Império
à deriva
A
corte portuguesa no Rio de Janeiro
Patrick Wilcken
Um pouco
de história do Brasil não faz mal a ninguém, não é verdade? Aliás, gostaria de
perguntar aos leitores desta página, o que de fato nós realmente conhecemos da
nossa história? Esta tem sido uma pergunta recorrente e acho que respondê-la
deveria ser tarefa de uma vida. Digo isso, porque um povo que não conhece a sua
história está condenado a repeti-la e a cometer os mesmos erros do passado.
Prometemos
que a resenha de hoje vai ser leve, assim como o livro e as histórias que vamos
contar. Trata-se de fato de um título comercial, escrito por um jornalista, mas
que nem por isso perde seu caráter historiográfico. Vale ressaltar que o autor se
baseou em vasta documentação brasileira, portuguesa e britânica, bem como, teve
acesso a muitas fontes primárias para elaborar sua obra. A leitura flui com
leveza e tranquilidade, afinal de contas a linguagem é acessível e as fontes
históricas foram incluídas ao longo do texto sem perder a continuidade da
narrativa.
Recomendamos-lhe
a leitura do livro “Império à deriva”
do australiano radicado na Inglaterra e corresponde do jornal britânico “The Daily Telegraph” por longo período na cidade
do Rio de Janeiro: Patrick Wilcken. Foi na editoração do website de livros
daquele jornal britânico que Patrick se encantou pela história do Brasil
enquanto vivia na cidade maravilhosa.
Trata-se aqui de uma leitura complementar, daquelas que
fazemos para poder depois dizer com orgulho que conhecemos um pouquinho mais da
história do nosso país. Como seria bom se pudéssemos escapar do senso comum das
histórias pré-formuladas e muitas vezes mal contadas. Como seria interessante
se soubéssemos porque a família real fugiu às pressas para o Brasil? Ou porque
a Rainha Maria I era chamada de Louca? Ou ainda porque dona Leopoldina viajou
mais de oito mil quilômetros para se casar na cidade do Rio? Detalhes, que
podem passar despercebidos, é verdade, que podem ser até encarados como
“cultura inútil”, concordo, mas que fazem uma diferença significativa para quem
conhece o Brasil de fato.
Elucubrações filosóficas à parte, vamos ao que interessa. O
livro conta a saga da família real portuguesa ao cruzar o Atlântico para vir
morar, a princípio em caráter provisório, naquela que era a mais próspera de
suas cidades coloniais: o Rio de Janeiro. O autor deixa claro que a realeza
portuguesa não veio para cá motivada por vontade própria, afinal de contas, a
Europa era agitada por movimentos antimonarquistas desde que a Revolução
Francesa havia estourado. Napoleão, pouco a pouco, conquistava territórios,
derrubava monarquias e expandia seu Império. Os reis, um a um pediam refúgio
aos ingleses ou aos reinos do sul da Itália, mas só a corte portuguesa teve a
brilhante ideia de fugir para uma de suas colônias.
A transferência de uma monarca europeu e toda a sua corte
para o Novo Mundo era algo totalmente novo e inusitado. Em todas as colônias,
portuguesas ou não, o Rei e a Rainha eram figuras míticas, “semirreligiosas”,
inalcançáveis, distantes. Tão distantes da realidade local que era quase
impossível imaginar uma corte instalada nos trópicos. O fato era tão único, que
antes ou depois de Dom João VI, nenhum outro monarca europeu havia pisado ou
haveria de pisar em terras coloniais. Chegar ao Brasil, portanto, foi como que
inaugurar algo até então impensável: “a colônia viraria metrópole e a metrópole
viraria colônia”.
Fato é que depois de longa viagem, apesar do medo de Dom João
de navegar, das reticências de Dona Carlota e da longa e conturbada viagem,
aportava no cais do Rio de Janeiro a esquadra que trazia a família real portuguesa
e todo séquito imperial (nobres, religiosos, escravos, funcionários públicos)
ao Brasil. Eram quase 10 mil pessoas, mais de 30 navios e um vasto acervo móvel,
bibliográfico e até carruagens reais. Em Lisboa houve tempo de carregar a
maioria das coisas, mesmo que algumas delas, ficassem para trás, abandonadas no
cais do Tejo, na correria para escapar das tropas napoleônicas que se aproximavam
da capital lusitana.
Alguns detalhes curiosos e pitorescos são relembrados na
obra. Como o fato da infestação de piolhos na embarcação em que estava dona
Carlota, obrigando todas as mulheres do navio a rasparem suas cabeleiras e
desembarcarem na capital carioca usando perucas ou turbantes (a nova moda
europeia); Como também a apresentação de um príncipe regente (Dom João VI)
altamente inseguro e indeciso; Uma princesa Carlota Joaquina maquiavélica,
odiada pelos súditos e emaranhada em intrigas. Enfim, os relatos de viajantes
sobre a presença maciça de negros na cidade, do calor insuportável ou do cheiro
desagradável dos alagadiços ao redor de toda capital também são lembrados.
Colocando todos estes detalhes à parte, pitorescos e
carregados muitas vezes de preconceitos e adjetivações, o que salta aos olhos
do leitor é que a instalação da corte na cidade trouxe ao longo dos anos
seguintes uma série de mudanças e novidades. A chegada da corte obrigou a
cidade a se modernizar, afinal de contas ela se tornava sede Imperial. Palácios
foram construídos, nos anos seguintes, como o da Quinta da Boa Vista, o Palácio
de São Cristóvão, entre outros, bem como, melhorias significativas foram feitas
no Paço Real (a Versalhes brasileira).
Importantes intervenções também aconteceram no porto, no centro
da cidade e algumas casas de particulares foram confiscadas pela coroa,
tornando-se repartições públicas. O jardim botânico foi criado e foi, por longo
tempo, a menina dos olhos de Dom João. Ao decorrer dos treze anos de
permanência da família real na capital carioca, intervenções estruturais
importantes aconteceram, mas a maior delas, segundo a autor, foi a de caráter político
administrativo: a consolidação única de um território tão grande quanto o do
Brasil.
Durante a passagem da Família Real pelo
Brasil "algo notável se passara no Rio de Janeiro, sem paralelo na
história do colonialismo europeu", afirma. Relativamente ao Brasil, o
autor defende que a presença da corte foi essencial para manter um tão grande
território unido, para além da criação de várias instituições de utilidade
pública.
Vale ressaltar também o contexto sócio-político desta
presença logo no início do século XIX, o século das grandes mudanças. Como já
dito, os reinos europeus eram sacudidos pela era napoleônica; as colônias das Américas
eram varridas por uma “onda” patriótica/libertadora e o mundo eurocêntrico se
dividia entre duas superpotências: Inglaterra e França.
O interessante ao longo do livro é perceber este pano de
fundo geopolítico liderado pela Inglaterra e pela França em contexto global. As
lutas, conquistas e reconquistas dos territórios europeus e coloniais, refletem
consequentemente em todo o movimento global. O autor escreve “usando óculos” ingleses,
sem deixar de precisar, é claro, o foco central: uma família real portuguesa em
terras tropicais. Por isso mesmo, nomes do cenário político inglês da época, pouco
conhecidos até hoje, irão aparecer constantemente. Ora liderando a partir de Lisboa
como é o caso de Wesllesley, ora no cenário internacional abolicionista como é
o caso de Willian Wilberforce. A corte portuguesa havia escapado das tropas
napoleônicas, mas não escapara da superpotência inglesa.
A obra termina com o retorno de Dom João e sua esposa para
terras portuguesas. A bem da verdade, o monarca já estava gostando de ficar por
aqui e já não era sua intenção voltar tão cedo para a sua terra natal. Contudo,
os ânimos exaltados por aqui e por lá obrigaram o retorno do monarca. Dom João
VI voltaria para uma Portugal dividida e Dom Pedro I ficaria regendo uma colônia
envolta em revoltas e movimentos separatistas. De fato, pouco mais de um ano
depois daquele 25 de abril de 1821, o filho de Dom João declararia a independência
da mais próspera de suas colônias. Não houve grande derramamento de sangue. Isso não significa que não houveram movimentos separatistas e resistências localizadas. Diferente de outras partes das Américas, por aqui a guerra civil não teve espaço, mas também a autonomia local foi à moda lusitana. Nos próximos anos Portugal
continuaria “governando” novamente da Europa um país “independente” nas
Américas.
Dom João foi um dos
poucos monarcas europeus a reinar continuamente durante a era napoleônica – “o
único a me tapear em todos os tempos”, nas palavras do próprio Napoleão,
escritas durante seus anos de exilio em Santa Helena. Em retrospectiva, a
aventura brasileira foi um sucesso – da noite para o dia, os órgãos de um
Estado em funcionamento foram implantados na colônia, tornando relativamente
fácil a progressão para a independência. Isso se tornou um processo gradativo,
desde a abertura dos portos, em 1808, até a conquista de status de reino unido
a Portugal, em 1815, a partida da família real, em 1821, e o “grito do
Ipiranga” de Dom Pedro, em 1822. O Brasil foi predominantemente poupado da
violência que acompanhou a independência de seus vizinhos, e se manteve unido
como a única nação gigantesca que sobrevive até hoje. (Wilcken, 2005. p. 282)
Notas sobre o autor:
Patrick Wilcken nasceu em Sidney, na Austrália.
Estudou antropologia e fez mestrado no “Institut of Latin American Studies” em
Londres. Trabalhou no departamento africano inglês e na Anistia Internacional.
Mais recentemente tem escrito sobre o Brasil para os jornais The Guardian, The Index
on Censorhip e em outras publicações britânicas.
Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 07 de setembro de
2020.

Vidas Negras importam!! liberte se no 7 de setembro 2020 abaixo o racismo, facismo, ditadura, escraviao;
ResponderExcluirUma resenha impecável para uma obra prima. Que leitura agradável,muito boa! Parabéns Alvaci!!!
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