Antônio Galvão de França

(Frei Antônio de Sant´Anna Galvão)



O objetivo deste texto é o de apresentar ao máximo os aspectos históricos do franciscano Frei Antônio de Sant´Anna Galvão, destacando sua presença por 60 anos na cidade de São Paulo.

Os dados que iremos fornecer se baseiam basicamente na obra intitulada: Frei Antônio de Sant´Anna Galvão. Trata-se de uma coletânea comentada do material apresentado em Roma para a Congregação da causa dos santos, responsável por dar andamento ao processo de canonização. Datada de 1993, teve como organizador, os postuladores da causa de canonização na época: Frei Cristoforo Bove e Irmã Célia Cadorin.

1.    Nascimento e formação inicial:

O menino nasceu na cidade de Guaratinguetá (terra das garças brancas em tupi), no vale do Paraíba, no ano de 1739. Na época, a então Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá era uma importante vila do Vale. Foi inclusive nesta mesma região, que alguns anos antes, em 1717, três pescadores encontraram nas águas do Rio Paraíba, na área chamada de “Porto Itaguaçu”, uma pequena imagem da Virgem da Conceição em terracota enegrecida, que passou a ser chamada de Nossa Senhora Aparecida.

Era filho de pai português e mãe brasileira. O pai, aliás, era o capitão-mor, ou seja, o representante militar da coroa naquela vila. Por isso mesmo, o menino ainda muito jovem é mandado a Belém da Cocheira, cidade baiana que abrigava um dos únicos internatos para estudos em terras coloniais na época. Lá ele permanece por seis anos para completar seus estudos junto ao Colégio dos jesuítas.

Com a morte da mãe e as crescentes pressões sobre os jesuítas em Portugal e no Brasil, o jovem estudante regressa a Guaratinguetá. Na verdade, o pai dele sabia que não daria para continuar os estudos com os padres da Companhia de Jesus devido aos problemas políticos. Tendo manifestado o desejo de continuar os estudos para a vida religiosa, ingressa desta vez no Convento de Santa Clara, dos franciscanos em Taubaté.

Os estudos seguem em Cachoeiro do Macacu na capitania do Rio de Janeiro, onde recebe o hábito de religioso franciscano em 1760. Dois anos depois é ordenado sacerdote no Convento de Santo Antônio na capital. O jovem contava na ocasião com pouco mais de 20 anos.

2.    Chegada em São Paulo

Chegou em São Paulo em 1762 para completar seus estudos de filosofia e teologia, naquele que era o maior convento da cidade: o Convento de São Francisco. Encontra-se matriculado no curso de filosofia no Convento a 24 de julho de 1762. Este espaço funcionou como casa de estudos até 1818. Na época vivia seu período áureo como casa de formação para os estudantes franciscanos e chegou a abrigar mais de 200 religiosos.

Contudo, o contexto social sob a liderança do Marques de Pombal em terras lusitanas foi para a Igreja do padroado o início do declínio numérico dos religiosos na colônia. Inclusive, poucos anos antes da chegada de Frei Galvão na cidade, em 1759, os jesuítas serão expulsos do Brasil e os franciscanos e outros religiosos começarão a sofrer pressões do governo. Sua vida na cidade estará marcada por este contexto social contrário aos religiosos e recheado das ideias iluministas vindas da Europa.

É neste mesmo Convento, que em 9 de novembro de 1766, 4 anos após sua chegada, que ele fará sua consagração como filho e escravo perpétuo da Virgem Imaculada. Consagrar-se a Maria como escravo não foi uma ideia de frei Galvão, haja vista que esta devoção havia nascido séculos antes na Espanha em um Convento Concepcionista e foi divulgada fortemente nos séculos seguintes pelos franciscanos espanhóis.

O mais novo "servo" (o termo usado na cédula é escravo) de Maria na capital paulistana, com certeza tinha conhecimento desta antiga devoção e é baseado nela que o jovem sacerdote irá recorrer, quando é procurado por um fiel com dores renais. Em um pequeno pedaço de papel escreverá uma invocação à Virgem, mandará o fiel tomar com fé e devoção e o mesmo será curado.  Este pedacinho de papel ficou conhecido como “pílulas de Frei Galvão”.

3.    Nomeações e cargos

 

·         Porteiro do Convento em três mandatos – 23 de julho de 1768 / 27 de janeiro de 1770 / 30 de janeiro de 1773.

A portaria era considerada e estimada como o ponto chave onde os religiosos entravam em contato com a população da cidade de um modo geral; confiava-se normalmente a sacerdotes prudentes e de sólida conduta religiosa.

·         Membro da Academia dos Felizes – 25 de agosto de 1770.

Chamada de Sessão Literária Solene, foi convocada pelo Morgado de Mateus, o governador da capitania, Luís Antônio de Souza Botelho Mourão. Foi a primeira Academia de Letras em terras paulistanas. Dela tomou parte Frei Galvão, que apresentou 16 peças, todas elas em latim, bem como boa parte da intelectualidade e clérigos.

·         Confessor das recolhidas do Recolhimento de Santa Teresa.

Não há precisão sobre a data, mas muito provavelmente entre os anos de 1769/1770, cargo que exerceu até a fundação do Recolhimento da Luz. Aliás, foi do Recolhimento de Santa Teresa que saiu a madre fundadora do Recolhimento da Luz: Madre Helena Maria do Espírito Santo.

·         Comissário da Venerável Ordem Terceira de São Paulo – 9 de agosto de 1776.

Cargo que ocupou por vários anos: de 1776 a 1799, época em que orientava o Recolhimento da Luz e se empenhava em levar avante a construção do novo local de moradia das recolhidas e sua igreja.

 

4.    A construção do Recolhimento da Luz

O primeiro Recolhimento da cidade de São Paulo é o de Santa Teresa, que foi fundado em 1685, de orientação carmelitana e ficava próximo ao Convento daqueles religiosos, na antiga rua do Carmo no centro de São Paulo. Revitalizado pelo primeiro bispo de São Paulo a partir de 1745, foi por muitos anos o único espaço para acolher consagradas ou filhas, esposas e escravas de senhores na São Paulo colonial. Percebe-se que São Paulo não terá desde sua fundação grandes conventos e mosteiros femininos, fato este atribuído a escassez de mulheres brancas na vila.

Neste espaço, na condição de confessor das recolhidas, Frei Galvão irá conhecer irmã Helena Maria do Espírito Santo que lhe confessa ter visto em sonho a Nosso Senhor Jesus Cristo lhe pedindo para fundar um outro recolhimento na cidade. Depois de muito hesitar, consultar outros religiosos e pedir tempo para a irmã, o confessor aceita o desafio.

Era preciso, contudo, fazer-se o pedido da fundação ao rei e a seu secretário de Estado, o Marques de Pombal. O que se sabe é que a autorização oficial para a construção jamais chegaria na capitania de São Paulo. Contudo, sob a alegação de que o espaço não seria uma casa de religiosas, mas sim um lugar de retiro e recolhimento, o pedido é feito ao governador geral que lhes dá a autorização. No Natal de 1773, Madre Helena Maria receberá a informação oficial.

A primeira comunidade do Recolhimento é instalada em 2 de fevereiro de 1774 com a profissão religiosa da fundadora Madre Helena Maria realizada no Convento de São Francisco e o nome escolhido para o novo lugar: Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência. Que se destacaria a partir de então por sua devoção a Imaculada Conceição.

O que não era de se esperar era que um ano depois, em 1775, morreria a madre Helena Maria e o recolhimento ficaria sob o cuidado total de Frei Galvão. Neste ano também, com a saída do piedoso Morgado de Mateus e a chegada de outro capitão geral para a cidade, o recolhimento seria fechado por pouco mais de um mês. A pressão da população e a exigência de reabertura chegaram ao Rio de Janeiro que mandou reabrir o espaço.

Em 1788 é inaugurada uma nova ala para as recolhidas e em 15 de agosto de 1802 é inaugurada a Igreja.  Frei Adalberto Ortmman vai mesmo dizer que o Recolhimento da Luz é obra exclusiva da vontade de Frei Galvão, construído a duras penas em uma época de extrema pobreza na Capitania de São Paulo. Para as obras o religioso esmolou durante anos na Capitania. Ao morrer, em 1822, frei Galvão não viria as obras da torre da igreja concluídas.

O Recolhimento só será chamado de Mosteiro em 1929, quando as irmãs da Imaculada Conceição, Concepcionistas, passarão a viver definitivamente como as irmãs do Mosteiro da Luz. O recolhimento foi visitado por Dom Pedro II em 1846 e pela Princesa Isabel em 1885.

5.    Tentativas de transferência e nomeações; 

·                     Desterro ou degredo obrigatório em 1780.

Imposto pelo Capitão-geral Martim Lopes Lobo Saldanha a Frei Galvão, por envolvimento na defesa do soldado Caetaninho que apesar das intervenções, foi condenado a pena capital, após se envolver em uma briga com o filho do dito capitão. À saída do religioso da cidade, a Câmara Municipal de São Paulo se opôs, bem como uma parte da população que fez protestos em frente a casa de Saldanha. A sentença seria revogada e Frei Galvão voltaria para o Convento São Francisco.

·         Nomeado Presidente e Mestre dos noviços no Convento de São Boaventura de Macacu na Capitania do Rio de Janeiro – 6 de outubro de 1781.

A carta de nomeação foi retida pelo bispo diocesano, Dom Frei Manuel da Ressureição, impedindo que Frei Galvão partisse para o Rio de Janeiro para cumprir sua missão.

·         Guardião do Convento de São Francisco da Cidade de São Paulo.

Foi eleito para o cargo no dia 24 de março de 1798, o que causou espanto para as recolhidas da Luz. A questão era que como guardião suas funções impediriam uma assistência mais direta ao Recolhimento, bem como a continuidade das obras do edifício. Intervém em favor de Frei Galvão o bispo diocesano e a Câmara Municipal. O mandato terminaria pouco mais de um ano depois, em 28 de setembro de 1799. Pouco mais de um ano, seria novamente eleito guardião do Convento em 1801.

·         Definidor em setembro de 1802 para o Capítulo Provincial.

·         Visitador do Convento São Luiz em Itu aos 29 de outubro de 1804.

·         Presidente do Capítulo Provincial em 1808, função a qual renunciou por motivos de saúde.

 

6.    A morte e sepultura

Só quando as forças diminuídas lhe impossibilitariam a caminhada diária entre o Convento de São Francisco e o Recolhimento: “Chegou ao ponto de não fazer diariamente o caminho do Convento de São Francisco até o da Luz, no Campo do Guaré, embora a descida da figueira de São Bento estivesse melhorada, com a fatura de uma rua; chamou-se primeiramente de Miguel Carlos, depois, da Constituição e, finalmente até hoje, Florêncio de Abreu”, obteve ele a licença do superior e do bispo de permanecer nas dependências de sua obra, onde ficou até a morte.

Passou a habitar num quartinho contiguo ao Recolhimento, lugar muito ruim, de chão de terra, situado no local onde hoje está o locutório das irmãs, nos fundos da Igreja.

Morreu naquele pequeno quarto, às 10 horas da manhã do dia 23 de dezembro de 1822, assistido pelo guardião do Convento São Francisco, por outros religiosos e clérigos. Haviam se passado alguns meses da Independência do Brasil e este paulista que havia acompanhado toda essa história de perto, morria no alto de seus mais de 80 anos de idade.

Querendo o guardião, segundo o costume levar o corpo para ser sepultado no Convento de São Francisco, as irmãs e os moradores da Luz requereram ao Bispo Dom Mateus a graça de ser enterrado aí mesmo, na Igreja do Recolhimento, que ele mesmo construíra e onde gastara quase todas as suas forças e vivera os últimos dias de sua vida.

O bispo e o guardião consentem e na tarde daquele mesmo dia ele é sepultado na capela mor do Recolhimento da Luz, onde seus restos repousam em “tumulo perpétuo” até hoje no altar do grande Mosteiro. Em 2022 se completarão 200 anos de sua morte.

Recolhimento de Santa Teresa. Pintura de Alípio Dutra no acervo do Museu Paulista

Maquete do antigo Convento de São Francisco e suas igrejas

Fotografia do Recolhimento da Luz em final do século XIX

Torre da Igreja do Recolhimento de Santa Teresa em imagem do início do século XX


Resenha feita por Alvaci Mendes da Luz em 14 de setembro de 2020.
 

 

 

 

Um comentário:

  1. Parabéns Frei Alvaci. Obrigada por compartilhar conosco tanto conhecimento!

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