocações dos negros, não apenas pela afinidade epidérmica ou pela origem geográfica, mas também pela identidade com suas agruras. Os “santos” dos brancos, supunha-se, não saberiam compreender os dissabores e os sofrimentos dos negros” (BOSCHI in QUINTÃO, 2002, p.77). 

         Sobre este ponto, as transcrições de documentos são de uma riqueza sem par. Aliás, eles justificam e confirmam o não conformismo dos “irmãos negros” à estruturas de opressão e submissão. Cartas enviadas ao governo imperial, trocas de “farpas” de ambos os lados, bem como, negativas de posse de suas igrejas particulares, reafirmam estes grupos sociais consolidados e em briga constante por seus direitos. O caso mais emblemático citado é o da escolha da Igreja do Rosário do Rio de Janeiro, para servir de Sé Catedral. Os irmãos não aceitam a princípio, brigam por seu direito de posse por alguns anos, acabam tendo sua igreja invadida pela Cúria, mas não abrem mão de manter na mesma igreja suas festas e celebrações paralelas àquelas do bispo e seus padres. Com a construção da nova Catedral, a igreja do Rosário do Rio voltou ao poder da Irmandade. 

        Com outras irmandades do Rio de Janeiro, de pretos ou de pardos, bem como em algumas de Pernambuco, a sorte não foi a mesma. Ao longo do século XVIII e principalmente no século XIX, sob diversos pretextos, igrejas de Irmandades foram sendo retiradas da administração dos irmãos, cemitérios foram soterrados e outras tantas posses demolidas. O que salta aos olhos, contudo, no livro da professora Quintão, é a frequência com que termos depreciativos eram atribuídos a figura do homem e da mulher negra e como eles eram frequentemente usados para justificar as ações da classe dominante. 

      Adjetivos depreciativos como beberão, ladrão, ligado a superstições, assassinatos, intrigas são abertamente apresentados nos documentos, alijando sempre mais da figura do negro a possibilidade de ascensão, trabalho digno ou liberdade. Poderíamos citar vários exemplos, como os dos negros e negras de ganho das cidades coloniais, das negras regateiras e dos negros canoeiros de Olinda e Recife e mesmo dos escravos nas áreas rurais que com seu trabalho nos feriados e domingos conseguiam juntar algum pouco dinheiro para tentar comprar sua alforria. Todos estes se viam muitas vezes acusados injustamente dos delitos acima mencionados. 

        Enfim, como disse, o assunto é amplo, cheio de riqueza de detalhes e, confesso para vocês, vamos voltar neles novamente em outras resenhas aqui nestas páginas. Por isso, a título de conclusão, deixo que a própria autora nos fale e nos ajude a ampliar o olhar e tentar enxergar cada vez mais este universo, ao mesmo tempo tão longe e tão perto de nós: 

“Em cada momento histórico, o homem se manifesta e atua da forma que lhe é possível. As irmandades elaboraram estratégias no contexto da sociedade escravagista em que estavam inseridas, por isso, busquei ao longo desta pesquisa rastrear a autonomia que se forjava na burla do poder constituído... 

Inicialmente procurei demonstrar que as atividades desenvolvidas pelos negros e pardos nas suas irmandades tinham um caráter de protesto racial, uma vez que estavam inseridas numa sociedade marcadamente racista. As fontes consultadas nos permitem constatar que os negros eram vistos como criminosos, ladrões, feiticeiros, considerados incapazes, perigosos, suspeitos, e, a partir daí, passíveis de terem seus bens usurpados... 

O negro era uma presença que incomodava, causava temor e inquietava. Suas reivindicações significavam ameaças e eram vistas como tentativa de desestabilização social. 

É certamente difícil comprovar que a sociedade brasileira é historicamente racista, pois o Brasil gosta de se ver e de se mostrar como um país sem preconceitos, tendo elaborado e incorporado o mito da “democracia racial”, que permanece incontestável justamente por ser mito e apesar dos numerosos exemplos de discriminação praticados cotidianamente de uma maneira visível e indiscutível. 

Se as irmandades não chegaram a contestar a ordem estabelecida, certamente denunciaram as suas incoerências e reagiram às suas injustiças, o que pôde ser comprovado através da análise dos seus requerimentos e das suas petições, que em última análise tiveram sempre como motivação básica e fundamental o seu desejo de independência e autonomia”. (QUINTÃO, 2002, pp. 203-204) 

        Aos que ficaram interessados pela leitura, tenho uma notícia ruim: o livro está esgotado pela FAPESP e é um tanto difícil encontrá-lo pelos sebos físicos ou virtuais. A não ser que você consiga fazer amizade com a professora Quintão e pedir emprestado algum dos exemplares que ela guarda consigo com carinho filial.


Notas sobre a autora:

    Antônia Aparecida Quintão dos Santos Cezerilo é professora doutora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foi pesquisadora do núcleo de pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o negro Brasileiro (NEINB). Atua ativamente em várias organizações da comunidade negra. É historiadora graduada pela Universidade de São Paulo, onde fez mestrado e doutorado na área de História Social.


Imagens Ilustrativas

Escravos de ganho - Rio de Janeiro - 1865

 Escrava de ganho vendedora - Rio de Janeiro - 1865

Escrava Crioula - Rio de Janeiro - 1865



Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 10 de agosto de 2020


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