Homens livres na ordem escravocrata
Maria Sylvia de Carvalho Franco
Como já dito em postagens anteriores,
nosso intuito nestas páginas é ajudar o leitor a ampliar seu repertório sobre
obras clássicas da História do Brasil, bem como, despertar o interesse para a
leitura destas mesmas obras. Em tempos de leituras apressadas, de opiniões
formadas a partir de “manchetes” ou de postagens com um número reduzido de
caracteres, desafiar-se a leitura de livros como o que vamos sugerir agora, é,
sem sombra de dúvidas, enriquecer a estante intelectual sobre a qual se
formarão suas opiniões, ideias, atitudes e conceitos.
Publicado pela primeira vez em 1969,
“Homens livres na ordem escravocrata” teve que esperar cinco anos desde que foi
escrito e defendido como tese de doutorado, para ser publicado e acessível ao
público. Maria Sylvia havia passado os últimos anos estudando e escrevendo sua
obra. Ela não esperava, porém, que aquele 1964, ano da conclusão e defesa do
trabalho, entraria para a História como o início do que viriam a se tornar
posteriormente os anos de repressão, da censura, do AI5, das mortes,
perseguições políticas, enfim, os famigerados “Anos de Chumbo”.
Não é por menos, dentro do contexto
social da década de sessenta e formada na escola do sociólogo Florestan
Fernandes, que a autora irá dialogar durante toda sua obra com grandes nomes da
história intelectual, política e social do país, a saber: Antônio Cândido,
Sérgio Buarque de Holanda e o próprio Florestan. O leitor atento, porém, irá
perceber a presença constante da escola alemã nas entrelinhas: Marx e Weber.
A base da pesquisa é um apanhado de
“processos-crime” do século XIX recolhidos no Vale do Paraíba paulista. Aliás,
o começo do livro é justamente a apresentação de um desses processos na íntegra,
o que faz com que o leitor já comece mergulhando na ideia do que a autora irá
explanar ao longo do que se seguirá. Não à toa, o primeiro capítulo é
intitulado “Código do sertão”, segundo o qual a violência é umas das bases das relações
sociais naquele meio, onde vivia o caipira pobre livre do século XIX. As
relações giravam, para Maria Sylvia, constantemente, entre violência e favor,
escravismo e trabalho livre. É na análise desses processos-crime e na vida
simples daqueles homens e mulheres, que se fundamentará a pesquisa.
Afirma a própria autora, em resposta a
um texto crítico de Boris Fausto à sua obra, publicado na Folha de São Paulo no
dia 14 de setembro de 1997:
“Fausto
pretende invalidar a documentação e esmaecer suas perturbadoras evidências,
dizendo que os processos crimes limitam-se a âmbitos restritos. Isto bem mostra
que nunca atentou para esse acervo. O leitor pode verificar seu desacerto
apenas percorrendo o longo e comovente testemunho que abre o primeiro capítulo do
livro: todos os aspectos da cultura, recolhidos no conceito de comunidade,
desdobram-se diante de nossos olhos: integração à natureza, relações
socioeconômicas, sentimentos, ideário, religiosidade, associados a um outro
elemento excluído daquela teoria: a grande violência que lhes dá sentido.
Sobretudo a linguagem nos transporta para um mundo concretamente representado.
”
O que se verá no desenrolar da leitura é
um grande trabalho de apresentação do homem livre pobre dentro de um sistema
social vigente: o regime escravista. A autora conseguirá nas linhas que seguem,
confrontar o dualismo vigente até então, apresentando uma sociedade que girava
em torno do escravismo sim, mas ao mesmo tempo conciliando as vivências não
escravas. Explico: a presença do trabalho livre, enquanto fenômeno constitutivo
do mundo moderno, pela mediação de seu contrário, o trabalho escravo, aqui nas
terras de além mar. Não se trata, portanto, de dois polos separados, mas dois sistemas
que dialogam: escravismo-capitalismo. Aliás, este será o tema central de todo o
livro. Diz Maria Sylvia:
“Meu ponto de
partida foi exatamente esse rumo no desenvolvimento socioeconômico orientado
pelos vínculos entre trabalho livre e trabalho escravo, definindo o sentido da
produção colonial moderna, essencialmente diversa do "escravismo"
antigo. Basta ler a introdução ao livro, onde enfrento a questão dos nexos
intrínsecos entre escravidão moderna e trabalho livre e questiono, nos seus
fundamentos, a tese da exterioridade desses termos e os supostos limites
intransponíveis entre escravismo e capitalismo, como reza a ortodoxia marxista.
”
Com maestria, digna de um clássico, os
personagens vão sendo apresentados aos poucos para darem sentido a tese
central. São eles os homens livres pobres, que orbitam em torno do grande
latifúndio ou dos proprietários de terra, que irão fazer girar as engrenagens
do sistema. Nesta altura da leitura aparece o vendeiro, com sua “venda”
instalada nas beiras das estradas, em regiões próximas às fazendas ou das
pequenas vilas. O vendeiro é uma espécie de ponte entre a vila, o fazendeiro e
seus escravos. Outro personagem curioso que será apresentado é o tropeiro. Ele
conhece as estradas, os animais, se estabelece entre suas criações e algumas
terras “emprestadas” em um constante vai e vem. Negocia com o vendeiro, transporta
para o fazendeiro, viaja para as cidades. Tanto o vendeiro quanto o tropeiro
são homens livres que se deixam influenciar por um pedaço de terra para criar
suas mulas, por um saco de café a mais ou pela negociação mais lucrativa com
este ou aquele fazendeiro.
Ao redor das fazendas, cultivando a
terra, mas não a possuindo, estão outras figuras muito significativas neste
processo de dominação do homem livre: o sitiante e o agregado. Homens e suas
famílias pobres, brancos ou negros, estas pessoas orbitarão em torno dos
fazendeiros e seus favores, serão os “dominados” pelos fazendeiros. Convencidos
a trabalhar por pouco, por trocas de favores, venda de votos, compadrio, enfim,
a exploração do “trabalho livre” destes homens e suas famílias se formará à
base da corrupção e da dominação pessoal. Estas pessoas, estabelecidas em
terras que não são suas, estarão sempre devendo favores para aqueles “bons
homens” que os fizeram o grande favor de deixar cultivar e trabalhar em suas
posses.
Enfim, para a autora, estão os homens
livres pobres dentro da dinâmica do capitalismo nascente que gira em torno das
grandes propriedades escravistas. Nestas terras, estes dois polos distintos,
mas igualmente controlados, irão entrelaçar-se: trabalho livre versus trabalho
escravo. No Brasil, o capitalismo nascente, irá saber conciliar muito bem a
dominação pessoal, a troca de favores e os seus resultados. Técnicas de
controle das liberdades que irão perdurar até os nossos dias.
“Mas o que
incomoda? O livro traz algo essencial, estrategicamente excluído na resenha:
para usar palavras de Nabuco, a alma humana posta em leilão, com seus
fundamentos, processos e resultados produzidos pela magia do mercado. Tudo se
vende, compra, troca, na esteira da velha dominação pessoal reativada nos
salões oficiais de hoje. "Negociar" tornou-se virtude política. As
evidências empíricas espalham-se pelas folhas dos periódicos. A estrutura mais
profunda, a chave do sucesso no torneio das vontades, na corrupção do juízo e
da prática, está no gesto, agressivo e afável, que se chama favor, sobejamente
discutido nos "Homens Livres".
Os trechos citados em itálico ao longo do texto, são retirados da réplica da autora sobre um texto crítico de Bóris Fausto, publicado na Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs140921.htm
Notas sobre a autora
Maria Sylvia de Carvalho Franco nasceu em 1930 em
uma família tradicional da elite paulista. Formou-se em ciências sociais pela
Universidade de São Paulo (USP) em 1952 e foi colega de turma do ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso. Doutorou-se em 1964, sob a orientação do sociólogo
Florestan Fernandes, com a tese "Homens Livres na Velha Civilização do
Café", tese que se tornaria cinco anos depois o livro “Homens livres na
Ordem Escravocrata” considerada por um júri de intelectuais um dos 20 ensaios
mais significativos da história do país.
Maria Sylvia dirigiu o Departamento de Filosofia
da Universidade de São Paulo (USP) nos anos mais repressivos da ditadura.
Tornou-se livre-docente em 1970 e professora titular em 1989. Aposentada na
USP, transferiu-se para o Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp), do qual se tornou professora titular em 1999.
Imagens ilustrativas
Partida para a colheita. Vale do Paraíba. 1885Resenha escrita por Alvaci Mendes da Luz em 20 de julho de 2020.




Frei Alvaci, incrível texto! Muito obrigado, sou educador em História da Arte e Arquitetura e da Cidade de São Paulo em nível de iniciação, isso me ajuda muito a contextualizar para os alunos, minhas explicações!
ResponderExcluirCaro Roberto. Obrigado pelo comentário e por se interessar por este conteúdo. Iremos procurar sempre disponibilizar material de qualidade por aqui. Sugira a seus alunos a leitura do blog. Grande abraço!
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