Dicionário da Escravidão e Liberdade: 50 textos críticos

Lilia M. Schwarcz e Flávio Gomes (orgs)

 


Há mais de um mês, começamos a experiência de partilhar com você o conteúdo das atuais leituras que temos feito nos últimos meses. Os leitores mais atentos devem ter percebido que as resenhas, em sua maioria, giram em torno destes temas: escravidão, racismo, negritude, abolicionismo, liberdade. Pedimos desculpas se nos tornamos repetitivos, na verdade, achamos por bem voltar aos temas, haja vista que os livros aqui apresentados são sempre diferentes e de autores variados. Pedimos licença, portanto, para apresentar-vos o porquê de tantas leituras com temática parecida.  

Nos últimos anos, estamos centrando nossa pesquisa na elaboração de uma dissertação de mestrado em História, que tem como foco uma irmandade negra, instalada oficialmente no Largo São Francisco, no centro da capital paulista, no final do século XVIII.  Tal confraria de leigos em meados do novecentos teve seu momento áureo, com suas lutas, acertos e conquistas, o que marcou profundamente a história daquele lugar. Os esforços pela manutenção do espaço, as disputas internas, bem como as obras feitas naquela Igreja por uma irmandade de negros católicos, serão contadas quando a dissertação de mestrado estiver pronta. Por enquanto, todas as resenhas apresentadas aqui, fazem parte do acúmulo de repertório sobre aquelas pessoas, suas vidas e memórias.

Todos nós, portanto, estamos participando juntos do resgate de uma história um tanto quanto “esquecida” ou deixada de lado propositalmente. Herdamos um país que não faz questão de recontar as memórias de seu passado “negro”; que tem pouco interesse pela história “de gente de cor” e que consequentemente sabe pouco sobre o seu passado. Ao ler estas resenhas, você está junto conosco rememorando “o Brasil de ontem” com os pés na realidade do “Brasil de hoje”. Esperamos que ao final das pesquisas, a irmandade negra de São Benedito do Largo São Francisco reconte para nós, ela mesma, a sua história.

Sem mais delongas, apresentamos na resenha desta semana uma outra grande obra. Estamos falando do “Dicionário da Escravidão e Liberdade: 50 textos críticos”, organizado pelos historiadores Lilia Moritz Schwarcz e Flávio Gomes, lançado em 2018 por ocasião dos 130 anos da abolição da escravatura no Brasil. Trata-se de uma coletânea de textos críticos dos mais bem-conceituados historiadores da atualidade sobre a temática da escravidão e liberdade.

Cada verbete é escrito por um pesquisador, brasileiro ou estrangeiro, especialista na questão dos escravizados no Brasil. Pela qualidade da produção textual serve como excelente fonte de pesquisa bibliográfica, haja vista ser um dos mais completos trabalhos recentes sobre a escravidão neste país. A editora é a “Companhia das Letras”, que por sinal, tem publicado nos últimos anos muitas obras sobre o tema em questão.

Para os estudiosos ou interessados em tema tão relevante de nossa história, o “dicionário temático” é quase leitura obrigatória. Não iremos discutir ou apresentar aqui cada um dos temas apresentados no livro, porque esta resenha ficaria por demais extensa. Faz-se importante, contudo, apresentar alguns dados relevantes sobre o panorama que se faz sobre memórias e fatos que estão até hoje enraizadas em nosso país. Para começo de conversa é bom ter em mente, que as primeiras levas de africanos escravizados chegaram por aqui já nos anos de 1550 e as últimas desembarcaram três séculos depois, apenas na década de 1860. Ao longo desse período, foram trazidos forçadamente para este continente um total estimado de 4,8 milhões de pessoas. Nosso Brasil recebeu sozinho, entre 38 a 43% de todos os africanos que saíram de seu continente.

Ao longo da leitura você irá perceber também, que por estas terras o escravismo foi algo fortemente instaurado de norte a sul. Desde os quilombos instalados na Amazônia e nas fronteiras com as Guianas até as charqueadas do Rio Grande do Sul: em todos os espaços do território nacional, existiam homens e mulheres escravizados. Aliás, interessante perceber como o livro aborda a questão indígena e a escravização dos povos nativos, algo nunca bem resolvido para a coroa e para os colonos, bem como uma convivência inesperada em diferentes espaços entre africanos e indígenas.

A complexa rede do sistema escravista é amplamente apresentada, de forma acessível e linguagem adaptada ao grande público. Assim, ficamos sabendo, por exemplo de quais regiões africanas partiram os escravizados que se dirigiram ao Brasil, bem como, qual a bagagem histórica, cultural e religiosa que eles traziam consigo. Assuntos como casamentos entre escravizados, leis, castigos, mulheres e crianças, amas de leite, tráfico, canções, economia, emancipações, escravidão indígena, Frente Negra, Imprensa Negra, Irmandades, educação, morte e ritos fúnebres, rebeliões, quilombos e revoltas nos ajudam a entender o sistema que moldou as bases deste país e que ainda é sentido no dia-a-dia racista brancocêntrico.

Não é de se estranhar que por aqui o sistema escravocrata tenha criado raízes tão profundas que era quase impossível viver sem ele. Em diferentes regiões demográficas, bem como em diferentes ciclos econômicos, como os da cana de açúcar, da mineração, do algodão, da agropecuária e do café, estavam lá os escravizados para “girar a roda do moinho” da economia. Até meados da década de 1860, com todas as leis e pressões externas, o Brasil ainda não se pensava um país sem escravidão. Essa intricada rede de relações que se criavam, na maior colônia escravista das Américas, é amplamente apresentada no livro.

Enfim, vale ainda uma palavra sobre a pesquisa iconográfica que compõe a edição. Imagens já clássicas como as de Debret e Rugendas, outras menos conhecidas pinturas de época, bem como, imagens de escravizados e seus patrões; indígenas em suas aldeias; negros e negras em estúdios fotográficos, entre outros, compõe um caderno interno em algumas páginas da obra. Como afirma Lilia Moritz, as imagens pretendem estabelecer um diálogo com os verbetes, permitindo uma leitura crítica da iconografia que cercou a escravidão. Afirma Lilia: “é preciso confiar nesta iconografia e, ao mesmo tempo, dela desconfiar”, porque “representações visuais tem a capacidade de copiar a realidade, mas também de produzi-la”. Sendo assim, as imagens apresentadas são mais uma forma de repensarmos o tema proposto ao longo das linhas.

Em tempos de “Black Lives Matter”, de empoderamento negro e de uma leitura mais atenta da realidade desigual que nos cerca, a importância do dicionário não se restringe ao passado. Muito pelo contrário, mais de 130 anos depois da abolição, o racismo continua estrutural no Brasil, moldando relações e se perpetuando em diferentes formas de violência institucional, estruturando uma base de relações que tem na cor da pele um fator determinante. A leitura, portanto, é atual e necessária.

 

Organização: Lilia Moritz Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes

Prefácio: Alberto da Costa e Silva.

Autores dos verbetes: Lilia Moritz Schwarcz, Flávio dos Santos Gomes, Roquinaldo Ferreira, Luiz Felipe de Alencastro, Robert W. Slenes, Beatriz Gallotti Mamigonian, Luis Nicolau Parés, Edward A. Alpers, Eduardo França Paiva, Lorena Féres da Silva Telles, Petrônio Domingues, Ricardo Salles, Martha Abreu, Antônio Liberac Cardoso Simões Pires, Carlos Eugênio Líbano Soares, Keila Grinberg, Jonas Moreira Vargas, Paulo Roberto Staudt Moreira, Marcus J. M. de Carvalho, Hebe Mattos, Marília B. A. Ariza, Luís Cláudio Pereira Symanski, Herbert S. Klein, Tânia Salgado Pimenta, Rafael de Bivar Marquese, Maria Clara S. Carneiro Sampaio, Stuart B. Schwartz, Isabel Cristina Ferreira dos Reis, Carlos Eduardo Moreira de Araújo, María Verónica Secreto, Lucilene Reginaldo, Joseli Maria Nunes Mendonça, Maria Cristina Cortez Wissenbach, Sidney Chalhoub, Robson Luís Machado Martins, Douglas Cole Libby, Cláudia Rodrigues, Wlamyra Albuquerque, Maria Helena Pereira Toledo Machado, Jaime Rodrigues, Walter Fraga, Angela Alonso, Luciana Brito, João José Reis, Marcelo Mac Cord, Robério S. Souza.

Notas sobre os organizadores:

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton. É autora de, entre outros livros, O espetáculo das raças (Companhia das Letras, 1993, e Farrar Strauss & Giroux, 1999), As barbas do imperador (1998, prêmio Jabuti/Livro do Ano, e Farrar Strauss & Giroux, 2004), O sol do Brasil (2008, prêmio Jabuti/Biografia 2009), Brasil: Uma biografia (com Heloisa Murgel Starling; Companhia das Letras, 2015, indicado ao prêmio Jabuti/Ciências Humanas) e Lima Barreto: Triste visionário (Companhia das Letras, 2017).

Flávio dos Santos Gomes é professor da UFRJ, atuando também nos programas de pós-graduação em história comparada (UFRJ) e história (UFBA). Foi agraciado duas vezes com o Premio Literário Casa de las Américas, do Instituto Casa de las Américas (Cuba), sendo menção honrosa em 2006 (pelo livro A hidra e os pântanos) e o vencedor em 2011 (pelo livro O alufá Rufino, em coautoria com João José Reis e Marcus Joaquim de Carvalho). Tem publicado dezenas de livros, coletâneas e artigos em periódicos nacionais e estrangeiros, atuando na área de Brasil colonial e pós-colonial, escravidão, Amazônia, fronteiras e campesinato negro.

 

Link do livro para download:

https://contrapoder.net/wp-content/uploads/2020/04/SCHWARCZ-_-GOMES-2018.-Dicion%C3%A1rio-da-escravid%C3%A3o-e-liberdade.pdf

 

Entrevista com a organizadora, Lilia Moritz Schwarcz:

https://www.geledes.org.br/dicionario-da-escravidao-e-liberdade-joga-luz-sobre-complexa-relacao-entre-os-africanos-e-o-brasil/

 

Matéria no “Folha de São Paulo” sobre a obra apresentada:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/05/historiadores-lancam-dicionario-com-ensaios-sobre-a-escravidao-no-brasil.shtml

 

Algumas imagens que ilustram a obra:

 

Um jantar brasileiro - Jean Baptiste Debret, 1827

Venda em Recife. Johann Moritz Rugendas, 1830.

Retrato de homem feito em Manaus. Walter Hunnewell, 1865.


Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 21 de setembro de 2020.

Um comentário:

  1. Um tema necessário de ser revisto com o cuidado que o senhor está dedicando, Frei. É repetitivo, mas torno a dizer que é um presente ler suas resenhas.

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