Flores, votos e balas: o movimento
abolicionista brasileiro
(1868-1888)
Ângela Alonso
Em
primeiro lugar, gostaria de começar esta resenha, agradecendo a todos que de
uma forma ou de outra chegaram nesta página. Não é nada fácil tirar tempo para escrever,
menos fácil ainda é tirar tempo para ler e se aprofundar em determinados
assuntos. Contudo, se você chegou até aqui é porque gosta deste tipo de desafio
e sabe o quanto os universos da leitura e da escrita ampliam nosso modo de ver
o mundo que nos cerca. Por isso, obrigado por ajudar-me a tentar enxergar o
amanhã usando os óculos do ontem. Que o passado sempre nos inspire a vislumbrar
o futuro.
Comecei
o texto dessa semana “quase que” filosofando, porque creio que para ler a
socióloga e historiadora Ângela Alonso, com maestria, é preciso ter um pouco de
historiador, sociólogo e porque não, pouco de filósofo. De antemão adianto, aos
que irão se aventurar na leitura, que as mais de quinhentas páginas do
majestoso “Flores, votos e balas” são
uma grande viagem que fazemos junto com a autora ao nosso passado recente de
conquistas, progressos e retrocessos, no que foi a luta pela abolição da
escravatura no Brasil. Aos olhos da autora: o primeiro movimento social
brasileiro.
A jovem
professora é livre-docente do Departamento de
Sociologia da Universidade de São Paulo, escritora e colunista da Folha
de São Paulo. Tem hoje 51 anos de idade e lançou seu livro, fruto de seis anos
de pesquisas, em 2015. Tem diversas entrevistas sobre o livro, o país e os
movimentos sociais, publicados nas plataformas digitais, facilmente acessíveis.
Para
começo de conversa, adianto que o livro é rico em detalhes, escrito em formato
jornalístico e pincelado, o tempo todo, com citações históricas. Por isso,
sugiro que antes de começar a ler você faça uma pesquisa, mesmo que superficial,
sobre o movimento abolicionista brasileiro. Digo isto porque alguns termos,
personagens e dados, citados ao longo da obra, sugerem um prévio conhecimento
do leitor. Não falo isso para desmotivá-lo, mesmo porque, a riqueza da obra que
será lida vale o esforço e essa resenha poderá lhe ajudar um pouco.
O título
flores, votos e balas, é um tanto
quanto instigante e é preciso ler a obra toda para compreendê-lo. Como eu sou
um cara legal, vou quebrar seu galho e resumi-lo em poucas palavras: trata-se
da forma que a autora encontrou de subdividir o movimento em três fases. As
três palavras traduzem os três principais momentos de um movimento, que segundo
a autora, foi bem maior e mais complexo do que geralmente é apresentado pela historiografia.
Sem mais delongas, vamos às fases:
A
primeira, a das flores, começa
tímida no início da década de 1860 e vai se estendendo ao longo da seguinte. É
um período em que o abolicionismo é marcado por conferências, concertos,
teatros, espetáculos, romances e onde pouco a pouco a tentativa é convencer a
opinião pública, de que a escravidão precisava ser abolida. Motivado pela
elite, alimentado nas esferas burguesas e regado a banquetes, essa primeira
fase é artística e pacífica. E porque as flores? A camélia, protagonista, é
distribuída nos espetáculos, ao final dos concertos ou usada na lapela como
sinal de identificação dos membros do movimento.
Enquanto
nos palcos a elite ia sendo convencida, no Parlamento e nas ruas arranjos
políticos eram feitos. Nas esferas governamentais Joaquim Nabuco é um dos que
operam o tempo todo em prol dos abolicionistas, enquanto figuras como Paulino José
de Souza estão do início ao fim na resistência: é a fase dos votos. Províncias como a do Ceará e a
do Amazonas, lideradas por políticos abolicionistas põem fim à escravidão em
1884, quatro anos antes da canetada da princesa, gerando reação contrária. O Ceará
por exemplo, se torna o “refúgio dos escravos fugidos” de outras províncias.
Aqui e acolá, a partir dos gabinetes, com a ajuda da imprensa e apoio popular,
regiões inteiras se declaravam livres.
No
Parlamento, a aliança entre abolicionistas fortalecidos e escravistas apoiados
pelo governo Imperial tenta chegar a um acordo sobre a Reforma proposta por
Manuel de Souza Dantas: fim gradativo da escravidão, “salário aos ex-escravos”
e um pequeno pedaço de terra aos mesmos. O objetivo da união e do apoio ao
governo era o de eleger um abolicionista para a chefia do Parlamento. O tiro saiu
pela culatra. Abolicionistas são derrotados nos votos (há controvérsias) e o
pior: é eleito para a Presidência do Conselho de Ministros um escravista ferrenho, o Barão de Cotegipe,
o mesmo que anos depois será um dos que irá votar contra a Lei Áurea e se pronunciar abertamente na frente da princesa: "Vossa alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono". A fase
seguinte, é a das balas.
Derrotados
nas urnas, mas não desmotivados nos propósitos, amplamente apoiados por
advogados, políticos e pela grande massa da população, a fase final do movimento,
a partir de 1885, será decisiva para a derrocada do regime escravista. É pela
luta como um todo, mas por este momento em particular, que Ângela Alonso, vai
dizer que o abolicionismo foi o “primeiro movimento social brasileiro". Ele
começa na elite, mas a transcende.
Agora
é a vez dos extratos médios urbanos, da participação popular: cocheiros,
lavradores, vendedores, comerciantes. A cereja do bolo: a grande maioria já não
denuncia mais as fugas e os esconderijos às autoridades, há uma adesão maciça à causa abolicionista. A falência de um sistema escravocrata enraizado e
alimentado por um grupo de fazendeiros endinheirados e de alguns políticos
ávidos pelo poder, viria em pouco anos.
O
gabinete do Barão de Cotegipe intensifica as perseguições aos abolicionistas e
seus dirigentes, e eles por sua vez, lideram e organizam fugas orientadas em
massa das fazendas, acoitamento de escravos fugidos nas cidades, casas e
comércios, apoiam a criação de quilombos urbanos, intensificam os ganhos de
causas judiciais, e até em última instância, organizam-se na luta armada.
O fim dessa
história a gente já conhece: Lei Áurea (aliás, esse nome aí já havia sido dado
a outra lei, assinada por Isabel em 1871, que fica conhecida depois como lei do
Ventre Livre). Não era como os abolicionistas tinham pensado o fim da
escravidão. Diversas vezes haviam apresentado no Parlamento um projeto de lei
que incluía proteção aos libertos, direitos sociais aos mesmos e a posse de uma
pequena propriedade privada.
O que
aconteceu nas vésperas daquele 13 de maio, logo após a queda dos escravistas do
poder, foi uma intensa negociação de André Rebouças (grande líder do movimento
cuja breve biografia apresento abaixo) com a Coroa. O medo era não ter outra ocasião
para tal e a escravidão bater às portas do novo século. Por fim, uma lei
simples: dois artigos e os ex-escravizados lançados à própria sorte. No dia
seguinte entrariam em cena os do contra, chamados de indenizistas, querendo da
Coroa indenização pelos escravos “libertados” pela lei.
Quando
a princesa Isabel assinou aquelas poucas linhas, o fim da escravidão já era
impossível de reprimir. Pressionada interna e externamente, afinal de contas a
Inglaterra que desde o início do século não dava sossego para a família Real,
resolveu apertar o cerco. Os vizinhos das Américas também, um a um, extinguiram
antes dela os regimes escravistas em suas terras. Naquele 1888, a princesa
estava sozinha, como último baluarte das Américas escravocratas. A Lei aprovada por votações na Câmara, no Senado e assinada pela Princesa Regente foi:
Artigo 1º - É declarada extinta, desde a data da lei, a escravidão no Brasil.
Artigo 2º - Revogam-se disposições em contrário.
De 13
de maio de 1888 a 15 de novembro de 1889, foram poucos os meses até que a coroa
caísse da cabeça da princesa. Escravistas sentindo-se traídos se aliam aos já
fortalecidos Republicanos, aliás, partido do qual a maioria dos abolicionistas
fazia parte. A República seria o novo passo em direção ao futuro. Muitas aspas
sejam colocadas aí, haja vista o golpe militar que instaura a República e as
“figuras” que sentam na cadeira da princesa. Mas essa já é uma outra página da
nossa história da qual o livro não tem a intenção de tratar.
Finalizo
com as palavras da autora:
Todos os brasileiros somos, de um modo ou
de outro, herdeiros do tipo de desfecho que teve a escravidão entre nós. A
decisão política, no pós abolição, de atrair europeus, em vez de incorporar
plenamente os ex-escravos à sociedade nacional, trouxe ao país levas de
imigrantes, como meus avós Maria do Carmo Soler e Felix Alonso Garcia. Se o
desfecho fosse outro, seríamos todos outros. Eles não teriam vindo ao Brasil e
eu não teria escrito este livro”.
Outros personagens importantes do
movimento abolicionista citados no livro:
André Rebouças -
Talvez seja um dos personagens centrais do livro. É como que uma figura
transversal. Está do início ao fim no movimento e na obra de Ângela. Negro, engenheiro
formado, diplomado. Pertence a uma pequena parte da imensa população negra e
mestiça que consegue ascender socialmente no Governo Imperial. Atua ativamente
no campo político a favor do movimento.
José do Patrocínio – Também
negro, mas não com a mesma sorte de ascenção social de Rebouças. Filho de padre
branco (o vigário de Campos de Goytacazes) com a sua jovem escrava. A
mestiçagem vai ser um empecilho social para se formar em medicina, consegue no
máximo ser farmacêutico. Opera fortemente a favor do movimento no espaço
público e na imprensa.
Luiz Gama – Outro
negro que sofreu na pele a discriminação da cor. Filho de português branco e
mãe negra, não lhe permitem estudar na Faculdade de Direito do Largo São
Francisco, mas nem por isso ele deixa de advogar. Usou a estratégia de
mobilização do sistema jurídico.
Impetrava
ações argumentando que existiam leis a favor dos escravizados e que elas
deveriam ser colocadas em prática. Construiu uma linha de ativismo toda
própria. Morreu cedo, mas foi transformado no grande herói da campanha. Atuação
ativa e ao mesmo tempo clandestina.
Antônio Bento – Herdeiro
de Luiz Gama na causa em São Paulo. Branco, relativamente bem-posto na vida,
juiz e católico. Era do partido Conservador, vale lembrar que a maior parte dos
abolicionistas eram ou liberais ou republicanos. Antônio Bento é cheio de
contradições.
Figura
importante na fase final da campanha porque tem facilidade em esconder escravos
fugidos, tem ligação com a Igreja Católica e incentiva a fuga dos escravizados
nas fazendas. Atua constantemente interligado com outros abolicionistas, mas de
uma forma mais clandestina.
Abílio Borges – Médico
baiano formado em Salvador, é um dos brancos da elite que aderem a causa. O
mais interessante é que durante seu período como professor, fazia questão de
incutir na cabeça de seus alunos ideias abolicionistas. Um dos mais famosos
deles foi Castro Alves, que fica conhecido posteriormente como o poeta dos
escravos. Abílio atua nos bastidores, faz conexões internacionais e busca apoio
no estrangeiro para a causa em terras brasileiras. Ângela vai dizer que a
descoberta de um Abílio Borges abolicionista foi uma de suas maiores surpresas.
O mesmo não é comumente apresentado como tal nos livros de história.
O recenseamento de 1872 e pesquisas recentes corroboram os indícios que existiu certa ascensão social dos negros livres na cidade de São Paulo, com paulatina inserção no trabalho assalariado, na compra ou na posse de pequenas propriedades e no acúmulo de bens. [...] Florestan Fernandes sustentou que a exclusão social a que o negro foi submetido, quando da formação do mercado de trabalho assalariado, era resultado do abandono das elites que os "atirou a própria sorte" ao final da escravidão. Os documentos analisados em pesquisas anteriores e a bibliografia consultada apontam que os negros possuíam qualificação profissional para exercer os mais variados trabalhos - e não fizeram "opção pelo ócio", como já foi afirmado por outros pesquisadores - uma vez que, efetivamente, exerceram inúmeros trabalhos, ainda que proibidos, e ao longo do século XVIII e XIX, viveram um processo de adaptação à cultura capitalista, acumulando bens e valores em moeda ou metais preciosos. Ou seja, se as elites tivessem simplesmente "atirado os escravos a própria sorte", certamente a integração econômica e social teria acontecido e se ampliado. O dado novo é que as oligarquias fizeram mais do que desprezar o trabalhador negro. Segundo o que nos indicam os parágrafos da legislação (em particular os códigos de posturas) e a partir das elaborações teóricas que davam sustentação àquela legislação podemos concluir que houve uma ação deliberada no sentido de marginalizar os ex-escravizados e seus descendentes. (Ferreira, Abílio. Tebas: um negro arquiteto na São Paulo escravocrata. São Paulo: IDEA, 2018).
Link sobre líderes negros nos anos que
antecederam a abolição:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44091469
Link de matéria sobre as "Províncias" que aboliram
a escravidão antes da Lei Áurea:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48234172
Entrevista de Ângela Alonso à TV Cultura:
https://tvcultura.com.br/videos/50922_historia-movimento-abolicionista-angela-alonso-fflch-usp.html
Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 24 de agosto de 2020.

Adorei a leitura, obrigada Frei pela preocupação e cuidado em transmitir conhecimento nesse tema que até hoje é pouco conhecido e tão importante.
ResponderExcluirMuito bom a leitura!!
ResponderExcluirMuito bom!É fundamental jogar luz sobre a história e, heroicamente, tentar diminuir ignorâncias e preconceitos que se mantêm vivos em corações, mentes e imaginários escravocratas (ainda que não o saibam/admitam).
ResponderExcluirQue ótima leitura, Frei.
ResponderExcluirMe sinto caminhando pela nossa história... obrigada pelo texto ;)
Adorei a viagem pela história, Frei. Fico imaginando como o país seria bem mais desenvolvido econômica e socialmente se o movimento abolicionista, enquanto movimento social tivesse tido êxito, com terras e salários aos ex-escravos. No lugar, o que houve foi bem pior do que o "deixados à própria sorte" e vemos no que se tornou o país. Talvez também não estivesse comentando aqui, se o movimento social tivesse vencido, mas o Brasil certamente estaria econômica e socialmente muito melhor do que está agora.
ResponderExcluirOtima resenha Frei. Gravei no meu computador. Temos muita ruwue
ResponderExcluirMuito boa resenha Frei. Temos muita riqueza histórica e é muito bom conhecer. Agradeço por ter me enviado.
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